PA-LAVRAS – ANITA DEAK

Coluna | Litterae


Nesses tempos coronavirísticos, não tenho escrito. Não vejo a menor importância nas minhas reações psíquicas à pandemia, aos meus faniquitos, não quero fazer textos-torrente-do-medo ou colocar meus white people problems num personagem de classe média isolado num apartamento. Ou criar um personagem fora da caixa para dizer tudo isso. Em vez disso, penso. Não me lembro, sinceramente, de ter pensado tanto em minha vida.

Penso no que pode a Literatura e de que maneira devo me aproximar da palavra neste momento. Devo saturá-la com a minha angústia, deixando-a servir às minhas demandas psíquicas como mero reflexo do que me vai dentro? E se o que me pulsa agora é mais silêncio espantado do que qualquer outra coisa? Sim, eu falo, quase o dia inteiro. No Instagram, no podcast, com pessoas… Mas, curiosamente, há um toada oca em cada vocábulo, como se eu percebesse minha verborragia – e a dos outros – como uma sinfonia ininterrupta da angústia.

Por que tantas lives? E tantos textos sobre a quarentena (como este, aliás)? Por que tantas reflexões sobre tudo? Será que queremos entender, lidar, definir, controlar, escapar à vertigem? Estamos usando a palavra como escudo? Tenho escutado meus escritores preferidos. Escutado, sim, os tenho lido em voz alta de vez em quando. Caminho pelos livros de Andara, do Vicente Franz Cecim, pelos campos abertos do Rosa e percebo a fronteira à qual eles se entregaram corajosamente.

São textos em que a palavra é puro movimento. Elas transcendem os autores por que, ao explorar suas bordas, eles percorreram outros espaços que não a si mesmos – e talvez por isso me deem a impressão de que se encontraram profundamente nessa trajetória. Penso que o romance é uma mistura da subjetividade do autor, do narrador, do personagem e, ainda, de um quarto espaço impalpável, espaço-tempo de fronteira em que os significados comuns se diluem.

As aves do Cecim caem do céu de Andara. Reflito que, para cair na palavra, talvez eu precise limpar cada uma delas das minhas angústias para não transformá-las em meras escravas. Limpar a palavra do meu sangue e das minhas lágrimas até deixar que sejam apenas elas. Utopia linguístico-narrativa asséptica? Sim, não existe afastamento completo possível, veja bem, por enquanto ainda não enlouqueci. Mas e se eu ficasse um pouco mais em silêncio e ouvisse cada palavra que escrevi no passado e, em vez de perguntar, “o que foi que eu quis dizer com essa frase?”, mudar o questionamento para “o que foi que essa frase quis me dizer e eu não ouvi?”.

Outras perguntas aparecem enquanto eu abro o site do mercado livre e adiciono em meus favoritos objetos que gostaria de ter: uma bússola chinesa, uma ampulheta, uma boneca de porcelana, uma zarabatana indígena, ervas de defumação. Uma seguidora minha matou facilmente a subcamada do ato. Disse que eu queria mesmo era direção, controle do tempo, defesa, proteção. Confesso que chorei com a mensagem dela.

Daí surgiu esse texto por que as palavras, assim como os objetos, podem ser signos do medo. E colocar o medo em signo não significa tocá-lo, às vezes é só uma forma de fugir a ele, colocá-lo numa baia em Calibri 12, espaçamento 1,5.  Eu poderia até pensar, como forma de defesa, que escrever sobre o que está acontecendo é autoexpressão e que isso é importante e blá, blá, blá, mas ultimamente eu não tenho achado tão importante assim me expressar. Morrem pessoas enquanto eu falo de Literatura e isso me deixa numa posição tão ridícula…

De que forma a palavra pode me tirar do ridículo, da necessidade de existir, de me colocar, de marcar como gado uma lauda, duas, e de colocar essas laudas no altar? Seria possível descolonizar a palavra dessas tentativas fúteis do meu ego? Seria possível separar as sílabas, cheirá-las com a boca em vez de submetê-las sem parar a dizer que a literatura é importante, que os livros são importantes, que a arte é importante, que resistir é importante? Eu tenho achado que importante mesmo é tentar viver.  Pelo menos por enquanto.

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Anita Deak é escritora e editora de livros. Nasceu em Belo Horizonte. Seu romance de estreia, Mate-me quando quiser (2014), foi finalista do Prêmio SESC de Literatura e teve os direitos vendidos para o cinema. Lançará, em 2020, o romance No fundo do oceano os animais invisíveis. Dá dicas e fala sobre literatura nos stories e destaques do Instagram