MIRASSOL – THAIS LANCMAN

Movo-me devagar ou não me movo, algo me move, eu mesmo não. Tudo é azul, eu, fora, em picos e vales. Azulejo, dentro e fora, eu não sei o que sou e o que não sou, onde eu acabo ou começo. Isso não existe, eu vou me desfazendo em umidade até tocar o teto, os vidros, ou me adensando até bater no azulejo do fundo.

Eu balanço e tremo ao ar mas não há muito ar que não seja eu. Eu não sou um corpo. Eu sou o não corpo quando uma pessoa chega. Quando não chega eu apenas sigo sendo. A negação de quem mergulha, balança o meu ser líquido e o atmosférico, o eu-nada que abraça quem chega, que envolve e brinca, e nada, joga para cima e para baixo sem fazer nada. Absorvo deles tudo o que não é eles, em físico, mas o que exalam sem controle. Eu os limpo comigo e sujo de outras coisas, que ninguém sabe nem eu, mas vou sendo, fluido com memória.

O mais ativo em aparente passividade, e por isso reino no último andar do Hotel Mirassol. O letreiro é um pouco refletido em mim quando tudo é escuro menos ele, feito de luz. De longe vejo a praia, a vista já foi melhor. Temperatura controlada, que fez eu me desfazer pelo ar da luz verde pálida, ou azul, algo intermediário de cores sem nome.

Mais vales e picos, maré alta no eu-líquido, faz obra no Mirassol. As suítes se enxugam, viram miríades, caixinhas brancas. Nem são mais suítes e sim cápsulas, pílulas de modernidade. Fazem com que eu pareça efervescer, do topo. Tudo encolhe no hotel, cada vez mais tudo. O luminoso mudou, por alguns dias não bateu em mim mas agora aqui está de novo, em pedaços deita sobre mim, com letras esguias, riscadas e brilhantes, o mesmo palavreado, com cara nova, reflete igual sobre a água e diz que aqui é só uma continuação do passado, que não se pode apagar.

No mesmo relevo móvel em que repousa a luz rebatida, outrora houve um morador, um visitante diário daquelas que ainda eram suítes. Às sete, ele me afagava em braçadas e batidas de perna, ia de um lado a outro. A cabeça adornada por uma touca azul. O corpo miúdo e retorcido, de pele flácida parecendo se pendurar nos ossos de pontas aparentes. Ossos são duros. Eles sustentavam aquele homem, dos tempos em que o Mirassol era também moradia. Mas ninguém mora em cápsulas, esse tempo acabou e se enevoa.

O nome do homem era Avi e ele nadava como peixe. Seu corpo tinha outra maré ao ir de encontro ao meu eu-tudo. Ele o não eu, enfrentava o que me constitui. Que ainda me constitui, pois para mim que não o vejo mais ele agora é o não mais. Na memória ele está e no corpo ele ainda está também, corpo e memória, quando falo de mim, são o mesmo. E são presença, presente. Avi dos números gravados no braço. Avi que, antes do primeiro mergulho matinal, ele que era o único ponto seco do novo dia, respirava fundo e gritava ao expirar, batendo no peito com os dois punhos cerrados:

– Hakôach!

Então me espalhava e ele se debatia, de uma borda a outra, respirava e ia, ou ia sem respirar, e ao repetir diariamente ia despejando em mim, feito óleo, de forma que jamais pudesse ser ele e ele eu, aquilo que tinha de si, esse Hakôach, a força, o nome de sua equipe dos que nadaram para a vida.

Era o tempo do arame farpado e dos ossos mais duros que hoje – não tinha pele para amortecer as pancadas. Só havia a água para lembrar que o mundo é móvel e quem está nele hoje amanhã não está mais. As pessoas eram vapor e evaporavam. Não Avi, que era da água sem ser água, peixe pré-histórico, que contém toda a evolução, correu nadando e fazia como se tivesse chegado ao Mirassol num tropeço mas com uma topada muito violenta e dolorida que o deixou incapaz de qualquer outra coisa que não nadar. Tentando deixar tudo na água, largando ida e vinda, nas marolas que ele mesmo domina.

Avi, o peixe, morre fora da água e passa o dia todo esperando a manhã seguinte, quando vai nadar ou fugir. Mora em hotel porque, diferente da casa, pode fugir dele sem pesar. Porque o resto do dia ele é carne apodrecendo marcado no braço com números feito boi e na cabeça feito qualquer anônimo de crimes contra a humanidade. Não há atrocidade maior que ser humanidade. Por isso ele nada, e nadou naquela madrugada fria em no campo atletas do Hakôach disputaram atravessar um canal a braçadas e outros tatuados no braço assistiram, vibraram com a morte em suspensão.

