O CHEIRO DE COMIDA – THAIS LANCMAN

Coluna | A Resenhista


Todos nós, moradores de apartamento, já nos perguntamos a respeito dos hábitos alimentares do vizinho. De algum vizinho, não sempre os que vivem em frente ou no mesmo andar, pois às vezes os cheiros chegam a cômodos que não a cozinha. E sem que quiséssemos nos questionar, é uma pauta imposta pelos nossos narizes.

O alho frito, com certeza, é o melhor deles. Muito melhor que o meu próprio alho, refogado na frigideira geralmente quando já gostaria de estar comendo. A fome não é o melhor tempero quando você mesma cozinha, e não é a melhor amiga do olfato nessas situações.

Tem também o cheiro de bife, que por incrível que pareça não tem horário certo para vir. Dificilmente é no almoço. E, curiosamente, não parece tão agradável quanto promete. Os cheiros me fazem valorizar o churrasco, pois, se não sou lá muito carnívora, os aromas da carne na churrasqueira (que passei a apreciar nos seis meses em que morei em uma casa) são de outra natureza se comparados aos da carne de todo dia.

Anos atrás, eu tinha um vizinho que tinha uma combinação diária de cheiros exalados: maconha, seguido do que parecia um bom pedaço de carne sobre o fogo. Sempre estranhei a combinação e sua pontualidade: sempre lá pelas dez da manhã preparava o beck e o bife. Em outro apartamento, a divisão era espacial. Maconha que chegava pelo banheiro, charuto através da janela da sala, algo doce, melado, que invadia o quarto. Tudo no meio da tarde.

Não lembro se em algum momento de Edifício Master os cheiros são mencionados pelos moradores do prédio, entrevistados por Coutinho. O diretor questionava-os muito a respeito dos objetos que aquelas pessoas mantinham em suas casas. Mas penso naquela cena registrada pelas câmeras de segurança das vizinhas que levam um bolo de aniversário a uma outra. O cheiro daquele bolo anunciando a chegada delas. E como aquele mesmo cheiro adentrava o apartamento de quem não foi convidado para a festa. Penso também na menina vivendo sozinha compartilhando o cotidiano da criança, cujo rosto ela demorou a ver pela primeira vez. Quais cheiros o menino e sua mãe enviavam inconscientemente à jovem perdida na cidade grande.

O cheiro de alho refogado na frigideira não é o que queremos dividir com os outros, e nem dividimos, pois não temos menos cheiro para nós conforme ele toma o ar, mas dividir no sentido de que outros tomem conhecimento do que fazemos. Não nos escondemos mas não temos nada a dizer sobre o que comemos, e quanto, e quando. A comida é uma parte estranha da nossa intimidade. Pensando assim, não tenho alegria alguma de perceber minha casa repleta de cheiros alheios. É informação demais. Os cheiros são tagarelas.

A única solução possível é a pipoca. Minha crítica ao estilo de vida dos meus vizinhos é que eles não comem tanta pipoca quanto deveriam. Poucas pessoas o fazem. Preparada em poucos minutos, tem cheiro universal e inconfundível. Diariamente, é a minha pausa do fim da tarde, harmoniza muitíssimo bem com a novela das seis. É a mensagem cifrada que envio involuntariamente para os vizinhos, pensando que ela talvez os distraia do que mais eu faço. Sinto que ela me torna mais apresentável, mesmo que eles não percebam isso. É um cartão de visitas que vai do nariz ao inconsciente. As narinas são as verdadeiras janelas da alma.

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Thais Lancman é uma escritora paulistana nascida em 1987. Publicou os livros Palito de fosfeno (2014, Reformatório) e Pessoas promíscuas de águas e pedras (2021, Patuá), além de contos e ensaios em coletâneas no Brasil, Alemanha e Áustria e em revistas impressas e online. É doutoranda em Letras na Universidade Presbiteriana Mackenzie, dá aulas e trabalha como ghost writer