TEREZINHA – FERNANDA BRAITE

Quando ela abriu a porta, a sala estava cheia de corpos. 

Ficou surpresa com a quantidade. Tinha achado que a aula de anatomia seria um acotovelamento de pessoas lutando para disputar um cadáver, uma correria para ver quem chegava no presunto mais inteiro, e os retardatários teriam que se contentar em ver de longe o que tinha sido um ser humano.

Mas o que via ali eram muitas mesas (mais de vinte?), com muitos corpos. Facilmente havia um para cada dois alunos ou talvez mais, o que a deixou surpreendentemente aliviada. Não estava ansiosa para a primeira aula de anatomia, como seus colegas. Vanessa só queria passar logo essa matéria e focar em psiquiatria.

– Minha rinite já está querendo atacar. – falou a colega que entrou ao lado dela. 

De fato, o cheiro de formol era insuportável, mas os veteranos tinham dito que com o tempo eles se acostumariam. Os corpos eram vários e de todas as idades. Homens, mulheres, idosos. E muitos fetos, encolhidos com os rostinhos estranhos enfiados entre os braços magros, como se estivessem se escondendo. 

Nem chegaram a saber o que é se esconder, pensou ela. Mas logo sua atenção se voltou a outra cena dantesca – entre as mesas, havia dois longos balcões com partes de corpos segregadas: um com várias mãos, outro com pés, e então várias línguas dispostas uma ao lado da outra e, por último, uma mesa cheia de pênis.

Já esperava ouvir piadinhas dos mais imaturos da classe, mas os alunos estavam quietos. O professor começou a explicar justamente sobre o respeito àqueles corpos e como as observações seriam feitas, mas Vanessa achava aquilo um monte de blábláblá. Queria logo ver um cérebro, que era a parte que interessava pra ela.

Porém, descobriu que naquela aula eles veriam músculos e tendões. Deu um suspiro de impaciência, até onde o cheiro de formol permitiu uma aspiração mais profunda, e deixou-se ser encaminhada ao cadáver que ela iria analisar.

O que mais a impressionou foi o rosto. Uma mulher, talvez de uns 50 anos? Era bem diferente de um morto fresco. Vanessa se lembrou do velório do primo, morto por um acidente de moto. Ele estava levemente inchado, uma aparência bizarra, mas ainda assim lembrava bastante alguém dormindo. Aqui, não: a pele ressequida tinha outra cor, outra textura. Era quase difícil lembrar que se travava de carne humana, parecia um material seco e acinzentado. Os órgãos internos tinham tons de amarelo e marrom. Nada vermelho como carne, nada úmido como carne. Alguém fez um comentário sobre isso, falando o alívio que era mexer em corpos meio desidratados, diferente dos corpos úmidos dos recém- mortos, que soltam todo o tipo de chorume.

A mulher na mesa tinha os olhos semiabertos, e isso era o que mais impressionava. A pele totalmente tomada por rugas, que Vanessa não sabia dizer se eram da idade ou resultado do tratamento com formol. Os cabelos curtos eram de um vermelho desbotado muito seco e artificial, um corpo magro de pele manchada. Mas o que mais surpreendia era o tamanho: era uma mulherzinha miúda, meio raquítica, de aspecto frágil. Sua expressão era triste, como se ainda sentisse dor. E, a segunda coisa mais chocante, ela já tinha cortes no rosto, peito, braços e pernas, feitos pelos estudantes de medicina. Pedaços de pele aberta como uma capa de livro, revelando fibras e músculos por baixo. O abdômen também estava aberto, os órgãos à mostra. O pé de dedos feios tinha uma etiqueta. Terezinha.

– Não é o nome dela de verdade. – disse um monitor, se aproximando – Colocamos nomes fictícios nos cadáveres. 

– Por quê? – quis saber Vanessa.

