NOTÍCIAS DA NOVA REPÚBLICA – VERA SAAD

|ESCRITORXS DE QUINTA
Por Vera Saad

 

I.

Talvez não houvesse medo. Talvez Antônio não tivesse sumido do mapa e tudo fosse diferente se Collor não tivesse se candidatado e ganhado as primeiras eleições diretas após um longo período de ditadura militar. Já reescrevi algumas vezes nossa história, de quando as ruas eram cobertas por flores de piúva. Cerrávamos os olhos, o roxo sob as pálpebras, aparvalhadas por aquele tempo seco, ocasião em que nossos pais discutiam política ao redor de uma mesa larga. Meu tio tinha uma voz grossa, que se sobrepunha à figura pequena da cunhada. “À merda com Collor”, gritava. Ríamos baixo, próximas à arvore da calçada.

Collor acabava de ser vaticinado como caçador de marajás pela revista Veja. Era matéria de capa, chamava de marajá os funcionários públicos que ganhavam quantias exorbitantes. Não entendíamos o que eram marajás, mas aprendemos a odiá-los. A matéria era grande, muitas fotos de um candidato até então obscuro, que ganhava popularidade nas pesquisas.

Política era o assunto preferido de nossa família. Todos se exaltavam, enquanto minha prima e eu nos ocupávamos em manter fechado o portão da casa para que a cadela Halley não fugisse. Ela sempre fugia, e voltava prenha. Batizaram-na de Halley por causa do cometa, ambos apareceram no mesmo dia, em céu e no batente da porta.

E a conversa prosseguia, os pais preocupados com o futuro das filhas, do país, dos marajás, e nós em guarda pelo futuro de uma cadela chamada Halley.

Minha prima, dois meses mais velha, mantinha-se no comando, como se os meses a mais lhe garantissem conhecimento que nunca aprenderei. Eu não questionava tal liderança, admirava Maira como a uma irmã mais velha, ainda que, por vezes, eu fosse a única das duas a saber o que estávamos fazendo.

Chegamos a morar juntas por muitos anos. Época em que nossos pais eram sócios de uma loja de materiais de construção.

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Vivíamos um tempo bastante difícil, quando a inflação alcançava mais de três dígitos no ano. Nada nos era certo. José Sarney, vice-presidente de Tancredo Neves, assumira o poder quando o então presidente morreu subitamente meses depois de assumir o poder. Tateava com números e promessas. Lançara o Plano Cruzado, para estancar a inflação; conseguira, no máximo, mudar o nome da moeda. A moeda mudaria novamente, com outros planos, todos malogrados, a inflação aumentava de modo incontrolável.

Meu pai gostava de me contar uma fábula para dormir, que repetia todas as noites, como se a me ensinar algo daqueles dias. A fábula em questão era a da cigarra e da formiga. Ele apenas contava uma parte da história, vim a descobrir depois. Na parte que narrava, a cigarra tentava aliciar a formiga a cantar e dançar durante o verão em vez de trabalhar. Atenta ao que acontecia, a rainha das formigas conseguiu dissuadir a operária da ideia; convencida de que era preciso guardar comida para o inverno. Eis que chegou a estação. Enquanto as formigas estavam bem agasalhadas e nutridas, a cigarra morria de frio e de fome. Eu achava a história cruel, mas disfarçava o que pensava com um balanço de cabeça, pronta a dizer “bonita a história”, como forma, acreditava eu, de demonstrar algum carinho por meu pai.

A fábula, dizia ele, nos lembrava de que precisávamos trabalhar duro e economizar se quiséssemos sobreviver no inverno. Sempre depois de contá-la, me olhava sério, não respondia quando eu lhe perguntava sobre o inverno quente dos trópicos, apenas reafirmava que guardar era preciso. Eu, do meu lado, compreendia um pouco da fábula quando íamos ao supermercado e víamos as mercadorias mudarem de preço em um mesmo dia. “Guardar é preciso, viver não”. Ocorre que papai não soube economizar, e, quando foi demitido, nos vimos sem dinheiro, sem casa, tínhamos a tristeza das formigas misturada ao azar da cigarra.

Fomos morar com minha avó, que nos acolheu sem muita vontade. Não que deixasse de ser educada com o filho e com a neta. Quando me via, sorria, encurvava o corpo, me dizia algo do cabelo que aos poucos crescia, algo do corpo que tomava forma, mas voltava-se, em seguida, ao cansaço de uma mãe envelhecida demais para receber de volta filho e família. Implicava ainda com a nora. Não eram brigas declaradas; algo pior, mamãe ouvia calada comentários hostis sobre tudo que fizesse. Se estivesse sentada, a sogra notava como perdia logo o ânimo. Se limpasse a casa, a outra observava como era lenta com o rodo. Se se arrumasse para o trabalho – minha mãe era a única que trabalhava naquela casa –, o tempo que se demorava em frente ao espelho era contado em voz alta.

Meu pai não se intrometia, no máximo acalmava as duas ao mesmo tempo. Apenas eu tomava partido. Tinha em vantagem a idade, que aproxima os dois extremos, crianças e velhos. Éramos feitas da mesma complacência, minha avó e eu. Permitiam-nos dizer o que não se dizem os adultos. Aos dez anos, eu era capaz de anunciar que não gostava de minha avó. A coragem de uma criança remanescia em mim junto à voz fina, ambos firmes nas ancas largas da minha avó, que, mesmo alvo das ofensas, protegia-me dos tabefes de meu pai, afinal ainda era eu um bebê. Também a ela eram permitidas as alfinetadas, quem brigaria com uma velha no final das contas?

