EXERCÍCIOS PARA TECER AS MANHÃS COM JOÃO CABRAL – ADRIANO B. ESPÍNDOLA SANTOS

Coluna | Anseios Crípticos


 

Nessas fases pandêmicas, inventei maneiras para tecer as fibras da manhã; para nascer a cada dia. Para tanto, a tarefa mais humana de todas, atribuo, seria buscar a iluminação, ascender a outras escalas, para me esvaziar das tragédias. E João Cabral me permitiu, com as nossas íntimas conexões, como um amigo generoso, reconhecer os empecilhos e poder encará-los, com as imagens expostas, sobrepostas; sutis e exatas de sua poesia concreta, discordante da mesmice dos homens de bens.

Pode parecer piegas, démodé, arriscar-se pelas subjetividades de uma dita concretude – uma tarefa vã? –, mas não me arranjaria a fuga de percepção que transcende a razão. Sentir a sua poesia é como puxar uma cadeira, num fim de tarde, e olhar para o espaço/tempo. Ora, não um tempo qualquer; um tempo de acontecimentos dramáticos. E a simplicidade, aí aprendi, é o elo palpável com o real, o transitório e o perene. Não há como entender a profusão de sentidos sem essa ideia primal. É como João Cabral ensina, dadivoso, com palavras miúdas, poucas, que exprimem dimensões.

“Tecendo a manhã” é, além de um exercício para a comunhão, um arcabouço para constituir um todo. Ele, o autor, tece a manhã como tece esteiras e nuvens, como tece o social, com a agudeza do que é capaz transpor a superfície. Não seria efêmero dizer que a poesia “Tecendo a manhã” é um conjunto de arquitetura sublime – de beleza sólida –, para delinear a vida em sociedade, tão cara nesses momentos.

Apesar de minha arrelia à convivência, muitas vezes, com os inconvenientes de uma teia amorfa, amálgama de diversos interesses, urge pensar e viver plural – com os meios plausíveis.

E como suportar a experiência forçada do claustro, ainda que para sobreviver? Nesta passagem, lembro-me dos primeiros dias, dos momentos de incertezas aos quais fomos confinados, afastados, indistintamente, de uma hora para outra. Abrigar-se fisicamente também quer dizer arrumar recursos para estar protegido e saudável, mesmo que digladiando com os próprios demônios.

João Cabral – a quem chamo de João Cabral apenas por intimidade; não por qualquer outra coisa – debulha as palavras com lucidez e paixão, agrupando as linhas da manhã, para compor um projeto de totalidade: a vida. Jorra, enfiado por entre as tramas e veias, o sangue que coliga a sensibilidade de quem almeja a liberdade – a liberdade infinita, que só se concebe pela arte. Alguém falou que a liberdade é um termo, ao mesmo tempo, amplo demais e intangível, ou inalcançável. Eu prefiro pensar que a poesia é o inverso.

A arte interessa a quem parte as formas acabadas, anteriormente postas, e reparte os bocados, provocando as sensações – sejam elas quais forem. Vale inteirar-se das nuanças, dos detalhes, do que mais importa. João Cabral não dispensa reparar as miudezas, absolutamente; pô-las, assim, em evidência, para a máxima exaltação. Nada é descartado. Nada é perdido; ou se é lícito perder.

Em “Tecendo a manhã” é compreensível a inquietação proposital. Quem de nós não se vê confuso com a repetição e a insistência, como acontece na poesia de Carlos Drummond de Andrade? A reprodução constante do termo “galo” tem o condão de ligar, a precisão de continuidade, de um sistema que não pode ser menoscabado. A acumulação também tem o sentido de acordar e de investir contra a passividade. Ora, nada é pacífico na inconstância da vida. O movimento está aí, na circulação das águas que calham no eterno desaguar.

É um exercício de resistência e de amor continuar e elucubrar saídas; questionar-se sobre os imperativos latentes ou revelados do poema de João Cabral. Ele não disfarça; não há anonimatos para uma tendência premeditada de pinçar elementos supostamente perdidos, negligenciados pelo todo. Se houver perdição, acontece pela incapacidade de se dar valor à abundância de virtudes. Bastam a paixão, o repúdio ou a subversão para alcançar a plenitude.

