PARE DE TENTAR ME FAZER FELIZ – GAEL RODRIGUES

Capítulo Um

Sentei num dos galhos da goiabeira. A coitada estava velha e seca, os poucos frutos que brotavam eram miúdos e infestados de bicho, como se depois de certa idade estivesse cansada de gerar goiabas saudáveis. Podres desde sua seiva. Para sorte da frágil madeira, eu me confundia com um graveto entre as folhas amareladas. Onze anos, torto e magrelo como a maioria dos meninos da rua, apesar de ser diferente dos meninos da rua. Do alto da copa, os telhados vermelhos das casas borbulhavam. O sol de quarenta graus derretia o que encontrava pelo caminho, proibindo seres viventes de sobreviverem. Procurei por todos os lados. Nenhum sinal dele.

— Nada ainda?

Minha irmã perguntou debaixo da árvore. Estranhei ela estar preocupada com ele, ou com minha preocupação. O mais provável é que estivesse se divertindo com minha busca. Tinha dois anos a mais que eu, mas, por ser menina, parecia ser uns seis mais velha. Eu ainda criança e ela quase mulher. Agia como. Se sentia como. Apesar de brincar de boneca comigo às escondidas: ela para não ser descoberta pelas amigas e eu pelo  resto do mundo. Um dos muitos segredos que carregávamos mesmo jovens.

Desci do galho, era quase hora do almoço. O cheiro do feijão se misturava e digladiava com o das outras casas. Era a batalha silenciosa das mães e donas de casa: ao meio-dia deviam receber os filhos que chegavam da escola e os maridos do trabalho. Haviam limpado a casa, varrido o terraço, preparado o almoço. Um item a menos as transformariam automaticamente em mulheres desleixadas e desatenciosas. Uma cidade pequena onde a maioria almoçava em casa e em seguida tirava um cochilo. Depois os maridos voltavam ao trabalho, as crianças iam para a escola ou ficavam em casa— e a batalha para limpar novamente cada cômodo, ainda limpo, e preparar o jantar até as 6 da tarde, se reiniciava.

Há tempos não volto a Pedra Bonita, mas acredito que pouco tenha mudado. O tempo em cidades pequenas se arrasta, e na minha estacionou junto ao ar quente abafado. O cheiro, a cor, o gosto devem ser os mesmos dos anos 90.  Com o tempo parado posso voltar àquela época. Ela me espera até hoje, para relembrá-la e assim poder voltar a seguir. Contando o que aconteceu, ela e eu seremos libertados.

— Vai tirar essa farda, seu pai está chegando.

Ele está atrasado, eu podia ter respondido a mainha. Nos últimos dias vinha demorando no almoço e no jantar. Ainda bem. Eu preferia comer sem ele à mesa. Éramos repreendidos pela forma que nos portávamos ao comer, mas ele agia como queria. Entrava na cota daqueles que agem da forma que querem, sem nosso questionamento: mais velho, autoridade, pagava as contas. Me incomodava o barulho que ele fazia enquanto comia. Deixava a boca aberta, fazendo com que o mastigar se misturasse à respiração. Por vezes, parecia o som de um porco indo ao abate. Como era vedado repreendê-lo, cabia a mim apenas o desejo que se atrasasse.

Mainha havia terminado de preparar o almoço e, após tomar banho, remendava na máquina de costura uma calça, das duas que eu tinha para o colégio.

— Não sei se você tem cadeira na escola ou sai ralando esse rabo no chão.