– Ah, primeiro porque a gente realmente não sabe o nome da maioria deles. Noventa por cento dos corpos são de indigentes. É muito raro alguém doar o corpo para a ciência, de bom grado.

– Mas por que “Terezinha”? Por que não “Tereza”?

– Porque ela é pequenininha. – falou ele, olhando para a morta com carinho, antes de se afastar e ir explicar algo para outra mesa.

– Dá vontade de saber a história da pessoa, não dá? – disse a colega que era sua dupla, uma menina que Vanessa não lembrava o nome.

Não dá, não.

– Olha só… – ela continuou, sem esperar resposta de Vanessa, apontando para os órgãos no abdômen – O estômago e intestino estão meio pretos. Parecem até necrosados. Será que ela morreu disso?

– Acho melhor a gente focar nos músculos, que é o tema da aula, né? 

Passaram o resto da hora olhando as fibras de Terezinha, o corte na maçã esquerda do rosto revelando como é uma bochecha sem a pele. Ao fim da aula, saíram do laboratório, com Vanessa agradecendo por deixar o cheiro de formol pra trás.




Ela precisou voltar para o laboratório, apesar de já ser noite. Tinha esquecido a pasta inteira do relatório na sala de anatomia, e não iria conseguir terminar para amanhã se não voltasse pra pegar.

A faculdade tinha uma luz azulada bizarra, depois das aulas acabarem. Era incrível como os longos corredores, tão cheios de vida quando estavam lotados de alunos, assumiam agora um aspecto amedrontador quando se encontravam vazios. Como se a própria falta de pessoas preenchesse o local com uma presença, algo que parecia tomar o lugar. Uma névoa invisível de silêncio. 

A cada passo, Vanessa olhava para trás, com a horrível sensação de que alguém estaria ali. O segurança garantiu que só havia ela e um professor no prédio, mas, mesmo assim ela sentia os nervos à flor da pele, como um gato prestes a pular para cima ao sinal de qualquer movimentação. Deu risada com aquela comparação. Odiava gatos.

Encontrou o laboratório de anatomia e gelou ao pensar que entraria em um lugar escuro cheio de pessoas mortas. Mas voltou a respirar normalmente quando lembrou que os corpos já haviam sido recolhidos e deviam estar em outro lugar, o que se revelou verdadeiro quando ela acendeu a luz e viu as mesas vazias. 

Mas uma silhueta escura estava parada no meio da sala, imóvel. Vanessa gritou e ia correr do laboratório, quando percebeu que era apenas o professor. Ele estava de costas, olhando para uma das bancadas.

– Puta que pariu, professor, que susto! Não sabia que o senhor estava nessa sala.

Ele nem ao menos se virou para vê-la. Continuava de costas para ela, imóvel, olhando fixamente para o balcão à sua frente. Vanessa voltou a sentir os pelos do braço levantando, e se aproximou lentamente do homem alto e calvo.

– O que o senhor está fazendo? – perguntou, receosa – Por que estava no escuro?

Teve a sensação horrível de que não seria o rosto dele que ela veria ao contornar a silhueta do professor. Talvez um rosto seco, com a bochecha esquerda cortada. Estava sendo dominada por essa certeza absoluta e absurda de que o corpo alto do professor revelaria o rosto pequeno do cadáver da aula, mas quando ficou de frente pra ele, estava tudo normal. Era o professor, sem nada anormal além do olhar parado para a bancada.

Ela acompanhou o olhar dele e viu as línguas mortas dispostas sobre o balcão. – Por que não recolheram essa mesa, como as outras?

O professor, que até então estava imóvel, pulou em cima dela com uma velocidade sobre-humana e uma expressão doentia. Vanessa tentou se defender, mas ele foi muito rápido. Apertou o pescoço dela com uma mão, e com a outra pegou uma das línguas da bancada e enfiou com violência dentro da boca dela. Ela se debateu, tentou cuspir, mas só conseguia sentir aquele imenso pedaço de carne morta preenchendo todo o espaço de sua boca. 

