#TRÊS – GRAZIELA BRUM

|Campo de Heliantos
Por Graziela Brum

No processo de criar em Literatura, pressupõe-se a beleza um importante elemento na construção do projeto literário. Mais que isso, uma força contrária às tendências degenerativas da humanidade, tornando-se um valor imprescindível por nos retirar do mundo caótico e nos colocar em contato com nosso eu criativo. A beleza em Literatura eleva o texto para uma ordem superior. Aqui, um questionamento importante pode surgir ao se imaginar que beleza num texto seja contrária ao conflito. A técnica literária nos diz que o conflito é ponto importante para trabalhar o enredo narrativo do texto. É nele que se consegue a tensão para os desdobramentos das complexidades humanas. No entanto, mesmo num texto que evoque tristeza, desprezo, ódio, há sempre de se pensar numa composição interna que trabalhe a beleza e que traga o equilíbrio na construção da escrita..O conflito no texto é apenas um pretexto para encaixar aspectos de mais valia, digo, de valor artístico, o qual tem a capacidade de tocar o indivíduo no seu íntimo e trazer ao estado reflexivo.

A pergunta que surge: O que é beleza? Diante das minhas pesquisas, digo,  a beleza tem natureza dinâmica. Ela relaciona-se com o tempo histórico e vem num processo de constante transformação. Kant argumenta que a experiência da beleza vem quando abandonamos nossos interesses e olhamos as coisas não com a intenção de usá-las para nossos propósitos ou com a finalidade de explicar como elas funcionam, mas apenas observá-las e assimilá-las como elas são. Parece que não há definição conceitual de beleza, nem para a natureza, nem para a Literatura como expressão em arte. Um texto é belo quando há nele um equilíbrio entre a linguagem, enredo, ritmo, sonoridade, entre vários aspectos que o formam, ou seja, quando traz na composição um jeito singular que de uma forma ou de outra consegue se identificar com o leitor e tocá-lo na sua inteireza.

Na tríade da Criatividade, considero a beleza peça chave na construção do texto. A escrita que busca a originalidade traz também, na maioria das vezes, o estranhamento, talvez, até um certo desconforto durante a leitura, o que o leitor menos preparado pode confundir com texto problemático. Porém, apresentar tal estranheza em conjunto com elementos alinhados, que primam pela beleza pode ser uma saída para os escritores que querem se experimentar no formato, na linguagem e que desejam se arriscar dentro da proposta do seu projeto literário. Agora, tenho que dizer que não é fácil equilibrar todas as variantes que surgem durante o processo de criação literária, justo porque lidamos com nossas próprias limitações e desejos. No entanto, não tem como fazer uma literatura original se o artista não estiver disposto a arriscar. É complicado, e digo mais, antes de entender a tríade de criação, o conjunto de três elementos que criei e venho compartilhando aqui na coluna Campo de Heliantos e no podcast com o mesmo nome, preciso ratificar o que Clarice Lispector já mencionava. Sem coragem, não se faz um escritor, melhor, sem coragem não se escreve uma linha, talvez, nem uma palavra.

Seja como for, a beleza vem nos apoiar como ferramenta no projeto literário  e nos ajuda a encontrar caminhos possíveis na construção de uma obra. O artista sempre deve estar alerta para observar tudo o que se presta à beleza ao seu redor. Um chão rosa tomado de pétalas da flor de jambo, o pôr do sol dentro do rio na ponta do Cururu, a leitura de um poema de Gilka Machado, a contemplação do quadro A Noite Estrelada de Van Gogh, a escuta da Primavera de Vivaldi. Beleza é atenção ao que de excepcional tem à nossa volta, é o que a nossa curiosidade pode encontrar, o desapego ao que não mais nos serve, o encontro com o novo. Importante ainda sobre Beleza e a Literatura: Um bom texto traz em sua construção um sentimento de honestidade. Diz o filósofo Roger Scruton que a beleza é um valor tão importante quanto a verdade. Se a Literatura coloca diante de nós forças eternas que regem a história, buscando nos desligar do presente imediato e a inconsistente aparência, então a beleza é uma arma com um girassol apontado para o nosso eu criativo.

Convido vocês a escutar o #2 episódio do podcast Campo de Heliantos, intitulado “As belezas no processo de criação

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Graziela Brum idealizou e coordena o Projeto Literário Senhoras Obscenas. Vencedora de dois concursos ProAc em São Paulo, com Fumaça (2014) e Jenipará (2019) – que é o primeiro romance de uma trilogia sobre a Amazônia -, também publicou Vejo Girassóis em Você (Lumme), de prosa poética.