#DOIS – GRAZIELA BRUM

|Campo de Heliantos
Por Graziela Brum   

Uma máxima: é verdade que todos nós carregamos a energia criativa, mas nem todos permitimos seu fluxo livre e descompromissado. Por muito tempo da história e, ainda nos dias de hoje, fomos ensinados a valorizar apenas o que é programado, o que é técnico, com o objetivo de maximizar o desempenho, potencializar a eficiência do ser, e esquecemos de vários outros aspectos próprios da natureza humana. A informação se tornou imprescindível e nos transformou em caçadores ávidos de conhecimentos. Parece que estamos sempre em busca daquilo que nos falta: o saber. Acordamos já conectados ao mundo virtual, sobrecarregados de textos, imagens e vídeos e entramos no jogo competitivo para não ser o último a saber dos fatos, ou seja, a vantagem ilusória de ser o primeiro a conhecer a informação. Aqui é preciso dizer, saber é importante para criar, mas é na experiência que conseguimos explorar nosso verdadeiro poder criativo. Saber não significa se entregar ao mundo da criação artística, justo porque criar toca em diversas outras camadas mais profundas da complexidade humana. Não estou aqui menosprezando o intelecto. Imagina! O que quero dizer é que para criar precisamos dar também conta do nosso lado sensível, do mistério da natureza, do senso de beleza, das coincidências e da nossa própria loucura. Aliás, todos nós, pelo menos uma vez ou outra, surtamos. A mente é passível de panes. Aos artistas, digo, a todo o artista que vive em nós, um alerta: reequilibrar-se pela arte é uma das formas mais incríveis de criação. Seja como for, nenhuma experiência profunda ocorre na correria de informações que se atropelam e não nos deixam parar. O germe de uma nova criação nasce em campo desconhecido, no inconsciente, na camada ainda indecifrável, e tal qual uma plantinha precisa de luz, tempo e terra boa, ele precisa de espaço para amadurecer. É fundamental aguardar com paciência, deixando fluir o que de mais sensível nos pertence e, assim, observar com naturalidade os sons, as linhas, os aromas, digo, a matéria bruta tomar forma. Além disso, o processo de criação exige abandonar o preconceito com as estranhezas que se apresentam ao consciente. Que se diga, não precisamos entender tudo para criar uma grande obra, mas permanecer na linha condutora daquilo que intuitivamente nos direciona dentro do nosso projeto artístico. Numa entrevista da escritora Clarice Lispector, ela menciona que passado um tempo ainda não havia entendido por completo um dos seus contos. Poderia até se pensar aqui que Clarice apenas despistava o interlocutor da compreensão de seus recursos narrativos, mas, convenhamos, o verdadeiro artista não está preocupado com a opinião dos outros, ele se ocupa de seu processo e da construção da sua obra. Ele mergulha sem reservas na insegurança de suas experiências lúdicas e na busca das suas próprias associações. Então, ao que me parece, o primeiro ponto na construção de arte é estancar a avalanche de informações que nos soterram no vazio do nada; no universo de opiniões argumentativas e urgentes que juram nos dar respostas para o que ainda nem perguntamos. Quero dizer, o início da criação está no silêncio interno. Consiste em preparar os sentidos e desintoxicar as percepções. Sem dúvida, entrar por esse caminho não é confortável, mas as rupturas podem ser sem cataclismos, de acordo com nossos princípios do que nos significa arte. Nunca é bom radicalizar, a não ser se a arte tenha o objetivo de quebrar tabus, de resistência, de questionar um comportamento específico, como fez Marcel Duchamp quando apresentou sua obra Fonte, um vaso cerâmico sanitário, rompendo com os preceitos básicos da época e influenciando várias gerações de artistas. Porém, não quero entrar por essa vertente. Toda arte é absolutamente inútil, disse Oscar Wilde, assim não pretendo buscar respostas se a arte tem, ou não, um significado, pois independente da conclusão, vamos continuar nosso percurso. Ainda vamos criá-la.

Assim, outro ponto interessante quando se pensa em criatividade na escrita refere-se ao fato que as emoções não nos são dadas prontas, podemos construí-las e isto é simplesmente maravilhoso. Se estamos usando nosso lado emocional, intuitivo, para criar e se conseguimos moldar nossas emoções, então, quer dizer que não temos limites e que, sim, podemos apresentar ao mundo um projeto nosso e totalmente original. Digo isto, porque se conseguimos sentir de outra forma, ou pelo menos, em outra perspectiva, então, podemos trazer concepções, criações, fora do nosso contexto emocional, cultural. Tanto isto é verdade, que segundo a neurociência, somos seres humanos criados por nós mesmos. Por isso que venho pesquisando meios de abrir campos que nos permitam ultrapassar os limites de quem acreditamos ser. Julgo fundamental aplicar três linhas intercruzadas para avaliar nosso processo de criação e utilizá-las como ferramentas na construção de arte: beleza, mistério e loucura. Os conceitos dessa tríade nos ajudam a entender melhor o nosso processo de produção e avançar além dos limites na busca do projeto artístico. No próximo texto, #3, falo de beleza. Por agora, convido vocês para o Segundo Exercício de Criatividade: Uma respiração simples e rápida que ajuda na concentração e a permanecer mais tempo envolvido no projeto artístico. Gravei um vídeo no Youtube para explicar melhor.

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Graziela Brum idealizou e coordena o Projeto Literário Senhoras Obscenas. Vencedora de dois concursos ProAc em São Paulo, com Fumaça (2014) e Jenipará (2019) – que é o primeiro romance de uma trilogia sobre a Amazônia -, também publicou Vejo Girassóis em Você (Lumme), de prosa poética.