RÉQUIEM PARA MARIA DO CÉU – MÁRIO BAGGIO

I

Ali vai a mulher de quarenta e cinco anos que se chama Maria do Céu. Ela mora numa rua estreita da Capela do Socorro, no extremo da Zona Sul de São Paulo, onde há muitas casas iguais à dela: simples na aparência, com a porta da frente abrindo diretamente para a calçada, mas provida dos confortos que todos querem ter, como o gato de luz e da TV paga, o gás desviado da tubulação oficial e a água, que nunca é paga, mas que não falta na torneira. Seu marido trabalhava como segurança de um estacionamento até que uma noite, faz poucos meses, foi morto pela milícia que submete a região. Queima de arquivo, sabia demais, comentaram uns vizinhos, em voz baixa. Lutti, o marido de do Céu, também era miliciano e o bairro todo sabia disso. Não foi queima, não, disseram outros, o Lutti tava querendo mandar, virar chefe da facção de uma hora pra outra. Pensa que é fácil assim?

 

II

Maria do Céu também está morta agora. Aconteceu uns meses depois da execução do Lutti, e não foi com tiro dado por terceiros: ela mesma empunhou a arma que era do marido e mirou a própria cabeça. Aquele dia foi especialmente difícil para ela: tinha perdido o emprego, ouviu falatório dos vizinhos, soube que não era querida pela comunidade e que ninguém a queria por perto. Não aguentou a pressão e ficou com os nervos estirados. À noite, sozinha em casa, lembrou-se do revólver que o Lutti guardava embaixo da almofada do sofá da sala. Nem teve que pensar muito.

 

III

Maria Do Céu era manicure e tinha emprego fixo num salão de beleza do Largo Treze de Maio, perto da Capela do Socorro. Fazia pé e mão e, se a casa lotava de freguesas, ajudava na tintura e na depilação. Era assim até hoje, mas não é mais. Gretchen, a patroa, chamou a funcionária logo cedo para um particular nos fundos do salão, ninguém ouvisse a conversa.

— Não posso mais ficar com você aqui, do Céu. Mandaram recado. Você sabe como é, quando eles mandam recado, a gente obedece. Eu tenho esse meu negócio, contribuo todo mês como se fosse religião, mas tenho medo. Falaram do Lutti e da traição dele. O problema agora é você, que é a esposa. Não querem que você continue trabalhando aqui. É encrenca. Eu gosto de você, gosto do seu trabalho, mas eu não posso perder meu negócio, tenho família. Você precisa ir embora. Espero que entenda. Vou pagar o que for devido.

Foi assim que Maria do Céu perdeu seu trabalho. Juntou as coisas que lhe pertenciam e caminhou até o ponto de ônibus.

 

IV

Meses atrás, quando já era outono e fazia frio, numa casa da Capela do Socorro, tarde da noite, do Céu e Lutti conversaram debaixo das cobertas.

— Se liga, do Céu. Tá pensando que eu sou otário? Essa operação já tá no papo. Só mais uns dias e eu vou dominar a redondeza. Vai todo mundo comer na minha mão. Vou ser o chefe disso tudo aqui.

— Toma cuidado, Lutti. Os caras não brincam em serviço.

— E eu brinco? Não me conhece não, do Céu? Eu é que vou mandar no negócio. Se facilitar, estendo minha força pra Santo Amaro inteiro. Meu plano é chegar em Paraisópolis, o Morumbi vai ser pequeno pra mim. Morumbi, bairro chique, tá ligada? É lá que eu quero chegar.

— Acho que é muita ambição sua. Escuta aqui, Lutti, você tá esquecendo dos detalhes: a polícia pode cair em cima, não quero nem pensar na desgraça que pode acontecer. E tem os outros também, o Cabelo, a Solange, essa, então, Deus me livre! Se essa mulher desconfiar…

— Tá me agourando, do Céu?

— Eu não, credo! Eu só acho que você tinha que ficar pianinho, não deu tudo certo até agora? Os caras te tratam bem, tu tem a confiança deles. Largue mão de querer abraçar o mundo de uma vez só. Lá no estacionamento ninguém desconfiou ainda, o bagulho não tá escondido lá? Então.

— Tá escondido e bem escondido, ninguém viu nada. E você fique fria, a polícia tá no papo. Eu que dou o serviço pra eles. Eles só aparecem se eu der um toque. Como não sou otário, não vai aparecer polícia porra nenhuma. Se aparecer, leva chumbo. O Flores da 4ª DP é meu chapa, o Medeiros também, não tem erro.

— E os outros, o Cabelo e a Solange? Se eles ficarem sabendo?

— E vão ficar sabendo como? Só se você contar. É só você que sabe.

— Eu, hein? Sai pra lá, Lutti, tá me chamando de traíra?

— Então você fique de bico fechado, que comigo tá tudo dominado. E aí, vai gostar de ser a Rainha da Capela do Socorro?

