PRESENTE DO INDICATIVO – ANITA DEAK

|LITTERAE
Por Anita Deak

Era uma vez Joana. Ela acreditava que precisamos entender nosso passado para construirmos um futuro melhor. Passava dias e dias analisando o passado, escrevendo sobre o passado, de olho nas notícias que acabavam de ocorrer – pois ela precisava saber para evitar monstruosidades, precisava falar ou escrever sobre essas monstruosidades, e assim sentia-se parte do movimento do mundo.

Digo a Joana a frase de um dos personagens do meu próximo livro: Ver não é saber. Entender não é saber. Sobretudo se estamos sempre olhando para o que passou ou para o que ainda não veio. Não vou fazer a Regina Duarte, de jeito nenhum, a reflexão é outra. Se estamos pensando sempre sobre o passado, simplesmente não estamos aqui. E se não conseguimos estar aqui, nossas vidas viram uma sucessão de pensares sobre o que ocorreu e/ou vai ocorrer. É de conhecimento apenas que se trata a vida?

Em nome de discursos, muitas vezes acabamos nos perdendo da experiência do agora. Às vezes, a experiência do agora é mais simples do que gostaríamos, estamos apenas sentados num sofá, e estarmos sentados num sofá parece muito pouco para nós, de forma que entramos no Facebook para analisar conjunturas políticas e pensar o futuro, e o sofá se perde, a experiência do corpo vivo se perde. Nós presentificamos as notícias, elas parecem bem coladas no agora, mas a linha do tempo é clara: o agora é o agora. Exatamente o que ocorre no seu corpo enquanto você lê este texto.

Parece alienante dizer que não devemos ler notícias, mas, juro, não se trata disso. O que chamo a atenção é para a estrutura perversa com a qual nos acostumamos a olhar para o mundo e para as nossas próprias vidas. Estamos distraidamente ignorando o agora, sempre olhando para fora, elaborando pensatas (como essa, aliás). Se você já reparou em como a sua cabeça funciona, ela está sempre te levando de um lugar para outro, pensando sobre uma coisa ou outra. Pensar é existir? E se você parar nesse momento e apenas perceber o seu corpo, focar nas sensações, perceber aquilo que te cerca – e que é o que você tem. Você deixa de existir?

Li para Joana outro trecho do meu livro: “Tempo e sede são sinônimos, não são os homens que têm a sede, ela que passa e possui os homens, somos então corredores, uma coleção de estados a passar de homem a homem, esvazie as sílabas, as palavras, esvazie a representação da sede e deixe-a passar por você”. Talvez seja isso o que não estou conseguindo explicar. A necessidade de estar na experiência, não de falar sobre ela no passado ou no futuro, mas dar toda a atenção a ela enquanto acontece.

Meus autores preferidos, Maria Gabriela Llansol, Fernando Pessoa, Vicente Franz Cecim, entre outros, vivem a palavra quando ela acontece. É diferente de usá-la para representar alguma coisa, veja, é a palavra-experiência que instaura um outro campo de tempo. A lida com a palavra, nesses casos, não serve mais apenas para explicar o mundo, domá-lo, serve para transfigurá-lo por meio da experiência. Para jogar o leitor na forma enquanto ela acontece.

Que autores poderíamos ser se trabalhássemos mais o presente do indicativo, nos textos e em nossas vidas? Se em vez de usarmos a palavra, os fatos e as notícias para representar e depois reagir, entrássemos em profunda consonância enquanto eles ocorrem? Falo de um presente do indicativo vivencial, em que poderíamos olhar com atenção tudo o que acontece agora. Em vez de posts-epitáfios do país, e se vivenciássemos tudo isso dentro e o olhássemos enquanto é, a sombra insidiosa escorregando dentro? Em nome do discurso, muitas vezes não observamos. Parece que sim, mas observação é pensar sobre ou estar em?

Tenho vivido como nunca nos últimos tempos. Triste, sim, por tantas mortes, e é por isso que penso nela quase todos os dias. Penso na morte física e também na morte em vida, filosófica, baseada em nunca estar onde se está. Nessa vida-morte, em que se valoriza apenas um arremedo do que somos: o discurso. Nessas mortes, nesses dias, nessas mortes, nesses dias, tento estar para ser enquanto ainda posso.

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Anita Deak é escritora e editora de livros. Nasceu em Belo Horizonte. Seu romance de estreia, Mate-me quando quiser (2014), foi finalista do Prêmio SESC de Literatura e teve os direitos vendidos para o cinema. Lançará, em 2020, o romance No fundo do oceano os animais invisíveis. Dá dicas e fala sobre literatura nos stories e destaques do Instagram