Cada vez mais estava mal-humorada, pouco carinhosa. Lembro de ela ser mais cuidadosa quando eu era menor, mas são memórias tão fugazes que tenho medo de tê-las inventado na ânsia de perdoá-la. Eu tentava tomar mais cuidado no meu agir, mas fazia pouca diferença. Era fácil irritá-la. Acho que ficar em casa, repetindo os fazeres, evitando o ser, deixou ela amarga. Despender o dia cozinhando e limpando a casa por treze anos seguidos também me endureceria. Atividades tão óbvias e banais que tiveram elogios no início, mas desgarrados aos poucos logo após casar. Tenho dúvidas se um dia recebeu elogios por algo que foi ensinado como sua obrigação. Estou sendo otimista. Eu a irritava simplesmente por existir, e talvez esteja aí o germem de  minha paranoia— minha mãe me odiava, a primeira a me odiar, depois o resto do mundo.

Corri para o pequeno banheiro com a porta cheia de frestas. Tomava cuidado para que os remendos encobrissem minha nudez, então tirava a roupa com pressa e me escondia atrás da cortina que separava o chuveiro da privada. A água gelada caía sobre minha cabeça, refrescava meu corpo suado e o sabonete dava tudo de si para fazer espuma. A água da cidade era salgada e sem muito tratamento. Lavava o cabelo quando minha irmã entrou. Odiava quando ela fazia isso. Sempre fazia. Sentou na privada de porta aberta e urinou, ignorando minha presença. Tinha uma relação com o corpo diferente da minha. Me sentia torto e desengonçado e queria esconder cada pedaço possível. Ela andava com os peitos de fora, mesmo crescidos, sob os gritos de minha mãe. Prendi a respiração debaixo d’água atrás da cortina esperando que fosse embora.

Após o banho tomado, de short e camisa, apesar do calor que já me arrancava suor, voltei a procurar.  Embaixo da mesa só alguns de seus pelos. Levantei o lençol da cama e do escuro abaixo do colchão nenhum sinal dos olhos verdes brilhantes. Pela centésima vez fui ao beco. Só lama e mato. A vasilha com sua comida continuava cheia, intocada. Há uma semana evaporou-se. Era comum sumir às vezes, mas voltava.

Numa cidade pequena como a minha, gatos diferem de animais domésticos como um cachorro ou pássaro. Por terem a liberdade dos quintais, portas abertas, é mais fácil encontrá-los em muros, telhados. Juntos, em bando miando, tramando formas de dominar o mundo ao invés de dormirem na sala de estar. Voltam para as casas, muitas vezes para descansar das aventuras, não necessariamente para seus donos. Por isso são tão intercambiáveis: a cada ano, as casas têm novos bichanos, uns morrem do veneno que o vizinho velho mal-humorado espalhou pela rua, outros atropelados, e alguns simplesmente somem como canetas. Gatos de rua são como canetas. É comum os donos manterem o mesmo nome para todos que vão se substituindo, de modo que ninguém chora pelo gato morto ou perdido. Em dias haverá outro.

Fofinho não era caneta. Só havia ele. Ele era meu. Estava comigo há tanto tempo que seu nascimento se misturava à minha curta vida. Apesar de quatro camas na casa, um terraço, um quintal e tantos cantos possíveis onde pudesse dormir, era na minha cama, aos meus pés que passava as madrugadas. Numa vida tão sem carinho, eu sentia o carinho dele. Eu por ele, ele por mim, como se isso fosse possível. Eu, acostumado a apanhar de mainha, dos meus irmãos, tios, e avó, via nele a centelha da possibilidade: se eu desse amor, receberia em troca. Deveria receber amor. O amor havia sumido.

O barulho no portão avisou que painho havia chegado e era hora de comer. Alarme falso. Era meu irmão, que demorou um pouco mais no caminho da escola para casa, afinal é isso que pessoas com amigos fazem, demoram-se. Eu chegava muito rápido.

Tinha um ano a mais que eu. Um a menos que minha irmã. Por um mês eles tinham a mesma idade, o que levava às pessoas fazerem contas, soltarem risinhos, perguntarem como se é possível, esquecendo que a gestação difere de um ano, apesar de parecer ser permitido apenas um filho anualmente. Nossos pais nos tiveram de uma vez para tirar logo da lista a obrigação de ter filhos, assim, no plural. Gostavam de repetir que éramos uma escadinha, um jeito divertido de esconder sermos itens riscados da lista.

