MULHERES – ADRIANO B. ESPÍNDOLA SANTOS

Coluna | Anseios Crípticos


Eu quis saber da mulher e da verve nordestina. E, para isso, felizmente preenchi alguns espaços ociosos. Conheci, por exemplo, Rachel de Queiroz, cearense, da malha do povo do chão, dos recônditos dessa terra árida; ainda na pequenez de minha alma intranquila.

Vi e ouvi muito, absorto com a vastidão insculpida nas pedras imortais de Quixadá, no oco da Serra Azul, ou com a bem-aventurança das mulheres castas dos claustros lá, escondidas de seus próprios mistérios.

Pari a minha mãe, primeiro. Depois a minha avó Lulu. Depois as minhas tias Lúcia e Denise; a Aline, que trabalhava na minha casa, para, só assim, desvendar as amarrações de minhas entranhas.

É da mulher a raiz da existência, ora!

E por que não havia mulheres nordestinas para se ler há oitenta, cem anos? Indignei-me, comprimi-me inteiro de raiva. Queria conhecer Maria Bonita; como numa certa reportagem de Octacílio Macêdo com Lampião, para o Jornal “O Ceará”, na edição de março de 1926. Sobre Maria Bonita: nada.

Aturdido, procurei informações – as mínimas que fossem – sobre o passado de minha avó Lulu, que pariu dezoito filhos – tendo sobrevivido somente quatorze; entre os quais o meu amado pai, o penúltimo. O que soube, entredentes, em colóquios desencontrados e esparsos, era que meus avós por parte de pai teriam vindo, a trabalho, do Rio Grande do Norte para o Ceará, para Aracoiaba.

Meu pai tentava resgatar algum sentido, mas dizia que, mesmo em vida, vó parece que tinha padecido maus bocados, por isso largara de mão o passado. Mais nada lhe sobrevinha. E eu me inquietava com a sua inquietação, com o seu desânimo manifesto, latejante, e com a dor.

Isso sim: todos declaravam a alma exuberante de dona Lulu. E eu a apreciei tão somente até os meus sete anos. Muito pouco. Quase nada, todavia o bastante para nunca mais a esquecer.

Lembrei-me, por acaso, e não podia deixar de falar, das vezes em que pedia dinheiro à vovó para comprar pipoca e ela tirava uns trocados de dentro da blusa – decerto acomodado no sutiã, no seio. Também, dos momentos em que, repousando em seu colo, brincava calorosamente com as suas “pelancas” dos braços, gostando do cheiro de rosa que exalava; o cheiro de talco, que ainda me faz reviver todos os amores de minha ínfima idade.

Ah, logicamente meu coração não estava saciado. Por que cercearam os direitos das mulheres cearenses, nordestinas, de antes de eu nascer? Eu tinha de me entender comigo, e, para isso, deveria entrar no útero dessas mulheres de minha vida; de outras vidas. Dos homens já havia subsídios demais; dispensáveis.  

De sorte que, nas minhas buscas juvenis, encontrei um livro sem páginas, avulso, no meio do nada, no quarto de minha tia. Antes de perguntar-lhe a origem, fiquei impactado, porque o título era “A Divorciada”. E como pode uma mulher de outros séculos escrever sobre o divórcio, se o tema era contra a lei? Folheei mais um pouco e me deparei com o ano da obra: 1902. Ao menos, era uma relíquia. Tia Denise veio da cozinha, meio atrapalhada, passando as mãos no avental e no rosto, pois estava suada, cozinhando, e me interrogou sobre a “arrumação”1.

No ato, joguei o livro numa pilha de outros que estavam abandonados no chão, fora da estante. “Ah, isso não cabe aí, meu filho. Deixei no chão para ver o que fazer com essas coisas de mamãe. Quem sabe até doar – se houver quem goste de velharia – ou rebolar no mato”2. E, com essa fala de desdém, catei o livro de novo e disse que eu estava precisando; que deveria estudar para uma prova da faculdade. Nada disso. Eu queria me aventurar nessas páginas. Meio desconfiada, minha tia entendeu. “Pois leve, meu filho. Mas, por favor, não mexa mais em nada. Isso já está uma bagunça, com tanta tralha espalhada”.

Importante dizer à leitora que minha avó Lulu era considerada culta, principalmente por arranjar tempo para ler. Não o necessário, mas o suficiente para a sua mantença intelectual e espiritual. E, inclusive, pelo que se sabe, vó despachou o meu avô Luís por uma arenga do que era ou não era “coisa para mulher”. Daí se tira a sua fibra.

Nem esperei o almoço. Inventei para a minha tia que estava atrasado; que havia marcado com uns colegas; que devia me encontrar com eles antes da prova, para estudarmos.

A verdade é que parti sem mais nem menos. A intenção era de ficar folheando o que ainda restava do livro nalguma praça. Contudo, como não conhecia bem o bairro, acabei indo mesmo para a faculdade – lá tem umas enormes mangueiras, nas quais o meu pessoal se agasalha.

Foi uma tarde saudável. Comprometi-me, ali, a conhecer a grande Francisca Clotilde, uma mulher à frente de seu tempo; feminista, que lutou para a emancipação da mulher e pela abolição da escravatura, escrevendo como podia, em condições de mãe e professora – segundo consta nos livros, foi a primeira professora a lecionar na Escola Normal do Estado do Ceará, em 1882!

Francisca Clotilde rebelou-se contra a sociedade conservadora da época; precisava viver. E viveu, sendo casada duas vezes, com filhos dos dois parceiros. Era legitimamente – por certo, orgulhosa – conhecida como transgressora. Agora, é possível captar a natureza de “A Divorciada”, seu romance de 1902.

Na aula seguinte de literatura clássica conversei com a professora Rita Maria sobre o livro que, para mim, era um achado. Ela arregalou os olhos e pediu para vê-lo, tocá-lo; “Menino do céu, isso é uma raridade!”. Aí confirmei que carregava comigo a glória de uma esfinge.

Anos se passaram e eu nunca me esqueci de Francisca Clotilde. Há uma conexão incrível com a história de minha avó: professoras, contemporâneas; mulheres aguerridas; mães indômitas; conterrâneas por querência e por destino.  

Foram, como tantas, escanteadas pelo corretor do tempo dos homens – sempre os homens metidos para boicotar as sinas; bichos cobiçosos pela degradação.

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1 O termo “arrumação”, pelo menos no Ceará, quer dizer chafurdo ou bagunça.
2 Também, do dicionário popular Cearês, a expressão significa jogar, atirar fora.

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Adriano B. Espíndola Santos (Instagram | Facebook) é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; e em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, ambos pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. Membro do Coletivo de Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

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Referências

Francisca Clotilde. Disponível aqui. Acesso em: 28.10.2021.
Francisca Clotilde. Disponível aqui. Acesso em: 29.10.2021.
Francisca Clotilde: transgressão através da palavra. Disponível aqui. Acesso em: 27.10.2021.  
Francisca Clotilde: Entre a permanência e a ruptura. Disponível aqui. Acesso em: 29.10.2021.
Lampião revelou não querer abandonar o cangaço. Disponível aqui. Acesso em: 29.10.2021.