CONTÍCULOS DE DORES REFRATÁRIAS

Contículos de dores refratárias é o primeiro livro de contos do advogado cearense Adriano B. Espíndola Santos. Imperdível, diga-se assim de cara. Uma obra que apresenta de forma vertiginosa, mas harmônica, pessoas, lugares, sensações e sentimentos. Adriano equilibra com grande facilidade uma narrativa que vai do sarcasmo ao lirismo, mantendo um tom aguçado de crítica e denúncia que se percebe tanto nos contos mais irônicos quanto naqueles em que sofrimento, perda e morte são a tônica. […] O que mais impressiona e encanta na leitura dessa obra é a versatilidade.  Extraindo a sua escrita das dores do mundo, Adriano tece textos ricos, vivos, atuais, permitindo que o leitor  se sinta inserido em cada cenário. Em Bastião, por exemplo, uma das passagens mais inteligentes do livro, na qual, sem citar nomes, tudo é dito: ‘Endeusava um extremista em ascensão, que elogiava torturador e pregava, à luz do dia e à noite, acabar com as minorias, para livrar o país do fantasma comunista.’ […] Nos 27 textos amalgamados com grande unidade nessa obra tão bem construída, um autor inquieto revela as falhas do instituído e as oscilações do comportamento humano, destrinchando sem piedade o perfil de uma sociedade plural e caótica.

Cinthia Kriemler

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Com o livro na pré-venda, doido para ganhar o mundo, e atendendo aos cuidados recomendados, urge lançar virtualmente Contículos de dores refratárias (editora Penalux) na próxima quarta, 01/04/2020, às 18 horas, ao vivo no Instagram do autor.

Não há como dissociar os fatos presentes da grave mácula das eleições de 2018. A concepção do livro se deu aí, em meio ao furacão, quando alguns ou algumas não conseguiam crer no mal que estava por vir – as degradações e as fakenews, que a própria figura nefasta largamente vociferava nos veículos de comunicação, proliferaram e tomaram proporções absurdas; surreais.

Assim, dada a necessidade de unir forças e de dizer o que precisa ser dito, Contículos vem escancarar os desgostos, os enfrentamentos, e projetar o desejo vivo de redenção.

A seguir, disponibilizamos o conto A Torre Santa, parte integrante do livro.

 

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A Torre Santa

Eu vi, do nono andar, o cara se arrebentando no chão. Foi um pulo de cabeça para a morte. Eu vi, e a imagem ficará para sempre na mente; um homem, como um mamão, inerte, sem uma reação, se entregando ao nada. Não era a primeira vez. Mas essa eu vi, com meus próprios olhos, não ouvi ninguém contar, como das outras vezes.

Fato que não entendo bem é o porquê das pessoas se jogarem do alto daquela torre abandonada, e, ainda assim, depois de dezenas de casos, as autoridades permanecem paradas. Suspeito que farão dali uma atração turística, explorando a desgraça alheia. Uma senhora, dona Gertrudes, com algo em torno de oitenta anos, numa vitalidade de espantar, para cima e para baixo, todos os dias, segredou que uma irmã sua, que sofria de alucinações desde a infância, também se jogou para o nada. E disse mais: que desde pequenininha sonhava em voar, e olhava, olhava, firmemente, para o cume da torre, a mais alta da cidade, que serviu, nos seus tempos áureos, para abrigar um posto da guarda nacional, ou somente para imprimir a imponência do lugar, atulhado de viajantes atraídos pela fama da terra do ouro; as Minas a céu aberto.

Aquela imagem me atormentou por dias. Quase surtei. Foram inúmeros sentimentos, de medo a dor, delírios, enjoos. Pensando bem, a morte do rapaz, que nem bem conhecia, não devia me tomar tanto a consciência. Mas um cara como eu, sensível, estava predestinado a sofrer; a sofrer com a dor do outro, principalmente. Quando meu avô Nunes morreu, quase nos meus braços – falo “quase” porque estava mesmo nos braços da mamãe, sua filha; e eu, com pouco mais de dez anos, não teria condições de segurá-lo –, sufoquei igualzinho, ao ver a sua falta de ar. Ele tentava aspirar, cada vez mais forte e fundo, porém o ar vital não vinha, não irradiava nas suas entranhas. Morreu assim, como um passarinho, sem dizer um ai, frágil, inocente. Depois de anos mãezinha me disse, meio a contragosto, porque não queria saber do assunto, que o vovô tinha uma insuficiência respiratória grave, há anos, e ainda fumava escondido; o velho dizia: “Se é de morrer, vou morrer fazendo o que gosto!”. O pensamento de um homem simples, que viveu para os seus, trabalhando até quando pôde, é difícil de mudar. Mudar seria desfazer as suas próprias ordens interiores; mudar seria uma desonra. Então, morreu honrado – suponho.

Não deixava ninguém se meter na sua vida. Mesmo sendo só amor, tinha, como aqueles suicidas da torre, uma propensão à morte súbita. Não dava o braço a torcer, por nada. E não tinha a intenção de morrer culpado, como os suicidas; atribuía a culpa de qualquer mal que lhe acontecesse às obras malfeitas, para destruir o consumidor e dar lucro aos grandões. “Culpa dos poderosos que fazem as coisas para nos destruir. É bíblico, meu filho!”, bradava constantemente.