Da sala, ouvi um barulho no quarto de algo sendo jogado no chão. Corri para lá.

— Já falei para tirar suas coisas do meu território.

Meu irmão falava assim comigo. Usava um vocabulário bélico ensinado nos Cavaleiros do Zodíaco ou qualquer outro desenho japonês violento que de segunda a sexta parava para ver. Dividíamos o mesmo quarto, mas ele o repartia milimetricamente como se fosse uma trincheira. Eu, desorganizado, esquecia as regras que em nenhum momento me foram colocadas para negociação. Ele como irmão mais velho ditava as normas, justas sim, para que mentir: metade era meu e metade era dele. Mas essa tensão permanente me deixava ansioso num sentimento que se aproximava muito, espero estar errado, ao ódio. Apesar das camas lado a lado, ou exatamente por essa proximidade, éramos soldados de exércitos opostos. Diziam que era normal a briga entre irmãos, que com o tempo iríamos ser melhores amigos, mas eu brigava com minha irmã sem desejar sua morte.

Peguei minha mochila do chão e coloquei na cama, calado, sem revidar. Dentro estavam os livros do colégio. Levava a maioria todos os dias. Achava que em algum momento da manhã precisaria urgentemente verificar alguma coisa, ter certeza de outra, e de nenhuma forma poderia esperar. O peso da mochila quase igual ao meu me causou uma hipocifoescoliose, meio torto para frente, capengando para o lado, como um médico do posto de saúde diagnosticou. Adorava essa palavra. Hipocifoescoliose. Repetia com orgulho tal qual um troféu. Era a prova de meu esforço nos estudos. Ser feio e desengonçado fazia parte do pacote. Beleza era contraponto de inteligência. Era o mais inteligente de minha sala, e isso bastava.

Além dos livros das matérias normais dentro da mochila, havia outro de ficção que pegava na biblioteca. Sorte minha a existência dela depender mais de alguma obrigação moral da escola do que de demanda. Vivia vazia. Muitas vezes assinava o empréstimo de um livro logo após minha própria assinatura de dias atrás. Pouco gostava de brincar com os outros meninos, na verdade, me dava mal com a maioria deles, então lia às tardes. Quando começou? Sei que mainha comprava livrinhos baratos para a gente no início do ano, painho trazia gibis da Turma da Mônica, mas poucas vezes os vi lendo. Da minha família, lembro apenas de meu tio mais velho com um livro aberto. Era o único que havia estudado na verdade. O único que vivia longe da cidade de meus avós. Todos os cinco tios e tias moravam juntos, meus pais em nossa cidade a uma hora deles, mas meu tio vivia em São Paulo há anos. Diziam que éramos parecidos, e sempre que diziam, eu ficava feliz. Também queria viver longe de todos.

Enquanto separava o livro que havia pegado para ler à tarde, entrevi meu irmão tirando da mochila uma pequena revista. Fingindo que arrumava a cama, colocou-a embaixo do colchão. Em meio à nossa batalha, evitávamos o confronto direto, fosse verbal ou corporal; brigávamos pouco na verdade, e, com isso, desenvolvemos técnicas silenciosas de fingir. Por exemplo, eu fingia que ele não tinha essas revistas de safadeza embaixo da cama e ele fingia desconhecer que eu as ‘lia’ quando estava longe. Ele, propositalmente, deixava na mesma posição, com alguma página amassada, com algo em cima que seria deslocado caso eu pegasse. Eu tentava apagar vestígios, mas era impossível. Ele era muito meticuloso. Às vezes bufava ao perceber que a cama estava com o lençol um pouco remexido. Deixava claro, bufando, que sabia que eu era um bisbilhoteiro, mas, ao mesmo tempo, continuava escondendo no mesmo lugar. Acho que era sua forma de manter uma tênue cumplicidade de irmãos.

