Os livros que me formaram – Anita Deak

|LITTERAE
Por Anita Deak

Acorriam trezentas pessoas por sábado aquele centro espírita no Engenho Novo, Rio de Janeiro. Sentadas em bancos de madeira, esperavam cerca de três horas para receber uma espécie de cartão com uma palavra específica que definia para qual fila de passe a pessoa iria.

Eu tinha cinco anos e, a cada quinze dias, ia lá com minha tia. O ritual era o mesmo: ela passava na livraria espírita do primeiro andar, escolhia livros e subíamos. Três horas para uma criança de cinco anos era uma eternidade e, na primeira vez em que fomos, minha tia me estendeu Ninguém é de ninguém, da Zibia Gasparetto, e disse: Pronto, se distraia com isso aqui.

Eu já sabia ler bem. Uma professora havia dito a minha tia que eu era disléxica, que seria muito difícil me alfabetizar, e Tia Piete, que nunca aceitou pela vida qualquer sentença desfavorável em relação a mim, passou a estudar quatro horas comigo até que eu pudesse compreender até livros adultos.

Eu perguntava a ela as palavras que não sabia e, desse tempo, permanece o fascínio quando um autor me faz consultar um dicionário. Palavras novas causam uma suspensão temporária no entendimento, um beco entre a palavra que vem antes e a que vem depois e, com o tempo, já adulta, percebi que gosto ainda mais dos autores que escolhem palavras amplas, aquelas que mais abrem os sentidos do que fecham. Nessa conta, coloco Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, que li aos quinze anos, assim como Cem anos de Solidão, do Gárcia Márquez, que devorei na mesma época.

Ainda me lembro do trecho em que Márquez fala que Macondo era de um tempo tão antigo que as coisas não tinham nome e era preciso apontá-las. Esta terra sem determinados substantivos cravou em mim a vontade de buscar nomes para as coisas, nomes novos, até mesmo para mim. Quando era pequena, me imaginava como personagens, eu era Kimberly, Emily, e inventava línguas estranhas para conversar com meus amigos imaginários.

Um pouco depois, na adolescência, quando morei um ano com meu pai, tive acesso a Os Miseráveis, de Victor Hugo, e também a livros de agronomia, de forma que me revezava entre as dicotiledôneas e Jean Valjean e também entre A insustentável leveza do ser, de Kundera, e como tratar o solo para o plantio da mandioca. Aconteceu também nessa época o encontro precioso com Guerra e Paz, de Tolstói, que li na biblioteca da Universidade de Viçosa enquanto esperava meu irmão mais velho sair de uma aula.

Ainda aos quinze, escrevi meu primeiro livro a mão, num caderno azul que infelizmente se perdeu. Contava a história de uma camponesa que estava dividida entre um mancebo (sim, eu usava esse tipo de palavra) que trabalhava com ela na plantação e o filho do dono da fazenda. Em meio a isso, ela descobria que o fazendeiro estava usando agrotóxicos e matando os trabalhadores. É que eu tinha lido Ratos e Homens, do John Steinbeck, uns meses antes, então achei que precisava falar do povo simples, mas com uma pitada de romance, afinal, estava na adolescência, né?

Se eu tivesse que colocar aqui todos os livros que me formaram, seria impossível, pois há certamente alguns de que não me lembro, mas que insidiosamente pulsam nas minhas escolhas até hoje sem que eu me dê conta. Sinto que cada bom livro a que tive acesso deixou em mim uma carga afetiva e carrego até hoje A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, e aquelas palavras que apareciam misteriosamente em seus inúmeros bolsos.

A graça da Literatura é que as descobertas não cessam. Com Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, essa obra-prima que releio a cada três anos, aprendi que é possível fundar um novo ethos a partir da linguagem e que não interessa apenas o que se conta, mas como se conta. Meus escritores preferidos apropriaram-se da linguagem e colocaram-na a seu serviço. Eles não se contentam apenas com as estruturas normativas das frases – partem do que existe para moldar seu próprio mundo lexical.

Há também os que, mesmo pautados pelas estruturas normativas, concedem viço aos personagens, e nessa conta coloco Graciliano Ramos e Clarice Lispector. A torção da realidade também é uma escolha que me interessa bastante, de forma que não poderia deixar de citar meu flerte com Julio Cortázar. Ou a minha alegria em relação à Agustina Bessa-Luís, Maria Gabriela Llansol, Fernando Pessoa – esses três últimos, junto com o grande Almeida Faria, já são companheiros de longa data.

Se um gênio da lâmpada me concedesse três pedidos, um deles seria ressuscitar esses amigos e fazer um bobó de camarão aqui em casa pra eles.  Eu ficaria em silêncio, talvez até me decepcionasse, pois a distância entre o texto e o autor que fala e usa seu banheiro às vezes é muita. Ainda assim, faria as melhores comidas, os melhores drinks, me ofereceria para engraxar seus sapatos e lavar suas roupas. Talvez eu escrevesse meu nome na gola das camisas de todos eles, nas barras dos vestidos, só para que me carregassem como eu os carrego. Há em mim um senso de propriedade estranho em relação a eles, em relação às imagens fictícias que fiz deles. Amor pelo texto, amor por esses mortos-vivos, afinal me ensinaram tanto.

Quem sabe não tenhamos nos esbarrado lá no centro espírita Tupyara? Em todos os anos que o frequentei, e foram pelo menos uns cinco, me era entregue sempre cartões com a palavra magia. Um dia, minha tia perguntou a um funcionário: Vocês sempre entregam a carta da magia para as crianças? E ele disse: Não, as cartas são embaralhadas e são os guias espirituais que escolhem cada palavra para cada pessoa.

Por cinco anos, sem falhar uma única vez, estive associada à palavra magia. Não sei a especificidade do passe para os que recebiam essa palavra, mas entendo que de alguma maneira ela também me fundou um desejo precoce. Um desejo pela mágica do texto (afe, que brega isso), pelo impalpável do texto, que acabou vicejando com influência desses grandes magos dos livros que me formaram.

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Anita Deak é escritora e editora de livros. Nasceu em Belo Horizonte. Seu romance de estreia, Mate-me quando quiser (2014), foi finalista do Prêmio SESC de Literatura e teve os direitos vendidos para o cinema. Lançará, em 2020, o romance No fundo do oceano os animais invisíveis. Dá dicas e fala sobre literatura nos stories e destaques do Instagram