CIVILIZAÇÕES E SOCIEDADES NASCEM, VIVEM E MORREM – ALEXANDRE WILLER

Em algum momento, costuma-se dizer que tiveram seu auge, seu ápice, quando tudo e todos funcionavam corretamente, adequadamente, coordenadamente, coesos, unos, a idade de ouro advindo, então, a decadência inevitável e o fim acabrunhado e melancólico.

E quando uma sociedade não teve, tem ou terá uma idade de ouro? O que fazer?

Talvez o Brasil seja um sonho de ter uma idade de ouro que nunca chegou, jamais chegará ou talvez ela tenha passado e não a vimos, perdidos entre escândalos, maracutaias, golpes planejados ou sonhados, uma luta de classes que nunca pôs seu bloco na rua, atolada num mar sem fim de confetes feitos de vírus e serpentinas feitas de sonhos desfiados.

Quando terminei este livro de Trevisan, fiquei com um amargo na boca, uma tristeza de não ter país nenhum, ser uma ilusão de cidadão dentro do sonho de um lunático que descobriu o país dentro de sua cabeça e nela fez enredo confuso que apenas ele entende.

No Solar das Rosáceas, os mitos messias planejam o futuro do país, o status quo vira status aque, quem é, como é, quando é desde que tudo siga como está, afinal em golpe que está ganhando, não se mexe, capitão! Mas nesse Solar de Rosas espinhentas, entra Vera Bee e suas zangonas operárias do sexo que não ousa dizer seu nome, mas tem preço certo para quem tem nome fixo.

Vera Bee vem com sua trupe de abelhas sonhadoras polinizar o sonho de um Brazil Great Again porque não se pode fundar um país novo sem pó, cachaça e putaria, que tipo de país se faz sem isso? Resposta: um país sério ou melhor; um país, sério? Para fundar um país novo é preciso ter fundações, alicerces, colunas firmes e qual melhor material para construir isso que a carne tenra e doce de bixas, trans, travestis, lésbicas e todas letras que temos de nuance para irritar os mandatários da nação?

Na Rosa Solar, as travestis entram de salto, roupa, carão e necão, vêm para cumprir seu papel de fertilizar aquele óvulo morto, pois apenas o sêmen bixa pode trazer vida para o vazio que existe no mundo normativo, cinza, careta e picareta. Com a pica-reta as bixas endireitam tudo, mas acabam sempre tortas porque os machos sabem que é de pequeno que se entorta o pepino, nem que seja no tapa, porrada e canhão. Brasil em cima de todos. Deus pra cima de tudo.

Saló teve 120 dias de Sodoma, Rosáceas teve apenas o feriado de Páscoa porque bixa não precisa de tantos dias para fazer as coisas andarem. Páscoa, feliz, coelhos, não, abelhas, com ferrão em riste e tudo mais, para fazer a ressurreição das bixas num país novo que talvez seja melhor para todos, as zangonas vão lá entreter os mandões.

E seis e seis são doze, então, temos aqui apóstolos das chagas da Jesus, a Cristo, Vera Bee. Que faz sua última ceia entre todos os Judas do mundo mas não reparte o pão nem o vinho, apenas a dor, a amargura, os sonhos de nunca ter sido um país para suas zangonas, ou para si mesma, mas rainha porque rainhas são majestosas e mandam por natureza, gestando talvez o que ou quem virá mandar sem precisar de coroa ou sangue azul, vermelho ou de qualquer outra cor.

Há vida no Solar das Rosas, Divina já dizia que para ser limpo é preciso ser sujo, sábia Divina, Nossa Senhora do Solar das Rosas. Há vida. Há morte. Há gestação de uma nova vida que não se sabe o que é, nem azul, nem rosa mas um anjo que talvez esteja acima dessa sujeira toda que somos forçados a engolir, a chafurdar, a comer. É da sujeira que nasce a vida, nascemos e morremos sujos, nascemos no meio de sangue e morremos no meio da merda, urina e odores nauseabundos, faz parte, a vida tem esses cheiros mesmo, pior quando o cheiro não é nosso mas imposto.

Vera Bee fez seu papel de messias, ela sim era um legítimo, não aqueles falsos lacrados no Solar de Rosas devidamente violado pela pureza e beleza de vidas livres, soltas, vidas não pensadas para hereditariedade de nomes, riquezas e poderes, nomes simples, inventados, criados e assumidos como santos e, como todos os santos, profetas e messias, precisam morrer para o novo sempre vir.

Bem Menininha. Vem o novo bem Menininha, um resvalo de pureza que germinou de dentro da Rosa morta, para onde você vai Menininha? Ela não responde. Apenas dá um sorriso meio encabulado e segue seu caminho, me deu uma vontade de ir atrás dela…

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Alexandre Willer
é autor do volume de contos Maré Vazante e outras estórias e, atualmente, prepara seu segundo livro, Nunca mais voltei, que dever ser lançado em maio de 2020, pela Editora Folhas de Relva. Participou das coletâneas Homossilábicas, Cem anos de Amor, Loucura e Morte e GOLPE: Antologia Manifesto, além de outros projetos e iniciativas literárias. É cinéfilo, ama música e também é fotógrafo amador.