—  Você viu Fofinho?

Balançou a cabeça. Evitou meus olhos. Tentei decifrar se estava com raiva por causa da mochila ou porque sabia algo sobre o gato que eu desconhecia.

— Venham comer logo.

Mainha chamou para a mesa, ela iria logo depois. Que comêssemos o necessário, nosso pai devia chegar em instantes. Nessa época, as regras antes duras foram se afrouxando. Nesse dia, pela primeira vez, não precisamos esperar painho; pouco depois comer à mesa deixou de ser obrigação, a televisão estava liberada, o que parecia um pecado capital até pouco tempo antes. Sinais dos anos vindouros em que pouco a pouco ela relaxou mais e nem comida no fogão era garantido ao meio-dia.

Nós três comemos calados à mesa. Sentíamos mesmo em outro cômodo que mainha estava mais irritada que o normal, e isso devia ter alguma conexão com os atrasos de nosso pai. A nós estava vedado o direito a perguntas, mas eu era bastante atento aos pequenos sinais. A comida, que de praxe estava longe de ser boa, estava pior. Normalmente, o feijão era gostoso, mas o resto era bastante comum: um arroz branco, um macarrão sem molho. Alguma carne cheia de nervos e gordura acompanhava. Enchíamos de farinha ou maionese para no final ter sabor nenhum.

Havia uma certa tensão para acabar logo, ou para evitar barulho, manter a ordem, ou fingir que a comida era boa, ou porque detestávamos conviver naquele momento na mesa. Não sei quais as questões deles, mas as minhas eram todas essas. Eu tinha onze anos, mas o peso que me acompanharia pela vida já me assomava desde o acordar. Quando começou, desconheço, mas eu era pesado.

Crack.

O copo caiu no chão. Meu copo caiu no chão. Sem intenção, e normalmente isso acontecia, eu deixava objetos caírem, se quebrarem. O vidro espatifado e o suco de acerola espalhado pela cozinha. Me tremi por dentro. Ouvi mainha levantar da máquina de costura. Eu sabia o que ia acontecer. Veio gritando meu nome, sabia de antemão que era eu, e eu, por conhecer o roteiro do que aconteceria, continuei sentado. Depois de tanto apanhar, não corria mais para evitar. Sabíamos o que acontecia. Nossa vida desde cedo era uma mera repetição, como se Deus fosse avesso a gastar muitas narrativas com uma família tão pobre e sem graça. Minha única rebeldia e desrespeito ao arco instituído divinamente era aceitar o tabefe que estava me dando com a sandália. Um na cara, outro nas costas, outro no braço. Doía sim, deixava marcas que durariam a tarde inteira, mas continuei sentado esperando ela parar, assim eu voltaria a comer.

— Menino ruim, nem chora.

Choraria sim, mas distante dela ou dos meus irmãos. Doía muito. Mas se eu chorasse na frente deles estaria perdendo duas vezes. Sim, talvez fosse um menino ruim desde cedo.

Como apanhei sem chorar, e ela me acusou de deixá-la nervosa, mandou eu sair da mesa, direto para o quarto. Meus irmãos continuaram comendo como se nada tivesse acontecido. Se sempre acontecia, nunca acontecia. Levantei calado, feliz por poder ir para minha cama chorar sozinho, quase sucumbindo. Deitei na cama, coloquei o lençol em cima do rosto e chorei tentando calar o som. Até hoje choro tendo espasmos, por tentar conter o som que o choro tem. Choro mudo dói como se eu estivesse apanhando novamente. No fim eu havia perdido mais que duas vezes. Ao menos, não suspeitavam.

Continuei deitado na cama para as lágrimas e espasmos se dissolverem. Ainda bem que Fofinho desapareceu. Quando eu chorava, me olhava com olhos arregalados como que entendendo, como que tentando me ajudar de alguma forma.

