#QUATRO – GRAZIELA BRUM

|Campo de Heliantos
Por Graziela Brum

A Literatura não é importante. O importante é a criação e a liberdade que ela pode promover, justo por isso, exercer seu espírito não é tarefa fácil, porque a Literatura consome e pode prender a pessoa na profissão. Então, a Literatura deve ser esquecida para que surja o escritor. A ideia, a princípio, parece paradoxal, mas em nome da arte se faz necessário transitar pelos mais contraditórios entendimentos na busca da raiz germinal da criação.

O livro não deve ser o objetivo final do escritor. Os objetivos de quem escreve centram-se no compromisso com os próprios desejos e eles passam por questões que vão além da obra de arte em si, digo, do objeto final. O artista ganha muito mais dentro do processo de criação do que apenas a obra em si, ou seja, o livro-objeto. Ele, durante a produção, descobre, desenvolve, conecta, associa. Ele amadurece. A obra, então, é o resultado do encontro do artista com ele mesmo numa composição dinâmica e sequencial, o que podemos chamar de carreira artística.

Porém, não falo aqui daquela carreira que pressupõe escrever, publicar e lançar, o que quero dizer dá conta da construção intelectual e da coragem de se experimentar. Com a maturidade, aceita-se com mais clareza a loucura artística e suas peculiaridades. Aliás, acredito que todos nós temos nossas estranhezas, substâncias que destoam, talvez, soltas, mas que flutuam e nos rodeiam. A loucura artística é precisamente isso, é se apropriar daquilo que descartamos por parecer muito anti Literatura. Penso que, se está por ali, tem o que dizer, então não devemos ignorar, temos que segurar e sovar o barro impuro até a formação da pasta criadora, possível de moldar. Quem sabe encontramos aqui a liberdade para uma criação mais honesta, sem as máscaras e as fantasias elaboradas para proteger contra a crítica.

É comum na imaginação do artista formular monstros que crivam a própria produção. O medo da crítica do leitor assombra e traz as noites de insônia. Penso que, é imprescindível dizer, a crítica mais destrutiva é a do próprio produtor, pois ela paralisa o processo. Agora, não basta dizer tenha confiança, não é apenas dizer coragem, é preciso esquecer a Literatura para escrever e confiar nos desdobramentos que surgem quando há envolvimento com a história. Tomar conta dos personagens. Jorge Amado dizia que o escritor deve dar comida aos personagens, eles têm fome. Seja como for, é apostar na ideia matriz geradora de sentimentos que envolve a escrita. Conectar-se com o que está dentro e observar como refletem os elementos e as experiências de fora.

Neste processo, é claro, o livro não deixa de ser o grande estímulo para seguir a carreira literária. Porém, ele não se encerra numa publicação, na verdade, o livro é o começo, visto que a obra existe quando interage com o leitor, quando reverbera, quando formatos e concepções são desconstruídos para restabelecer novos entendimentos. Por este ângulo, confirma-se mais uma vez que a Literatura para o escritor não está no primeiro plano, o que vem primeiro é o fascínio pela circunstância ou objeto, o que faz parte da construção da história, as questões humanas envolvidas e suas relações com a natureza, as questões contraditórias que levam à reflexão. Enfim, é aquilo que traz ao escritor a possibilidade de trabalhar as engrenagens enferrujadas dentro do seu próprio universo, para colocá-las em produção.

Neste fluxo, se faz o encontro do escritor com sua história. Um dos momentos mais bonitos da construção de um romance é quando o escritor se depara pela primeira vez com o protagonista ou as protagonistas. É no contato face a face que se abrem inúmeras possibilidades, as quais vão se definindo aos poucos na medida em que o escritor se entrega à sequência narrativa da história. Aproveite, pois a tarefa de escrever um romance não é tranquila, as perturbações surgirão, mas são justo elas que nos fazem seguir e buscar a liberdade de sua escrita.

Aqui uma pequena intervenção, o vídeo narrativo As Mãos Negativas, Marguerite Duras. (1979).

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Graziela Brum
 idealizou e coordena o Projeto Literário Senhoras Obscenas. Vencedora de dois concursos ProAc em São Paulo, com Fumaça (2014) e Jenipará (2019) – que é o primeiro romance de uma trilogia sobre a Amazônia -, também publicou Vejo Girassóis em Você (Lumme), de prosa poética.

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