ENTREVISTA COM ANITA DEAK – VERA SAAD


Uma conversa com Anita Deak é sempre enriquecedora. Conheci a escritora pelo livro Mate-me quando quiser, indicação de uma amiga. A leitura me instigou tanto que parti em busca da autora, privilégio do nosso tempo, do qual eu, uma leitora/fã/cara de pau, muito me beneficio. Quantos escritores já não conheci pela internet? Pelo Instagram foi-me apresentada não apenas a ficcionista, como também a editora, a professora, a leitora, alguém que sabe muito do que fala, que estuda demais. Tive o privilégio de ler No fundo do oceano, os animais invisíveis e posso adiantar que será um livraço. Enviei-lhe cinco perguntas sobre seu processo criativo e o resultado vocês podem conferir a seguir.



“A verdade é que me cerco constantemente daquilo que pode alimentar a minha produção artística. Meu processo criativo acontece em várias tangentes, em múltiplas direções. Tenho quadros e mais quadros no escritório e amo música brasileira”



VERA SAAD – Como esta entrevista é mais uma conversa entre leitora/admiradora e escritora do que entrevista jornalística de fato, inverterei a ordem das perguntas e começarei pelo fim. Acompanho seus stories no Instagram há muito tempo, o que considero excelente material de pesquisa. Em um deles, uma observação sua sobre No fundo do oceano, os animais invisíveis me chamou a atenção. Nela você afirma que, apesar de o romance ter sido extremamente pensado e estudado, no final você “entrou em flow”, parecia que todas as palavras que você tinha escrito antes começaram a gritar em uma torcida absoluta, como se estivessem batendo palmas para as palavras ulteriores. Foi, nas suas palavras, “uma cavalaria louca”. Conte mais sobre essa sensação. Ainda que exista a técnica, parece-me que há algo de mágico na escrita.

ANITA DEAK – Isso aconteceu quando escrevi os quatro ou cinco últimos capítulos do livro. Nesse momento, a linguagem estava tão, mas tão entranhada em mim que eu já não a observava de fora como havia feito nas reescritas. É uma linguagem que começou a dar as caras na primeira parte do livro. O romance, aliás, tem linguagens diferentes que acompanham o ritmo da vida de Pedro Naves, o narrador-personagem – por vezes, a linguagem é mais corrente; em outros momentos, mais poética. A linguagem do momento de flow é filha da linguagem poética do início do livro. Tenho pra mim que se não fossem as reescritas – essa observação atenta – eu não teria saltado de fora pra dentro. O fora é conjugado ao dentro. Esse movimento de flow adentro, no entanto, carrega, sim, algo transfigurativo que vai além da técnica. Tem a ver com habitar o avesso das palavras, eu diria. Ao menos, foi assim que me senti, e, sinceramente, não consigo nem replicar racionalmente o que aconteceu porque a experiência não ocorreu só na consciência.



VERA SAAD – Seguindo a linha da magia na literatura. Desde os primeiros stories aos quais assisti, é-me inevitável compará-la a Guimarães Rosa e à proposta literária na esteira dos românticos, em busca da criação original, enquanto origem. Lembro-me de uma fala de Berthold Zilly, quando o entrevistei para as revistas Metáfora e Língua Portuguesa, sobre sua tradução para o alemão de Grande Sertão: Veredas. Segundo ele, quando se digitam no Google trechos com quatro ou cinco palavras utilizadas pelo escritor, verifica-se que esses trechos apenas são encontrados em sites relacionados ao Guimarães Rosa. Sua intenção é que a combinação de palavras traduzidas em Grande Sertão, quando procurada na Internet, também não seja encontrada em nenhum site, a não ser na própria obra de Guimarães Rosa. Aqui comparo a fala de Zilly com uma fala sua em entrevista para a Revista Pessoa: “o uso de determinados recursos literários e a abordagem da paisagem sonora do texto (não apenas o que as palavras significam, mas também sua sonoridade como elemento fundamental) é a minha forma de tratar a linguagem não como meio para representar a realidade, mas como uma realidade em si, construída por meio de parâmetros formais”. É possível fazer essa aproximação entre o seu projeto literário e o do Guimarães Rosa sob esse viés?

ANITA DEAK – Sim, a estrutura tem alguns parâmetros semelhantes, mas escolhemos elementos diferentes nas composições. Rosa trabalha, por exemplo, com adição de preposições para subverter a norma culta em vários trechos e, assim, cria a fala não do sertanejo real, mas do sertanejo roseano – que transpõe o sertanejo real. Ele brinca com a ideia de adição, aliás, com palavras de várias classes gramaticais, não apenas com as preposições. No meu livro, eu trabalhei muito mais com a subtração do que com a adição. Tanto para tirar alguns links entre períodos, e assim acelerar a narrativa, quanto para baixar a fronteira entre cenários e personagens em algumas passagens. Achei muito interessante a colocação do Zilly, inclusive. As palavras conjugadas pelo Rosa só aparecem sequencialmente dentro da obra do Rosa porque ele fundou uma linguagem que não é subserviente ao normativo, à realidade, ao uso funcional.