Meu irmão voltou para o quarto, minha irmã foi para o dela. Ambos se deitaram para dormir. Nossos quartos careciam de portas, e o meu dava acesso ao da minha irmã. Essa falta de privacidade me incomodava. Sem porta um quarto não é um quarto, e uma pessoa se torna metade-pessoa por ignorar o limiar de sua intimidade do restante da casa.

Em pouco tempo, eles adormeceram. Eu não. Tentei, mas lembro de poucas vezes ter conseguido dormir depois do almoço. Mesmo à noite, demorava horas para cair no sono. Minha cabeça numa ebulição de pensamentos que impediam o descanso. Minha cabeça para meu terror nunca descansava.

Peguei o livro da biblioteca, levantei silenciosamente, sem saber se podia sair do quarto que nem quarto era, porque mainha esqueceu de definir regras para o castigo. Uma forma de eu estar errado em qualquer circunstância. Pelo silêncio, imaginei que ela também estivesse dormindo. Andei na ponta dos pés até chegar em frente ao quarto dela. Esse era um quarto, tinha porta e a porta estava fechada. Também dormia. Ao redor tudo dormia. Mesa, sofá, a televisão desligada. O calor que derretia também colocava a casa para cochilar. Menos eu.

A casa de telhados estava escura, apesar de ser uma hora da tarde. Tínhamos poucas janelas, as casas eram muito próximas umas das outras, e apenas uma telha de vidro na sala clareava um pouco o ambiente. Aproveitei o cochilo coletivo e fui para o terraço. Gostava de ler no terraço porque o chão vermelho era friozinho. Colocava uma almofada na parede e deitava, apoiando o livro na barriga. Havia poucos carros, algumas bicicletas, uma ou outra pessoa que cruzava falando alto, e as pessoas falavam muito alto, mas fui desenvolvendo uma concentração apesar do permanente barulho ao redor.

A bibliotecária havia me indicado um livro que chegara há pouco. Ela era jovem e bonita, uns vinte e poucos anos, mas eu a chamava de senhora, por ser incapaz de tratar sem cerimônia qualquer pessoa que tivesse um ano a mais que eu. Me entregou toda animada, orgulhosa de saber como agradar um dos poucos usuários de seu trabalho. Era de uma coleção que eu devorava, Vagalume acho, isso, Vagalume, com histórias de suspense, jovens em aventuras, crimes, algo parecido com os filmes da Sessão da Tarde. Lembro o desse dia: um grupo de garotos que buscam um amigo desaparecido. Me deixou a sensação de estar pouco fazendo na prática pelo sumiço de Fofinho. Deveria, assim como eles, sair pelas ruas, juntar esforços. Mas quais amigos para conclamar a sair numa aventura? Minha única ousadia era pular de um parágrafo para outro e desvendar os mistérios à medida que os personagens também conseguiam. Quando dava partida na leitura, esquecia os tabefes, os gritos, a falta de amigos e tantas faltas. Enquanto as engrenagens do livro estivessem em movimento eu estaria completo.

Virei a primeira página, segunda, terceira, lendo, indo, afundando, e em alguns instantes estava junto com aqueles garotos pela Rua Quinze à procura do personagem desaparecido. Os minutos corriam, as pessoas gritando pela rua, o carro de som cantando algo, minha casa que já acordava após o cochilo, e eu continuava ali como que coberto por uma capa de invisibilidade. Era isso. Mainha abriu a porta e passou a varrer o terraço. Nada falou comigo. Meu irmão correu com uma bola e foi chamar outros meninos na rua para brincar. Me ignorou. Minha irmã saiu apressada, atrasada para a aula de educação física no colégio. Passou direto por mim. Com o livro nas mãos, eu era invisível. Isso era bom.

— O que você está lendo?

