AUTOBIOGRAFIA OU AUTOFICÇÃO? – VERA SAAD

|ESCRITORXS DE QUINTA
Por Vera Saad

De acordo com José Saramago, em entrevista para o Jornal do Brasil em 2002, os livros deveriam carregar uma faixa em que se lesse: “Atenção, este livro leva uma pessoa dentro”, certamente em alusão ao próprio autor.

Consentânea e atual sua afirmativa, porém, há que se questionar quem é o autor, sobretudo em uma autobiografia. Se voltarmos à Idade Média, perceberemos que os autores eram compiladores, não tinham propriedade do texto. Os direitos autorais surgiram quando se atribuiu importância ao indivíduo no século XVII.

A partir dos anos de 1970 houve uma corrente que procurou constituir uma justificativa para refratar a dimensão do texto. Por conseguinte, a noção do autor do texto como figura biográfica morreu.

Foucault já chegou a propor a morte do autor, seu apagamento voluntário, pois, de acordo com ele, a relação da escrita com a morte também se manifestava no desaparecimento das características individuais do sujeito que escreve; através de todas as chicanas que ele estabelece entre ele e o que ele escreve. O sujeito que escreve, conforme suas ponderações, “despista todos os signos de sua individualidade particular; a marca do escritor não é mais do que a singularidade de sua ausência.”

Assim também, Barthes pontuava que o ser da literatura estava na significação e não no significado, o qual era, por princípio, desiludido. Entretanto, segundo ele, não se podia negar o autor, não enquanto indivíduo biográfico, porém como produtor de signos.

Sob este prisma, há uma figura na História que merece um olhar mais apurado, no que tange à construção do eu na escrita: Jean-Jacques Rousseau. É quase impossível, visualizarmos a imagem do filósofo dissociada do músico, compositor de ópera-bufa, viajante precoce, que saiu de casa ainda adolescente, e também do perseguido pela sociedade do século XVIII.

Isto porque, além de se debruçar sobre o mundo com o intento de estudá-lo, Rousseau também olhou a si próprio, e produziu obras autobiográficas, nas quais se pintou em matizes que fundem a pessoa pública e a privada.

O pensador, autor de Emílio e Do contrato social, passa a ser, também, um J. J., um “pobre Jean-Jacques”, ou mesmo o Rousseau, porém, o Rousseau protagonista de uma vida posta em cena; vida esta que não se sabe se pertencente de fato àquele Jean-Jacques Rousseau que nasceu em Genebra, em 1712, filho de Isaac Rousseau e de Susanne Bernard, e que morreu em 1778, em Ermenonville.

Já no prefácio de sua obra “Confissões”, o autor avisa: “Este é o único retrato de homem, pintado exatamente segundo o natural e em toda a sua verdade, que existe e que provavelmente existirá jamais.”

 No entanto, esse homem “pintado exatamente ao natural” se confunde, na obra, entre narrador e personagem, uma vez que o EU, em certos momentos passa a ser narrado na terceira pessoa do singular. O próprio nome utilizado por Rousseau para se autodenominar sugere o uso de uma máscara, uma dissimulação.

Mesmo que Rousseau não seja um pseudônimo, o autor lança mão de duas inicias, J.J., ao chamar a si mesmo, conduzindo seu nome a várias possibilidades de denominação, ou até mesmo a nenhuma. Ou ainda, refere-se a si próprio como “pobre Jean-Jaques”, confundindo-se a inúmeros pobres Jean-Jacques. Até mesmo quando se nomeia Rousseau, este se embaraça a um outro Rousseau, um grande poeta citado pelo filósofo.

Diante deste complexo Eu que se mistura a outros nomes, nos deparamos com uma outra obra ainda mais intrincada, Os Devaneios do caminhante solitário. Nesta, há uma maior nebulosidade a respeito de quem se escreve, posto que não se trata de uma autobiografia que registra os anos consecutivos de uma vida linear, mas de devaneios, fragmentos de lembranças, “sonhos”, segundo as palavras do próprio Rousseau, arranjados infinitamente pelo caleidoscópio de sua pena.

A obra divide-se em dez “caminhadas”, sendo a primeira contextualizada como pertencente a “outono de 1776”, a segunda ao “inverno de 1776-1777”, a terceira, quarta, quinta, sexta e sétima, à primavera e ao verão de 1777, a oitava, a “fevereiro de 1778”, a nona, a “março de 1778” e a última, é indicada como inacabada, porém, em uma data precisa “o dia 12 de abril de 1778”, justamente esta que se remete a uma lembrança longínqua. Segundo o autor, naquela data completava 50 anos que ele conhecera a Senhora de Warens, com quem passou momentos dos quais se lembra com “alegria e enternecimento”. Rousseau chega a enunciar: “passei setenta anos na terra e vivi sete”, em atribuição a esta época.