Assim seguimos por algum tempo em ofensas e silêncio. Estranhos naquela casa que minha avó dizia ser nossa. “Um jeito de não ficar muito só”, o que me falava e lembrava do vô, que morrera havia um ano. Nessas horas eu a olhava com mais carinho. Era uma figura alta, com os quadris largos, desproporcionais ao resto do corpo. Gostava de vestir bege, usava panos dourados compridos ao redor do pescoço e um lencinho bordado com suas iniciais. Tinha o cabelo grisalho todo puxado para trás, que lhe aumentava a testa e lhe puxava os olhos pequenos. Ainda era bonita, mas criança eu a entendia avó, cheia de pele e de anos. Sentava-se na minha frente, para ficarmos da mesma altura, puxava ainda mais o cabelo no coque alto e me dizia do casamento, que um dia eu teria. “Ele era um homem decente”, soltava, os olhos fixos em algum ponto da minha testa. Eu ouvia então das traições, que também eu um dia teria. Mas o importante, para minha avó, era que fosse decente. O que sempre dizia, sem que eu compreendesse muito daquilo, exceto da saudade, que também era minha. Nessas horas éramos cúmplices. Da saudade e dos Josés. Daí minha ternura, uma espécie de reverência à nossa condição.

Condição que nos unia, três gerações, sob um teto que gotejava quando chovia, largando um cheiro de mofo nos móveis da casa. O que sentia por minha avó oscilava entre birra e carinho. Carinho que talvez ela sentisse pela nora, apesar de se firmar na birra. Passei a associar minha avó a birra, mofo e gotas grossas de chuva. Minha mãe não a confrontava, o que alimentava as constantes afrontas, fazendo da minha avó uma mistura de cheiro úmido e voz rouca. Não sei por quanto tempo mais minha mãe suportaria aquilo, mas houve um acontecimento que interrompeu em definitivo nossa estada na casa de minha avó. O mais curioso é que nossa mudança nada teve a ver com minha avó e com minha mãe.

Além de papai, minha avó tinha outro filho, que pouco a visitava. Era o mais novo e, segundo meu pai, o preferido da mãe. Ele trabalhava na bolsa de valores, ganhava bem. Comprara uma casa no bairro na zona oeste de São Paulo não fazia muito tempo. A casa não era grande, três quartos, um pequeno jardim e um porão acomodavam pai, mãe, filha e cachorra, mas, aos olhos de meu pai, aquilo era um exagero de vida. Localizava-se em uma rua sem saída ladeada por casas iguais, sobrados colados que diminuíam a privacidade dos moradores. Talvez por ciúmes, talvez por falta de convite, raramente íamos àquela casa. Nas escassas visitas, aproximávamo-nos tímidas, minha prima e eu. Quando brincávamos de queimada na rua com outras crianças que apareciam (eu nunca sabia de onde) e visitávamos sem cerimônia a casa do vizinho para conversar com o papagaio, uma ave chamada Renato Russo, com 36 anos, que só falava palavrão. Terminava o dia com a cachorrinha da casa – um filhote todo malhado e medroso com nome de cometa – na minha mão pequena.

Uma herança aparecera para aquela pequena família. Minha tia ficara órfã ainda criança, os pais morreram em um acidente de carro. Por algum tempo fora ameaçada a ser levada a um abrigo, mas a prima, de quem era muito próxima, se responsabilizou por sua criação. A prima não teve filhos ou se casou; quando morreu, deixou todos seus bens para sua protegida. Tratava-se de um apartamento próprio e de algumas economias. Meu tio, em acordo com a esposa, assumiu a herança e vendeu tudo, decidido a abrir um negócio próprio com o valor da venda. Mais tarde se arrependeria e muito de ter vendido o apartamento; naqueles dias, porém, acreditava que o dinheiro era o mais importante bem para a família.

Procurava um sócio, porquanto minha tia não queria perder o emprego no hotel onde trabalhava. Assim surgiu a ideia de convidar o irmão. Não que meu tio se compadecesse das tragédias do irmão, mas enxergara em meu pai o que ninguém mais via, talento para os negócios. Papai era bom de lábia. Graças a ele, conseguiram alugar um galpão de pouco mais de mil metros quadrados na zona norte de São Paulo por um preço bem abaixo do mercado.

O convite para que morássemos em sua casa foi feito alguns meses depois, quando meu tio percebeu que, além de trazer o sócio para junto de si, evitaria as visitas constantes à mãe. Passamos a morar no quarto e sala improvisados no porão.

 

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Vera Saad é autora dos romances Dança sueca (Patuá, 2019) e Telefone sem fio (Patuá, 2014) e do livro de contos Mind the gap (Patuá, 2011), Vera Saad é jornalista, mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC – SP e doutora em Comunicação e Semiótica também pela PUC – SP. Ministrou no Espaço Revista Cult curso sobre Jornalismo Literário em 2012. Tem participações nas revistas Cult, Língua Portuguesa, Metáfora, Portal Cronópios e revista Zunái. Vencedora do concurso de contos Sesc On-line 1997, avaliado pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão, foi finalista, com o romance Estamos todos bem, do VI Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana. Seu romance Dança sueca foi selecionado pela Casa das Rosas para o projeto Tutoria, ministrado pela escritora Veronica Stigger.

* O texto é parte integrante do romance Notícias da Nova República, com lançamento previsto para 2021.