— Claro que vou, uai! A mamãe aqui nasceu pra isso. Então.

 

V

Mataram o Lutti numa emboscada e os jornais publicaram: “Tiroteio entre traficantes terminou em morte na Capela do Socorro na noite de ontem. Um dos bandidos, identificado apenas como Lutti, foi morto por integrantes da mesma facção à que pertencia. A polícia suspeita de acerto de contas entre membros da milícia que domina o tráfico de drogas no extremo sul de São Paulo”.

 

VI

Ali vai do Céu agora, voltando do emprego que já não tem. Pensa no modo de se sustentar, agora que está sem marido e sem trabalho. Viu de longe a aglomeração de vizinhos na frente da sua porta. Uma comissão da comunidade, imaginou, e tinha até porta-voz, como ela logo percebeu. Nem bem chegou perto de casa, a chave já na mão, Eduardo, que trabalha numa metalúrgica, fez sinal de que queria conversar. Ela parou e ele soltou o verbo sem rodeio. Os outros, atrás dele, fizeram silêncio. Do Céu sabia qual era o assunto e ficou quieta. Estava em desvantagem e não ia bater boca com quem trocava cumprimentos toda manhã. Escutou calada o que parecia ser a sentença que carimbava o seu destino, e que descansasse em paz longe dali. Ouviu o seu réquiem sem retrucar.

 

VII

Assim falou o Eduardo, com a voz mansa mas firme:

— Do Céu, a gente, que é da comunidade, que viu o que você sofreu, sabe a falta que o Lutti faz pra você, e ninguém aqui vai falar mal de gente morta. Mas a gente quer dar o recado: você tem que sair daqui, do Céu. Vai na paz, e logo todo mundo esquece. O Lutti, a gente sabe o que ele fazia, e teve o fim que os amigos dele quiseram dar. Mas aqui tem criança, tem adolescente, tem família, gente honesta que trabalha pra comer e não quer correr o risco de levar uma bala perdida e morrer no beco. Todo mundo conhece quem é que tem o poder aqui, e nós pagamos por nosso sossego. Aquela gente poderosa não gosta de você, do Céu, por causa do Lutti. Eles acham que você tava mancomunada com ele, claro, era a mulher dele, como não estaria? Então, pra ter tiro e morte aqui de novo é mais fácil que três mais dois. E quando tem tiro sempre sobra pra algum de nós, algum inocente. As balas perdidas que todo mundo conhece. E a gente não quer isso. A gente quer que você vá embora da comunidade porque você tem cheiro de morte, você atrai morte. Ficar é encrenca, e a gente tá de saco cheio de encrenca. Você é viúva mas ainda é nova, tem chance de refazer a vida, mas que seja longe daqui. Vende a sua casa, eu conheço um comprador interessado, e vai na paz pra outro domicílio. Aqui você tá marcada e a gente não tem culpa disso nem pode pagar pelo erro dos outros. Se ficar, você cria situação difícil pra todos nós. Quando o Lutti rezava pela cartilha dos amigos dele, a gente aturava. Mas ele foi otário, quis dar um passo maior que a perna e deu no que deu. Nós somos gente de bem, não discutimos com a milícia, que a gente só perde, a gente é a parte fraca dessa corrente. O Lutti quis mais do que tinha direito e mais do que merecia, e quem matou ele foi gente que ele manjava, foi conhecido dele. Isso todo mundo sabe, saiu nos jornais. Agora estão atrás de você, e nós não queremos mais morte na porta da nossa casa. Chega de morte. É só o que essa milícia maldita sabe produzir: morte, destruição, prejuízo, desgraça. Mas a gente não pode lutar contra. A gente tá cansado dessa violência toda. A gente já não aguenta mais. E por isso a gente tá aqui pra pedir: cai fora daqui, Maria do Céu, vaza!

 

VIII

Naquela mesma noite, na rua estreita da Capela do Socorro em que do Céu morava, a vizinhança ouviu o barulho de um tiro. Alguém chamou e os policiais vieram logo. Encontraram do Céu sentada no sofá, a cabeça pendendo para trás, o rosto e o cabelo empapados de sangue. Todo mundo fez cara de admiração e espanto: nunca tinham visto uma mulher se matar com tiro. Homem já, mas mulher era a primeira. Coisa rara naquelas bandas.

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Mário Baggio
é paranaense de Ribeirão Claro mas vive há quatro décadas em São Paulo. É autor de três livros de contos: A (extra)ordinária vida real (2016, Autografia), A mãe e o filho da mãe e outros contos (2017, Autografia) e Espantos para uso diário (2019, Coralina). Mantém o blog literário Homem de Palavra. Publicou textos nas revistas eletrônicas Diversos Afins, Subversa, Fluxo, LiteraturaBR, Gueto, Bibliofilia Cotidiana e Escrita Droide.