Na era da reificação, do apego que se outorga aos bens que têm utilidade curta e comprometida, pode-se encontrar alguma virtude na inspiração ou na imaginação. Não vale mais o “antigo” normal – a normalidade plastificada – ao qual fomos inseridos, armazenados, computadorizados. A obediência e o pragmatismo, ou a mera resignação, não ajudam à premente revolução.

Assim, pulsar com a poesia de João Cabral nessas circunstâncias é como mirar horizontes – vários – reconhecíveis ou fatíveis. Como exercício de supervivência, não cabe mais esquecer-se dos agrados das miudezas, das delicadezas, que se apresentam como aportes para a dita aclaração.

Além disso, a coesão, expressa no texto de João Cabral, marca a ínsita necessidade do encadeamento global, ou, para ser mais direto, da cadência das mãos dadas, dos cantos continuados no chamamento das aves que douram a manhã.

João Cabral maneia a irrefreável volição de sentir. E se entende, subjacente, não por acaso, que o sentido – alcançando uma assimilação de personalidade, como lembrou o filósofo Charles Taylor (apud STANCIOLLI, on-line) – está intimamente ligado à alteridade, a perceber-se inteiro apenas e mediante a compreensão de ser com o outro.

Você se lembra dos artistas – esses seres da divina promiscuidade – que cantaram, e cantam, e tocam instrumentos, nas sacadas dos prédios, para exercitar a vida? Nada, sobretudo agora, é mais caro que os olhares diretivos; que os apertos de mão e os abraços desperdiçados pelo tempo da pandemia. Nada, absolutamente nada, é mais caro do que a vida em compartida. Nada é mais caro – e é custoso perder – que os corações encontrados no espelho da humanidade.

João Cabral enlaça no papel a sintaxe e a sonoridade da natureza, que é diversa, que contempla a manhã, o manto que nos cobre e nos protege contra as perplexidades e a condição de viver atido – pela beleza que perfaz – ao cântico da existência. O mistério de corpos imbricados pelo desejo de constituírem-se progressivamente intensos. É, portanto, como enaltece Davi Arrigucci Jr., “de tal modo que sugerem o ir-e-vir de uma lançadeira tecendo, alinhavando os fios do tema entre todos os termos, casados entre si pelas repetições vocabulares, pelos sons semelhantes e os enlaces sintáticos”.

Para concluir, nos sóis da minha intimidade, relato que, nos primeiros dias do anúncio e da tomada avassaladora da pandemia, fiz como exatamente agia quando criança: para me guardar no meu refúgio, encolhi-me no amplexo da rede, busquei meus patuás e os dispus na mesa de cabeceira, ao lado, para não dispersar. E a imagem concreta, logo na primeira pisada, foi a vastidão que me permite o céu – neste momento, o céu de possibilidades da poesia de João Cabral. A poesia voou comigo, como a me pegar pela mão e me convidar a um passeio, sem hora nem perspectivas de chegada e de partida. Aí, quis me alhear da insuportável grosseria da dor e, por encanto, me vi imerso nessa via de tantas vias, de tantas entradas e saídas, conforme me consente a liberdade.

Felizmente, persisto em exercícios ou orações, tecendo as manhãs, contemplando a peregrinação dos pássaros e das formigas, para, hoje, desfrutar da promessa do amanhã.

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Referências:

ANDRADE, Carlos Drummond de. No meio do caminho. Disponível aqui. Acesso em: 24.04.2021

ARRIGUCCI JR., Davi. Criação literária como trabalho consciente de construção. Disponível aqui. Acesso em: 26.04.2021.

COELHO, Cláudia. Tecendo quadros, poemas e utopias. Revista Crioula – nº 9 – maio de 2011

FREIRE, Marcelino. Tecendo a Manhã. Disponível aqui. Acesso em: 26.04.2021

GONÇALVES, Adelto. Em busca da transcendência na poesia de João Cabral. Disponível aqui. Acesso em 26.04.2021

RISSO, Mercedes Sanfelice. O Tecido Sintático “Tecendo A Manhã”. Alfa, São Paulo 32:95-100,1988.

STANCIOLI, Brunello. Sobre os Direitos da Personalidade no Novo Código Civil Brasileiro. Disponível aqui. Acesso em 25.04.2021.

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Adriano B. Espíndola Santos (Instagram | Facebook) é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; e em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, ambos pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. Membro do Coletivo de Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.