Invisível, mas nem tanto. Era o menino que morava algumas casas acima da minha, no meio da ladeira. Douglas. Ele cruzou o portão, entrou no terraço e se sentou ao meu lado no chão. Sem perceber, prendi a respiração. Toda vez que mainha me via com ele, depois a sós, brigava comigo, dizia que era má companhia, ninguém daquela rua era boa companhia e muito menos ele, ele era um menino errado. Errado nem parecia um adjetivo correto para acompanhar uma criança. Custava entender como alguém de minha idade seria tão prejudicial a ponto de ser proibido me fazer companhia. Ao conversarmos, soava inteligente. Não conseguia ler, como quase todos dali, mas eu percebia algo diferente nele. Era falante, sabia de tantos assuntos, tantas histórias, como se a rua também pudesse ensinar. Tinha a vida como professora e era prático. Eu aprendia nos livros e era metódico. Mas éramos muito parecidos. Acho que era esse o medo de minha mãe. Que eu entendesse que era diferente, assim como ele. E diferente era um adjetivo possível.

— Sobre um menino que desaparece na rua, daí os quatro amigos saem para procurá-lo.

— Que nem o Tiquinho.

— Tiquinho?

— Ele desapareceu mês passado. Acharam o corpo dele perto do rio. Todo aberto e sem as coisas de dentro.

— Os órgãos?

— Só tinha sobrado as tripas. Disseram que era pra vender o que tinha dentro.

Contou num ar adulto se divertindo ao me ver assustado com aquela história. Ele, acostumado às ruas, achava normal. Eu era o menino que, mesmo num lugar pobre, vivia isolado num mundo em que inexistiam palavrões. Depois que falou, saiu correndo sem se despedir. Fiquei com a imagem na cabeça de um menino que nem eu, sem nada dentro. Um menino oco.

Tentei ler novamente, e lia, e lembrava do meu gato, pensava se ele estaria também oco em algum lugar, ou se um dia na volta da escola eu seria raptado também e tirariam meu órgãos para vender, e se antes disso alguém daria falta de mim, se eu atrasasse algum dia alguém daria falta de mim?, e se notassem, se alguém se disporia a me procurar, a fazer uma comitiva de busca, ou se as pessoas ficariam felizes que eu sumira, meu irmão ficaria feliz por ter o quarto só para ele, minha mãe teria todos os copos inteiros, e eu chorava um pouco lendo porque imaginava possibilidades cada vez piores, e temia porque parecia tarde e meus irmãos estavam atrasados e tinha medo que eles também tivessem sumido e teria que viver sozinho naquela casa, e eu os amava tanto apesar das brig

Ouvi minha mãe lavando os pratos. Fiquei mais tranquilo porque ela estava por perto. Levantei e fui para cozinha. Fiquei olhando para ela e sorri, sorriu de volta, mas mandou ir pra meu canto. Eu sabia que tinha meu canto e ela o dela. Meu irmão voltou suado com a bola, jogou na parede perto de mim, e ela quicou de volta para as mãos dele. Gritei algum desaforo, mas ele riu e também ri. Lia novamente o livro quando minha irmã voltou da escola, toda feliz, provavelmente tinha beijado algum garoto. O livro estava cada vez mais emocionante cheio de suspense e os pensamentos ruins foram se esvaind

O telefone tocou.

Telefone era o nosso único luxo mesmo sem ser nosso. A empresa de painho havia instalado para facilitar o contato. Mainha proibia que ligássemos para qualquer lugar. Deixava claro que era só para o trabalho, mas às vezes ligava para voinha. Qualquer exceção às regras cabiam somente a ela.

Corri para atender, adorava atender o telefone, mas mainha alcançou antes o gancho.

Atendeu, ficou séria, ficou calada, como se a alma tivesse saído para tomar água enquanto o corpo continuava no telefone. A boca mexia, mas sem alma nenhum som saiu. Minha irmã correu para o meu lado, procurando diversão sem encontrar. Hoje não. Olhou para mim, como se eu pudesse adiantar algo por estar ali desde o início. Eu também custava a entender, mas sabia que era desagradável.