No instante seguinte, ela começou a perceber que o pedaço frio estava, na verdade, ocupando o espaço de sua própria língua. Como se, num segundo, sua língua tivesse sumido e aquela tira de carne dura de cadáver tivesse ocupado o lugar da original. Ela se engasgou, tentou colocar a língua pra fora, enquanto o professor a soltava e tomava dois passos de distância, como se quisesse estudar o resultado daquela experiência. Como se ela fosse o corpo a ser analisado.

Vanessa ainda se debatia, lutando contra aquilo, mas era exatamente isso que sentia: a língua morta tinha se tornado a sua língua, e agora ela não tinha mais controle sobre esse órgão. Não tinha mais controle sobre nada.

Foi assim que ela se sentiu paralisar, sua boca abrindo sem ela querer, seus lábios se  mexendo como se ela tivesse virado um enorme boneco de ventríloquo, a língua morta  se movendo e as cordas vocais vibrando sem que ela enviasse essa ordem ao cérebro.

– Terezinha de Jesus… – uma voz aguda e bizarra saía de sua boca. Ela estava cantando. O professor apenas olhava.

– Terezinha de Jesus. Numa queda foi ao chão. 

Era a antiga musiquinha infantil. O mesmo tom macabro, triste e mórbido da famosa canção, que aliás Vanessa nunca gostara. Sempre achara a melodia assustadora, sem nada que uma música infantil deve ter.

O professor entrou no coral, cantando com ela, os dois a plenos pulmões.

– Acudiram três cavalheiros…

Vanessa acordou num baque, chacoalhando na cama. Ainda sentia a língua morta, o gosto de formol na boca. O rosto estava molhado de suor e o corpo todo tremia. 

Estava na sua casa, onde havia dormido normalmente depois de sair da faculdade, após a aula de anatomia. O sonho, o pior sonho que ela tinha tido na vida, ainda pairava em volta de sua cabeça.

O gato da vizinha miou no muro e ela pulou de susto.

Maldito. Tenho que comprar mais veneno para dar um jeito nessa coisa.

Levantou, ainda tonta. O quarto já estava claro, um sol bonito lá fora, mas o peso do pesadelo parecia deixar tudo escuro e azulado, como ele. Respirou fundo várias vezes e a normalidade começou a voltar à sua mente. Tinha esperança do sonho ir se apagando durante o dia, como acontece com todos os sonhos.

O gato miou de novo e Vanessa foi abrir a janela para atirar alguma coisa nele, quando viu uma marca de mão no vidro. Parecia ter sido feita do lado de fora, o que era muito improvável: ela morava em um sobrado de luxo, e a janela era muito alta. 

Com certeza a empregada limpou a janela igual o nariz dela e deixou marcado.

Mas era uma marca de mão pequena demais para ser da diarista, uma mulher grande e gorda. Parecia mais mão de criança.

Ou de uma mulher pequena. 

O pensamento fez ela recuar da janela, o coração batendo rápido. Saiu do quarto e se forçou a começar o dia, recusando-se a entrar de novo no terror do sonho. Era só pedir pra Madalena limpar a janela de novo.




Era um sábado bonito, e ela se arrumou para correr no parque com uma amiga.  Encontraram-se na rua e já estavam andando rápido, se aquecendo na caminhada para chegar até o parque. Durante o caminho, encontraram muitos moradores de rua e suas barracas, ocupando a calçada de uma via que elas tinham que pegar. 

– Eu não sei como ainda deixam eles aqui. É um bairro de família. – comentou a amiga – Olha que cheiro ruim.

– Eu não me importo com eles. O que me incomoda são os cachorros e gatos que eles têm – falou Vanessa, olhando um vira-lata magro que dormia ao lado de um senhor maltrapilho – Olha que bicho nojento. Tem que acabar com essa raça.