FOTO: ANITA DEAK / DIVULGAÇÃO



VERA SAAD – Afora o esmero com as palavras em No fundo do oceano, os animais invisíveis, sua leitura me trouxe imagens fortes, como a do rio Berocan. Dia desses ouvi o nome Berocan em algum lugar e imediatamente senti uma força estranha, quando me lembrei a razão, morada de Pedro Naves, assim como a cidade de Ordem e progresso na infância dele. Como se deu a construção desse cenário durante o processo de criação?

ANITA DEAK – Pensei os cenários em duas vias. Tanto para trazer a força dos rios – o rio das sêdes, o Berocan – quanto a força de Ordem e progresso, cidade fictícia em que nasce Pedro Naves. Só que, porque a história é narrada em primeira pessoa, entendi que precisaria pensar os cenários também como representação e projeção da psique do personagem. É uma questão filosófica a respeito do olhar. A gente só consegue contar das coisas a partir do nosso olhar sobre estas coisas, de maneira que um cenário não é apenas concreto. Ele carrega a mediação psíquica, o onírico, o inconsciente, a imaginação. Em alguns trechos do livro, quis que o cenário fosse de fora pra dentro e de dentro pra fora. E que também passeasse entre tempos.



VERA SAAD – O trailer do livro evoca a atmosfera do romance, segundo observação da escritora Camilla Loreta. Ele nos transporta, a meu ver, a um universo bastante singular da autora, que abarca desde uma música de composição sua até o quadro que estampa a capa do livro. A música e a pintura exerceram alguma influência durante a criação de No fundo do oceano, os animais invisíveis? De que forma? No sentido inverso, como foi ver o quadro inspirado no romance?

ANITA DEAK – Sou profundamente influenciada pelas artes plásticas e pela música. Caligrafia do oceano, música que compus para o book trailer, foi criada em 2017, olha que maluquice. Eu não tinha o título do meu livro ainda e esta sua pergunta me faz pensar se o título do romance não começou a surgir antes, com a música. Já a pintura do Alex Carrari foi um processo muito interessante. Por ter sido feita para ser base da capa do livro, conversamos muito antes. Ele leu a obra, me passou impressões, e fomos debatendo sobre os elementos visuais que passariam a atmosfera do livro. Depois que o quadro ficou pronto, revisei o livro mais umas três vezes e adicionei alguns trechos. Vai saber se o quadro não balizou meu olhar inconscientemente nestas alterações… A verdade é que me cerco constantemente daquilo que pode alimentar a minha produção artística. Meu processo criativo acontece em várias tangentes, em múltiplas direções. Tenho quadros e mais quadros no escritório e amo música brasileira. 


FOTO: ANITA DEAK / DIVULGAÇÃO



VERA SAAD – Retomando os stories, em um deles você afirmou que, quando está no processo de escrita, lê muito mais não ficção do que ficção, pois os ficcionistas “puxam para a linguagem deles”, e ler não ficção é uma forma de não se contaminar. Ao mesmo tempo, percebe-se na sua escrita um repertório imenso. É possível apontar influências no seu texto? Qual a importância da leitura de ficção para a sua formação literária?

ANITA DEAK – A leitura de ficção é fundamental, eu passo muito mais tempo lendo do que escrevendo, inclusive. Antes de escrever um livro, estudo profundamente autores que são referências. No caso do No fundo do oceano, os animais invisíveis passei alguns anos anteriores à escrita dele estudando Almeida Faria e Maria Gabriela Llansol, dois autores portugueses de que gosto muito. Estudei também Eugênia Sereno, Ricardo Guilherme Dicke (este, uma referência para o Guimarães Rosa), Agustina Bessa Luís, Fernando Pessoa… Na hora de escrever, porém, me concentrei em filosofia, biologia, física… Acredito que uma boa base é formada pelas duas coisas: com o estudo dos romancistas, você aprende as técnicas literárias. Com os pensadores, você aprende a torcer o seu pensamento e emprestá-los aos narradores e personagens.

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Nota da editora: O lançamento online do livro No fundo do oceano, os animais invisíveis acontecerá no dia 12/12/2020, às 18 horas, no YouTube Canal Anita Deak e no perfil da autora no Facebook. A live profissional contará com uma conversa sobre o livro com o editor Marcelo Nocelli e com um pocket show de MPB com Amanda Eufrásio e Alex Neves.

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Vera Saad é autora dos romances Dança sueca (Patuá, 2019) e Telefone sem fio (Patuá, 2014) e do livro de contos Mind the gap (Patuá, 2011), é jornalista, mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC – SP e doutora em Comunicação e Semiótica também pela PUC – SP. Ministrou no Espaço Revista Cult curso sobre Jornalismo Literário em 2012. Tem participações nas revistas Cult, Língua Portuguesa, Metáfora, Portal Cronópios e revista Zunái. Vencedora do concurso de contos Sesc On-line 1997, avaliado pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão, foi finalista, com o romance Estamos todos bem, do VI Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana. Seu romance Dança sueca foi selecionado pela Casa das Rosas para o projeto Tutoria, ministrado pela escritora Veronica Stigger. Mantém uma coluna semanal na revista Vício Velho.