Decerto, era do tipo descuidado, entregue às imprevisões do tempo – e não falo isso eximindo de culpa os grandões. Tomava umas três doses grandes de cana todo dia de manhã, em jejum, para “espertar”. Depois, para começar o serviço no armarinho, preparava uma gororoba gosmenta, feia de se ver, com frutas, verduras, folhas e ovos, uns três. E assim seguiu, sem ter ido ao médico até os cinquenta anos, quando sofreu o primeiro ataque de falta de ar. Ainda que minha mãe insistisse, não foi capaz de mudar nenhum de seus hábitos extravagantes. E o mais incrível, para um homem daquela idade, era carregar sozinho um caminhão de areia. Mãe dizia que o ofício lhe tomava a cabeça, levava a pensamentos bons e a fortalecer o físico. Eu, enfim, me aquietava. Quando o via fazendo isso, corria para ajudar e ouvia: “Saia daqui menino, isso é coisa para homem bruto! Suas mãos são de estudo, e faz bem seguir assim!”.

Nesses dias que se passaram, sem conseguir dormir, percebi algo interessante, ou melhor, intrigante: todas as pessoas com quem convivi tinham alguma propensão ao suicídio, ou falta de amor à vida. Eu mesmo sou um desses. Na minha família, posso dizer, tenho o exemplo do meu pai, um caminhoneiro, que durante anos bebeu ao dirigir. Aliás, bebia para fazer quase tudo na vida. Sem beber, das poucas vezes que o vi assim, se convertia (ou se naturalizava) num sujeito estranho, inquieto, introvertido, comparado a um rato, isso mesmo, um bicho intocado, que não pode ver gente. Lembro-me que corria para ter seu abraço, em sua saída para mais uma viagem; brincar; e ele corria também, entrava no caminhão e metia o pé, bêbado ou não. Numa dessas, aconteceu o que prevíamos (sem poder fazer nada contra, a não ser orar): o caminhão, desgovernado, atingiu em cheio um carro de passeio, matando uma família inteira. No exame toxicológico, a que tivemos acesso somente um ano depois, o pai havia ingerido álcool e cocaína, uma mistura explosiva. Ninguém sabia daquilo. Nem minha mãe suspeitava da confusão que meu pai fazia – e sofria. Não conseguíamos ajudar. O pior calhou de acontecer, mais uma vez.

Eu tinha tudo para ser um perdido. Não que fazer uma faculdade, hoje, seja grande coisa, mas, com o incentivo de minha mãe, consegui me formar em Serviço Social. Nem tive muita dúvida quanto à escolha da profissão. Apesar de minha tia, psicóloga, me orientar a fazer Direito, preferi cursar Serviço Social, obviamente, porque sabia que aquilo era armação dela com meu avô. Na tradição, toda família no interior de Minas Gerais deve ter um médico, um advogado, um padre… e, na minha, só faltava o advogado. Portanto, matei rápido a charada.

Da minha vocação não tive dúvidas. É tanto que, nesse período soturno, de saber e ver tanta tragédia do alto da Torre Santa – que de santa não tem nada –, reuni-me com o prefeito, amigo de um amigo meu, num encontro informal, para propor um trabalho voluntário, custeado em parte pela prefeitura, no sentido de reunir, no posto de saúde, o maior número de pessoas que sofressem de algum transtorno na cidade. Foi aí que o prefeito, um homem de pouca fala e muitos trejeitos, ou tiques nervosos, alertou que não mexesse com isso, porque seu pai, que fora um dos sobreviventes da tragédia da Igreja do Carmo, quando caiu o teto sobre uma centena de fiéis, no coma de duas semanas recebeu uma revelação: no topo da Torre Santa há um tesouro para a vida eterna que poucos podem possuir, e muitos vão se perder por ambição. Dali em diante a placa na entrada da torre, onde dizia: “Não ultrapasse essa marca. Perigo!”, colocada pela prefeitura há mais de trinta anos, estava fadada a ser um adorno, ao qual os indivíduos, fascinados com a esperança de enriquecer ou obter a salvação – não se sabe ao certo –, poderiam ou não ser jogados, ou se jogar torre abaixo.

A dose de horror, muito mais que dor, para mim, agora, era a compreensão do desejo e da curiosidade, de ser mais rico, mais poderoso, superar os problemas do mundo como num passe de mágica; ou, supostamente, ganhar a vida eterna – o suicídio, pelo que eu saiba, é um ato recriminado pelos cristãos e condena à desgraça eterna. A quem a fantasia absorvia, existiria alucinação ou ambição, ou os dois juntos, essa foi a minha constatação.

Deixei essa ideia tola pra lá. A única coisa que fiz, para o bem da comunidade, foi, num dia quente de verão, cidade vazia, colocar na porta da torre uma dinamite, que arranjei de uma mineradora perto, com um amigo fiscal – jogo de interesses. Com a conivência da minha consciência, explodi aquele troço. Dos destroços, algumas moedas de ouro, penso eu, caíram nos meus pés. Não peguei. Queria fugir da maldição.

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Adriano B. Espíndola Santos. Natural de Fortaleza, Ceará. Autor do livro Flor no caos, pela Desconcertos Editora, 2018. Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.