– Que raça? – a amiga riu – Esse cachorro não tem raça, não.

– A raça dos cachorros de rua. Tinha que acabar com isso, deve trazer doença.

– Bom, a sarna canina não passa para o ser humano…

A amiga continuou a falar de cachorro e Vanessa aumentou o volume do celular, onde ouvia música no fone de ouvido. Balançava a cabeça e concordava ocasionalmente, mas não ouvia mais nada. Só escutava a amiga nas entrecortadas pausas de silêncio, quando uma música acabava e outra começava, ou quando a melodia ficava mais branda.

– … ela quer muito ter um cachorro…

– … já falei que não é simples assim…

– … quase pedindo o divórcio, mas tem a…

– …Terezinha de Jesus, de uma queda foi ao chão…

– O quê? – Vanessa estacou a caminhada e tirou o fone de ouvidos das orelhas com violência – O que você disse?

– Que foi? – a amiga deu risada – Qual é o problema de eu querer comprar um carro novo?

– Você estava falando a letra de uma música infantil. 

– Quê? Tá maluca?

Vanessa balançou a cabeça e voltou a caminhar.

– Eu não dormi direito.

Elas retomaram o ritmo. Mas Vanessa percebeu que, de repente, os moradores de rua estavam olhando para ela. Um por um, quando elas passavam, olhava para ela e ia acompanhando o andar dela com a cabeça, sem desviar o olhar, até ela estar muito longe pra ver se continuavam olhando. 

Vanessa começou a imaginar quantos deles não acabariam em uma mesa de alguma faculdade de medicina, com pedaços de carne aberta mostrando o interior amarelado, lotados de formol e com um nome falso pendurado no dedão do pé. Talvez todos esses.

E no instante em que ela pensava isso, uma das moradoras de rua abriu um enorme sorriso para ela. 

– A moça não teria uma moedinha pra ajudar? – falou, ainda com um sorriso malicioso e perverso, balançando uma criança no colo. 

– Hoje não. – ela puxou a amiga – Chega, essa rua não dá mais. Vamos pegar o caminho mais longo.

Mas enquanto ela virava a esquina, escutou um dos mendigos cantarolar, sem abrir os lábios, a melodia lenta e triste de “Terezinha de Jesus”.




Ela correu, tentou aproveitar o dia ensolarado, mas continuava atormentada. O sonho, a música e a frequente imagem do cadáver da aula de anatomia continuavam povoando sua mente. Vanessa não conseguia olhar o celular sem imaginar que uma cabeça pequena ia aparecer refletida na tela, atrás dos ombros dela, em algum momento. Não conseguia passar na frente de uma vitrine sem achar que viu a silhueta de uma moradora de rua sentada na calçada – e em uma das vezes, realmente havia uma. Mas era uma mulher negra rechonchuda, em nada parecida com Terezinha. De qualquer maneira, isso estava acabando com os nervos dela.

Quando chegou em casa e se viu sozinha, o desespero tomou conta dela. Não sabia o que fazer para se livrar daquela sensação de estar sendo observada. 

Observada e julgada. 

Decidiu que iria tomar um banho, ouvir músicas alegres e ver algum filme de comédia.  Isso iria espantar o mal estar. Ligou sua lista de músicas no celular e deixou tocando Spice Girls enquanto ela pegava as coisas para o banho. 

Estava amarrando os cabelos num rabo de cavalo alto, para não molharem, quando olhou no espelho e deu um grito: tinha visto, claramente, um grande corte do lado esquerdo de seu rosto. Como o corte feito para mostrar as fibras e músculos do cadáver.  Foi tudo em um relance, um milésimo de segundo, e agora ela só conseguia ver sua própria expressão de assombro.

Na mesma hora, a playlist das Spice Girls parou e o silêncio reinou por toda a casa. Ela já estava achando que começaria a tocar “Terezinha de Jesus” em sua playlist, e esse seria o fim do pouco de sanidade mental que ela ainda tinha. Mas o silêncio permaneceu, tão amedrontador quanto a cantiga. 