Até que um dia Avi deixa de ser o todo, passa a ser o nenhum, e o nenhum é mais trabalho que nunca no Hotel Mirassol. Avi boia. Agora sou eu que movo a sua pele como se ela fosse líquida. Ou finalmente passo a conter ele. Carregam o que não é mais para fora, limpam tanto a suíte como se ficasse ele mesmo em poeira nela, quase pó de borboleta, o mau agouro em ex-pessoa.

Talvez por isso não quiseram mais suítes. Quiseram esquecer. Meu sólido reino desfeito contra mim, o rei que não se pode desfazer. O rei que jamais explora o que é seu, numa relação de posse confusa, saber que tem.

Ainda naqueles tempos algumas tardes de verão foram preenchidas por duas femininas, a grande e a pequena, ambas de olhos arregalados e canelas muito finas. Minhas primeiras humanas, nos primórdios de Mirassol, que chegavam de vestidos quase transparentes, brancos e espumados em renda. Tomavam sol, pois ainda havia sol para ser tomado e preguiça para as espreguiçadeiras.

A mãe sentava na borda e me revolvia com o pé, trazia ar para o fundo e barulho para o ar. A menina segurava no seu pé e arfava sem controle do próprio corpo, parecia não ter forma. Braços e pernas não sabiam se mexer coordenados. As duas eram suficientes para fazer o barulho de uma multidão, e sentia até que o som me agitava, não a confusão de membros.

A maior, com o braço engessado, molhou os cabelos apenas uma vez. Gostava em ver a menor desbravando-me como que sozinha, porém uma vez a deixou verdadeiramente desacompanhada, soluçava que atravessava o sol e a sombra, e para isso posicionou as mãos da pequena no metal da borda, ela insegura mas sem reação, pegou e largou em seguida sem medir o que fazia. Afundou como âncora, sem ser peixe nem água nem óleo, sem transbordar o medo, guardou para si deixando-me entrar nela, tão vermelha e quente por dentro, pulsando com ondas próprias. A mãe, ao ver, rasgou-me e puxou a menina. Chacoalhou-a e agora as duas choravam juntas, ao meu lado, água nos corpos molhados e cabelos pingando como olhos, eu voltando a balançar como se nada tivesse ocorrido, as águas que vinham delas e desembocavam em mim continham lembranças da mãe rolando uma escada imensa, da menina chorando, do homem grande e barulhento que as assistiu partindo com uma pequena mala de couro feita às pressas. Estavam no Mirassol para fugir e agora era como se lá não fosse mais seguro. Foram embora e não voltaram mais, deixaram aqui a fortaleza de alívio que construíram sobre mim. Escureceu, um pouco pra sempre, a partir daquele dia.

Escureceu mais agora que o arquiteto das cápsulas veio a mim. Soube na hora em que nos tocamos quem era. Denso, compacto, era feito da madeira das suítes, aquela que não cabe nas cápsulas. O arquiteto mesmo se limpava de toda a destruição, era higienizado para o novo hotel, sua obra de arte que já nascia apócrifa, com o homem em posição fetal, no meu âmago imaginário, olhos fechados, ar preso até não poder mais. Com a respiração suspensa ele pedia perdão, a mim, aos outros, a si mesmo, por todo o Mirassol que destruía e por tudo que chamava de Mirassol sem acreditar. Enchia os pulmões e repetia a ação, reproduzindo mentalmente um filme das antigas suítes, o restaurante e seu café da manhã com ovos servidos à mesa e suco de laranja fresco, fez isso enquanto pode, enquanto não vislumbrava o desmoronamento dos quartos de outrora e dos atuais, quarto é só cama e banheiro, repetia para si. Enquanto parecia um tatu-bola, eu buscava aninhá-lo com os braços de Avi, as pernas da mãe sustentando sua pequena descoordenada. A cápsula do arquiteto, invólucro impermeável, trincava devagar. Ao se romper, ele partiu, levando parte de mim junto, parte indecifrável, órgãos, nenhum vital porque não tenho vida que não de outro. Vida é forma, é continência.

As novas letras do Hotel Mirassol refletem em mim e um dia esse reflexo vai abrilhantar as escadas e elevadores, até onde eu chegar. E o Mirassol vai ser líquido como a impermanência, as cápsulas jamais deixarão de ser suítes, a porta pantográfica vai brotar do fosso do elevador. A menina vai nadar pelos corredores e Avi será salvo pela mãe dela. O arquiteto antes encolhido vai se abrir estrelado, boiando anexo a mim e sujeito aos meus caprichos até em sua forma de puxar o ar. Tudo vai ser tudo, e nada, e conjunto, memória que se esquece mas não se esquece que esqueceu.

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Thais Lancman é paulistana e escritora, nascida em 1987. Publicou Palito de Fosfeno pela Editora Reformatório em 2014 e desde então publica contos em revistas e coletâneas. Mirassol faz parte de Pessoas promíscuas de águas e pedras, seu segundo livro, ainda não publicado.

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