TEMPOS E AFETOS NO TURBILHÃO PRESENTE – CRISTIANO MOREIRA

Exercício das retinas sobre os livros de poemas de Wladimir Cazé.

I

A leitura da trilogia do poeta e tradutor Wladimir Cazé (Petrolina-PE) suspende algumas marcas às quais se dá uma atenção aqui, como outra marca, impressão que passou pelas retinas e circulou no corpo para voltar à letra. Vale dizer que corpo(s) é território por onde o leitor deambula e esbarra em outros tantos, de universos e dimensões diferentes. Seus títulos sugerem o exercício escópico sobre esses volumes que compõem afetos, mundos e formas de vida que precisam existir, seja na dor, na miudeza do mar, ar e no chão.

A caterva, como Cazé nomeia a primeira sessão de Microafetos (Sec.de Estado da Cultura ES: 2005), convoca uma sessão biológica cujos versos são espaços para que se possa entrever uma passagem do natural ao cultural / mitológico: jandaia, gaivota (que volta em revoada no Macromundo), lagarto, salamandra e sereia marcam o espaço aberto da linguagem, como sobre uma copa frondosa ainda não chegasse o humano e tudo fosse ainda apenas paisagem sonora como no poema “Jandaia”:  “Na garra dos galhos / galhofa, gandaia, algazarra de araras.” A aliteração parece preparar o globo onde o homem passa a transformar a paisagem cuja assinatura indelével deixa ler o antropoceno: “Da capa de uma revista, / escapa um capitalista, entra num frasco sem rótulo / ou numa caixa de fósforos. / Sem endereço fixo, / talvez vá morar no lixo, / o único pouso seguro / para quem não tem futuro.” (p.27). O efeito do tempo é diferente tanto para o ácaro quanto para Ícaro; diferente para o mangue e abelhas. Todas essas formas de vida vivem, mesmo que não saibam, ameaçadas pelos falsos afetos do agronegócio cínico comendo terra para alimentar fortunas concentradas.

Pequenos poemas que evocam a falta dos microafetos mesmo em “insetos rizomáticos” (p. 55) entre criaturas importantes para manutenção do equilíbrio dos sistemas, uma imagem que pode figurar a cápsula do mal maior fruto da anestesia: “no calor de uma tarde ecossistêmica, / a química da abelha esquizofrênica / desregula o amor do grilo clínico: / clima idílico num país caótico.” (p.37) No meio desse caos onde se fragilizam os afetos, fragiliza-se também a memória e, neste caso é premonitória a preocupação com o obscurantismo atual na última estrofe do último poema do livro de 2005: “Monturo é uma / memória de osso. / As pessoas no escuro / não possuem rosto”. Se lembrarmos o que Giorgio Agamben diz sobre o rosto como campo da política, lugar em que o aberto se fecha na aparência. Os versos assim como o livro apontam para o risco do apagamento do rosto e a aniquilação do sujeito e da linguagem. Acrescentaria que o momento mais feliz do livro são os quartetos da seção Microafetos. As últimas palavras dos primeiros versos destas quadras guardam sempre uma proparoxítona marcando a largada da leitura como o salto, cujo encontro com o solo, ou seja, o último não destoa.

 

II

Da epígrafe de Manoel de Barros, que nos orienta olhar para o chão, para o mínimo e sua potência, em seu segundo livro Macromundo (Confraria do Vento: 2010), a epígrafe de Murilo Mendes extraída do livro As metamorfoses (1944) sugere que levantemos a pestana e prestemos atenção ao que rola na dimensão macrocósmica. E essa transitoriedade imanente à composição das séries aponta o diferencial resultante da fusão dos tempos na abertura do livro, tanto na epígrafe também de Murilo Mendes, quanto no corpo do poema “História”, e desta fusão furiosa ficam os farelos, o residual com o qual quase todo poeta trabalha refuncionalizando sua linguagem no embate com o mundo, na criação das imagens que podem dar conta do mundo em que se inscrevem os poemas.