Vanessa não esperou mais. Pegou a bolsa e as chaves do carro, decidiu que iria para a casa da irmã. Quando chegou ao quarto para pegar o celular, sentiu as pernas amolecerem: o vidro da janela, que de manhã exibia uma tímida mancha, estava agora coberto por várias marcas de mãozinhas miúdas e magras.




Na segunda-feira, uma de suas amigas da faculdade comentou que ela estava com a aparência péssima. Vanessa não tinha dormido quase nada nas duas últimas noites.  Quando conseguia pegar no sono, sonhava com flashs: Terezinha deitada na calçada, onde dormia. Terezinha vomitando. Terezinha cuspindo sangue. O sorriso da moradora de rua que havia lhe pedido uma moeda, que de repente se transformava no sorriso cheio de sangue de Terezinha. 

– Quanto sangue derramado… – essa frase havia sido cantarolada com o mesmo ritmo e melodia de “Terezinha de Jesus”.

– Quem está cantando isso? – gritou, quase chorando.

– Calma! É uma música da escolinha do meu filho. – disse uma mulher, espantada, que estava sentada ao lado – Ele fica cantando direto, acabou ficando na minha cabeça.

– Mas é a “Terezinha de Jesus”? – ela sentia sua mente aos frangalhos.

– Sim. A cantiga é maior do que eu conhecia, esse é um outro trecho. “Tanto sangue derramado dentro do meu coração”. Procura no Google a letra inteira, é muito legal.

– Chega. Pra mim chega. 

Vanessa saiu correndo pelo corredor da faculdade, mesmo corredor que ela havia visto em seu sonho. Sua amiga a seguiu, preocupada. Perguntou o que estava acontecendo, e Vanessa contou tudo.

– Você só está impressionada. – disse a amiga – A primeira aula de anatomia mexe mesmo com a gente. Relaxa, com o tempo você se acostuma.

– Não é isso! Eu tenho certeza que o espírito dessa mulher está me atormentando. Eu só quero saber o motivo e me livrar disso!

A colega sugeriu que ela se acalmasse. Conhecia alguns alunos veteranos que podiam conseguir informações sobre a origem do corpo, se pagassem alguma propina.

No fim do dia, elas se encontraram com um aluno que disse ter conseguido dados. 

– É uma moradora de rua que chegou no hospital da faculdade desmaiada, já faz um ano.  Os outros mendigos disseram que ela gritava de dor na barriga e delirava. A suspeita foi de envenenamento por algum derivado de arsênico. – ele folheava uns papéis – O veneno necrosou a mucosa gástrica. Imaginem a dor que essa mulher deve ter sentido.

– Ela tinha o estômago escuro, mesmo. – Vanessa disse, sentindo um arrepio – Ela tomou veneno? Foi suicídio?

– Isso não sei dizer. Só sei que não encontraram documentos nem nenhuma informação ou familiares, então o corpo foi para o IML e de lá, para a faculdade. 

O rapaz recebeu a quantia em dinheiro combinada e foi embora.

– Já sei! O espírito dela deve estar atormentado. Precisa de uma oração ou algo assim. 

– Acho que não é isso, Vanessa. Tem uma missa especial para os corpos que chegam aqui na faculdade, sabia? Eles fazem uma cerimônia em homenagem aos espíritos dos corpos do laboratório de anatomia. 

– Sério? – Vanessa apertou as têmporas, pensando – Então será que ela está me perseguindo porque se sentiu desrespeitada por estudarmos o corpo dela?

– Se fosse assim, não teria um médico, dentista ou cientista nesse país que não estivesse sendo assombrado. 

Vanessa bufou, andando nervosamente da esquerda para a direita, enquanto a amiga a observava, preocupada.