A alma de mainha voltou para permitir que chorasse. Chorou. Lágrimas que nem estavam ali um segundo atrás escorriam. Tremia um pouco. Colocou o gancho de volta e falou sem nos encarar.

— Morreu.

Foi o que conseguiu balbuciar antes de desabar no sofá. Minha irmã chorou instantaneamente, por se comover junto à minha mãe, antes mesmo de entender o que estava acontecendo. Parei por alguns segundos. Fofinho havia morrido, era isso? Por isso não o encontrava em lugar nenhum. Só quando meu irmão chegou ao lado e perguntou se algo tinha acontecido com painho, entendi. O atraso de painho. Juntei os pontos.

— Painho morreu — falei para ele, que também começou a chorar.

Mainha estava desfalecida, e minha irmã pedia que ela falasse, vomitasse algo. A palavra daria início ao processo de luto reconhecendo a vitória da morte. Muda.  Tentava sorver o ar, achar palavras, achar sentido. Minha irmã gritou por água, meu irmão correu, mesmo aos prantos correu.

Continuei parado.

Mainha por alguns centésimos de segundo me olhou e analisou. Notou meus olhos secos. Notei meus olhos secos. Como agir quando alguém morre? Horas atrás estava feliz por meu pai atrasar para o almoço, mas, ao receber a notícia, me trouxe um gosto estranho de ter participado da sua morte. Como se meu querer de sua ausência tivesse ido para a fila errada dos desejos, e sido prontamente atendido pelos anjos que dizem sim aos pedidos puros infantis.

Fugi para o terraço. Esconderia deles que eu era o culpado. Meus olhos secos de lágrimas e corpo duro revelavam meu crime. Fechei os olhos e pedi a Deus que trouxesse meu pai de volta. Eu havia pedido antes errado. O amava. Queria tê-lo por perto. Mesmo comendo de boca aberta e chegando bêbado às vezes, eu o amava. Tentei chorar para provar a Deus que estava arrependido, mas em vão.

De olhos ainda fechados, ouvi o portão a minha frente ser aberto. Abri os olhos. Era ele.

Eu ainda era religioso, mas um tanto cético quanto ao sobrenatural. Fiquei parado sem gritar enquanto o fantasma de meu pai se aproximou. Tinha o mesmo tamanho e cores, ao contrário da crença de os fantasmas serem transparentes, ou pálidos. Vestia a farda que usava no trabalho, no que supus que morrera trabalhando.

— Cadê sua mãe?

Minha voz sumiu. Fiquei com medo de, ao responder, me conectar com o mundo dos mortos. Voltei a fechar os olhos e a rezar. Dessa vez rezei para que Deus o encaminhasse e não o deixasse vagando a esmo. Falei devagar para que ele pudesse entender tantos pedidos incoerentes em tão pouco tempo.

Painho passou ao meu lado e fez carinho em minha cabeça. Consegui sentir o toque. Era um fantasma diferente do filme da TV. Ao invés de trespassar a porta, abriu e entrou. Seguiu para a sala. Do terraço ouvi o choro e grito dos outros ao vê-lo. Entendi que era desprivilegiado, não tinha um dom, afinal todos enxergavam ele. Ao me aproximar e ouvir o que falava, concluí que meu pai não era um fantasma, estava vivo, mesmo assim portava más notícias.

— Seu tio morreu, Júnior.

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Gael Rodrigues é paraibano de 33 anos. Seu romance ‘Terra Laranja’ venceu os Prêmios Literários da Fundação Cultural do Pará em 2017 e o juvenil ‘A menina que engoliu um céu estrelado’ ganhou o prêmio CEPE 2018 (além de ter sido finalista dos prêmios CEPE 2017 e  Barco a Vapor 2018).

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