 

O EU EM CENA

O délfico “conhece-te a ti mesmo” parece delinear o pensamento de Rousseau. O conhecimento de si para ele não é um problema, é um dado, de acordo com Jean Starobinsk (Starobinski, p. 187), que corrobora sua assertiva com as palavras de Jean-Jacques em Confissões: “Passando minha vida comigo, devo conhecer-me.”

Destarte, nota-se a incessante busca pelo autoconhecimento evidenciada e ainda mais complexa e difícil em Os Devaneios do caminhante solitário, uma vez que Jean-Jacques mergulha em seu delírio e perde seus vínculos com os homens, conforme pondera Starobinski.

Com isso, há uma quase obsessiva concentração em um eu, que, para Paul de Man, é particularmente censurado e conduz “a um refinamento de autopercepção que coloca Rousseau na principal tradição da literatura pós-agostiniana”.

Na realidade, há uma grande probabilidade, ratificada na própria obra, de a escrita do EU de Os Devaneios do caminhante solitário se aproximar mais à de Montaigne, em que o sujeito somente é um EU porque se escreve. Apesar de atribuir o exame severo e sincero de si mesmo à sua solidão, Rousseau admite que, pelo fato de as contemplações de suas caminhadas diárias terem sido esquecidas anteriormente, as que estariam por vir seriam fixadas pela escrita, e cada releitura lhe devolveria a alegria.

Ademais, Jean-Jacques se compara a Montaigne: “minha empresa é a mesma de Montagne (sic), mas com uma finalidade totalmente contrária à sua: pois ele não escrevia seus ensaios senão para os outros e eu não escrevo meus devaneios senão para mim”.

Encontramos, portanto, um EU que se posiciona complemente solitário, como já o demonstra a primeira frase da obra, “Eis-me, portanto, sozinho na terra, tendo apenas a mim mesmo como irmão, próximo, amigo, companhia”, que restringe sua escrita para si, e, que, igualmente, tem a si mesmo como irmão próximo, amigo, companhia, enfatizando sua auto-suficiência em detrimento dos outros.

Esse EU também se situa “sozinho na terra”, ou seja, em um espaço vago e que posteriormente, é tido como estranho e não pertencente ao narrador: “Estou na terra como num planeta estranho, onde teria caído daquele em que habitava […]”; mas, ao mesmo tempo, delimitado às folhas do papel, “estas folhas não serão de fato senão um informe jornal de meus devaneios”.

No entanto, a partir do momento em que este “solitário” EU é localizado nas folhas, e transportado para a linguagem escrita, surge outro discurso além do EU, o do MIM, e o do Nós: “consagro meus dias a estudar-me a mim mesmo e a preparar de antemão as contas que não tardarei a dar a mim mesmo. Entreguemo-nos inteiramente à doçura de conversar com minha alma, já que é a única coisa que os homens não me podem tirar.”

Ainda, no original, o EU se divide entre JE e MOI.

 

AUTORRETRATO

Quem é Jean-Jaques, será também Rousseau, o J.J. ou o caminhante solitário? Rousseau parte de um EU solitário que se confirma enquanto sujeito por intermédio desta solidão.

Há um protagonista, este EU que se escreve, mas que confronta os outros e a si próprio, em dicotomia com o caminhante solitário. Dessa forma, há o Jean-Jaques, assim como há o Rousseau, assim como há o J.J., assim como há a pessoa pública e a particular. Rousseau apenas os organizou no caos de seus devaneios, ora confundindo-os ora difundindo-os.

Tal divisão de personas incita a questão da fidelidade do retrato pintado por Rousseau no prefácio do “Confissões”. Como é possível pintar-se exatamente ao natural, se o que se pinta já não é natural, uma vez que se modificou quando em contato com o outro e consigo próprio?

Rousseau pintou-se, mas também pintou os outros, os quais, por sua vez, o pintaram novamente. Como retrato final pode-se delinear um rosto inacabado, tal qual sua última caminhada e sua obra autobiográfica, em que, segundo Starobinski, o ato de sentimento  que funda o conhecimento de si não tem jamais o mesmo conteúdo e é indefinidamente renovável, como ocorre em um autorretrato.

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Vera Saad é autora dos romances Dança sueca (Patuá, 2019) e Telefone sem fio (Patuá, 2014) e do livro de contos Mind the gap (Patuá, 2011), Vera Saad é jornalista, mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC – SP e doutora em Comunicação e Semiótica também pela PUC – SP. Ministrou no Espaço Revista Cult curso sobre Jornalismo Literário em 2012. Tem participações nas revistas Cult, Língua Portuguesa, Metáfora, Portal Cronópios e revista Zunái. Vencedora do concurso de contos Sesc On-line 1997, avaliado pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão, foi finalista, com o romance Estamos todos bem, do VI Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana. Seu romance Dança sueca foi selecionado pela Casa das Rosas para o projeto Tutoria, ministrado pela escritora Veronica Stigger.