– Então, só pode ser o fato de ela não ter sido enterrada. – disse Vanessa – O espírito dela não vai descansar enquanto não receber todos os ritos fúnebres e for enterrado no cemitério. Ela está atormentada por ficar sendo cortada e usada na aula de anatomia…

A amiga olhava pra ela com pena.

– Vanessa, olha o que você está falando. O que você pensa em fazer? Roubar o cadáver, invadir um cemitério, cavar uma cova com as próprias mãos e jogar a mulher lá dentro?

De repente, um gosto metálico insuportável invadiu a boca de Vanessa e ela vomitou ali mesmo. Um líquido branco empoçava na sua frente.

– Arsênico dá gosto de metal na boca, não dá?

– Pelo amor de Deus, Vanessa! Vamos pra enfermaria agora! Isso aí é estresse, você está muito impressionada com essa história.

Ela recusou a ajuda da amiga e insistiu que queria ir para casa. Precisava fazer alguns telefonemas.




Tudo estaria acabado na noite de sexta-feira. Ela gastou mais de 50 mil reais para subornar pessoas suficientes para fazer o que pretendia: seguranças da faculdade, alguns monitores do laboratório de anatomia e funcionários do cemitério da Necrópole. Pagou apenas para que fingissem não ver nada. E, por ser um cemitério grande, ela conseguiria enterrar Terezinha em uma das tumbas antigas, que já estavam vazias. 

Ela não conseguia mais dormir sozinha em casa. Via vultos por todos os lados, ouvia a maldita música e vomitava. Sonhava com o cadáver sem parar, vendo a pele ressequida e cortada, os músculos à mostra, o estômago preto, a etiqueta com o nome. Mas aquilo ia acabar na sexta, depois da última aula de anatomia. 

Não seria um serviço fácil, porém. Só de imaginar ter que carregar o cadáver nos braços lhe dava vertigem. Sonhou que estava fazendo isso, que estava levando Terezinha para ser enterrada, a morta enrolada em um lençol branco. Não era difícil de carregar, ela era pequena. 

Mas, em cada sonho, nunca conseguia completar seu intento: quando começava a cavar a cova, de repente o embrulho desaparecia. Em outra vez, a cova voltava a se encher de terra e ela precisava recomeçar o esforço. Em uma outra, o lençol branco de repente se tingia com uma mancha vermelha, como se o cadáver tivesse acabado de vomitar sangue. Sempre acordava desses sonhos aos berros. O terror tomava conta dela, e ela estava com medo de acabar internada em um hospital de loucos. Começou a rir convulsivamente.

Que ironia. A doutora que queria ser psiquiatra, internada com camisa de força e tudo.  Não, isso não ia acontecer. O cadáver seria enterrado na sexta. Tudo ficaria bem.

Na noite de quinta para sexta, Vanessa se preparava e repassava tudo o que faria no dia seguinte. Era a primeira noite que dormiria sozinha desde quando sonhou com a língua morta dentro de sua boca. Mas precisava ficar em casa, pois ninguém da sua família poderia saber ou ser cúmplice do seu plano. Não entenderiam, ninguém a apoiaria. Já tinha os lençóis, cordas, pá…

De repente, um desespero a tomou. E se ela fizesse questão de um caixão de madeira?  Não tinha pensado nisso. Não iria conseguir, sozinha, colocar um caixão com um corpo dentro de uma cova. Iria precisar subornar mais pessoas para ajudar, talvez uns dois seguranças do cemitério. E não sabia se ia conseguir comprar um caixão amanhã, a tempo de colocar o plano em prática.

Começou a ficar muito preocupada com isso. Decidiu tomar chá quente com bastante açúcar, para acalmar. Funcionou. Pela primeira vez naquela semana, não se sentia julgada ou observada.

É um bom sinal, pensou. 