Neste Macromundo o olhar segue atento às criaturas que habitam o mundo e sua importância muito desapercebida. Oriundo da terra de cantadores e poetas populares que sabem fazer versos cantando como Loro do pajeú e tanto, tantos…, Wladimir Cazé brinca com a música das palavras como já havia feito no livro anterior. Acontece que noto uma atenção dada à gravação / impressão mais ampla em relação à Microafetos. A passagem do tempo e a gravação quase invisível de tão lenta do vento na rocha, do mar quebrando sobre a pedra (Molusco); ou as linhas do caracol que “rasteja o salitre verde / quase transparente / que desce de orifícios em seu ventre” (Caracol) ou os cupins comendo a madeira e livros (Alimária) também deixando rastros e restos. Esta operação tipográfica se intensifica na última sessão, nos minutos que acusam o fim do livro nos poemas Gravura, com epígrafe de João Cabral, fechando o volume convidando para o ensaio com matérias do mundo os elementos do mogno ao magma que imanta o gume da adaga com brilho mineral de ágata. O futuro, em resumo, restará num retorno ao natural, aos microafetos e o palíndromo cósmico, como diz Sandro Ornelas no posfácio, mantém o movimento como procedimentos que marcam não apenas a página, mas o corpo.

O corpo aparece inteiro e ao mesmo tempo vário no último livro Minividas (Cousa: 2018). Corpo do autor em atrito com as minividas mortas diariamente (p.15) em um país que vem sendo erodido diante da face cínica nas telas de tv, no cotidiano estreito das cidades. O poeta percorre estes becos acostumados com o terreno acidentado vindo desde Petrolina salvando as miudezas com as quais faz poemas potentes.  As vidas em miniaturas liliputianas para servir nos versos de um volume sem título, sem marcação de ordem e que conversa com o leitor alertando para que cada poema seja lido como uma vida. E neste espectro amplo no qual as vírgulas deixadas para trás, deixam os versos e enjambements respirar mais livres e ganharem corpo para reestabelecer a caminhada que inevitavelmente encontra “ruínas sob os pés em espiral” (p.36). O cotidiano estreito por onde medram palavras chave como exílio, ruínas, abismo do qual devem se insurgir as vidas todas principalmente as minividas que compõem quando organizadas uma gigantesca parede que pode, somente ela, barrar o desmonte que as ameaça.

 

III

Há ainda uma dimensão da rememoração neste Minividas. Em algumas evocações surgem imagens de personagens como Firmina, Joaquim ou uma fulguração do sertão. Mas no poema da página 30 que inicia diante de uma imagem, e como ensina Georges Didi-Hubermann, diante da imagem estamos diante do tempo, Cazé faz o jogo anacrônico ao escavar a matéria e a memória e escreve junto com sua infância, mantém ele menino ao lado  quando escreve: “lendo a foto minha criança / tenho nove anos ou quase / cabelos castanhos ou crinas ao sol da disciplina” o poema nos diz da construção / constituição do sujeito,  essa rede de afetos e mundos vários que é também impresso pela vida. Símbolos e cores dos objetos que também marcam tempos, “enquanto do outro lado da escrivaninha o telefone (verdes! Também) / cruza o tempo-espaço desde a mão serena do menino até / a mão já severa que num celular tecla este texto” escande o lastro desde a infância marcando os vestígios da vida no corpo também do poema. Poderia arriscar dizer que o procedimento deste poema tem como uma prova de procedimento no poema da página 35 que dá o método de leitura da imagem e técnica: “não fosse a possibilidade nunca desprezível em quaisquer circunstâncias / de que a condensação de sentimentos e emoções que a fotografia produza / pouco adiante resulte em volume de palavras no organismo de um poema…” Nesta onda sonora a partir da fotografia o corpo é narrado novamente feito imagem. O corpo é dito com gestos e versos que parecem emblemáticos e com eles me despeço deste espaço: “Apesar do ombro esquerdo um tanto descuidado a pose é convencional / tento sorrir mas não consigo / tuto isso pré-constituindo / o indivíduo”.

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Cristiano Moreira
nasceu em Itajaí, tem seis livros de poemas publicados. Traduziu com Miguel S. Rodriguez, Apartados do escritor chileno Rodrigo Naranjo. Doutor em literatura brasileira (UFSC), um dos organizadores e editor de Imprevistos de arribação – textos de Osman Lins, nos jornais recifenses. (Papaterra: 2019). Vive em um sítio na cidade de Rodeio- SC. Coordena com Patrícia Costa e Jakson Chiappa a Oficina Tipográfica Papel do Mato e a Quinta da Gávea hospedaria e quintal criativo que abriga também o Ponto de cultura Biblioteca Rural.