Adormeceu. Seu sonho foi tranquilo: estava passeando pelo parque onde costumava correr. Era um dia bonito, mas ela estava muito incomodada se lembrando dos cachorros de rua e do gato da vizinha. Resolveu voltar pra casa e dar um jeito nesses bichos. Eles podiam transmitir doenças.

Pegou a rua onde os sem-teto ficavam. Eles não olhavam mais pra ela. Ninguém cantava a música. Tudo estava em paz.

– Você tem uma moeda, moça? 

E, de repente, era ela. Terezinha estava na calçada, ao lado de um cachorro preto muito magro. Não tinha a pele ressecada, não tinha cortes no rosto, não tinha músculos à mostra, não tinha a barriga aberta nem os órgãos amarelados aparecendo, nem o estômago enegrecido. Mas era pequena. Uma mulher frágil, de cabelo vermelho tingido e sorriso leve. Um rosto marcado apenas pelas rugas precoces de alguém que não teve uma vida muito fácil. 

– Não tenho, desculpa. – Vanessa disse, e continuou andando.

– A moça não entendeu nada, né? – a voz aguda de Terezinha ressoou atrás dela – Tem tanto estudo, mas não entende nada.

Vanessa parou. Terezinha começou a andar devagar, aproximando-se dela. 

Quando ela se virou e seus olhos se encontraram, a música começou a ser cantada. E, com ela, muitas imagens vieram.

Vanessa colocando veneno de rato em sobras de comida, em pedaços de carne, em pedaços de pizza. Queria que os cachorros de rua que rasgavam seu saco de lixo morressem. Queria que o gato da vizinha, que também fuçava no lixo, morresse.  Aqueles bichos traziam doença.

Terezinha de Jesus…

Terezinha abriu um saco de lixo que seu cachorro Pretão cheirava. Achou um monte de sobras de comida. Comida boa. Tinha marmita, tinha pizza. Ela e o Pretão comeram bastante, aquela noite. Depois, dor. Pretão morreu. Vômito, sangue. Muita dor. Acabou se contorcendo, caindo no chão, sentindo o asfalto da calçada batendo no seu rosto quando caiu.

De uma queda, foi ao chão…

Alguém chamou a ambulância. Demorou muito. Quando chegou, de dentro dela saíram dois enfermeiros que a colocaram na maca, e um outro que devia ser médico.

Acudiram três cavalheiros…

Não deu tempo. Teve um desmaio.

Agora, ela estava lá. De frente com Vanessa. E sorria. 

– Meu deus… Eu não sabia que você ia comer… 

– Bicho nojento. – murmurou Terezinha, mas a voz era de Vanessa – Tem que acabar com essa raça. 

Da laranja quero um gomo

Do limão quero um pedaço…

– Da morena mais bonita… – disse Terezinha, olhando fixamente pra Vanessa – QUERO UM BEIJO E UM ABRAÇO!

Ela berrou essa última estrofe, seu rosto se tornando demoníaco, e pulou para abraçar Vanessa. 




Quando entraram em sua casa, ela já devia estar morta há uns três dias. Foi encontrada na cama, em uma poça de vômito sanguinolento. Descobriram veneno de rato no armário, ao lado do pote de açúcar. E resto de chá com pó branco em uma xícara. Alguns pensaram em suicídio. Outros, que ela simplesmente confundiu os potes. Vanessa parecia ter alucinado antes de morrer, o que era efeito comum da ingestão de derivados de arsênico: tinha separado corda, lençóis brancos e uma pá. E, ao lado do cadáver, havia um papel com letra tremida onde ela rabiscou seu último desejo: doar seu corpo para o laboratório de anatomia.


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Fernanda Braite é escritora, jornalista e professora de literatura. Formada pela USP, possui mestrado pela PUC-SP, onde estudou os fantasmas na literatura de horror brasileira. Apaixonada por filmes de terror, mora em São Paulo, ama comida japonesa e tem quatro gatos.