DESEJO – VALENTINA BASCUR MOLINA

Coluna das Ausências


 

Escrever no meio do caos cotidiano está sendo cada vez mais desafiador. Escrever, ainda, no meio do turbilhão de emoções… é de lascar.

Apaixonei, e não sei mais escrever, só sei viver. Atravesso breves crises criativas, evitando escrever sobre, mas sem sucesso.

A experiência nos transborda e o que nos resta é

                                                                                                       papel e lápis.

Pode o desejo sobreviver ao trauma? Pode o desejo ter força tamanha que nos joga, uma e outra vez para o caos delicioso que é amar, se perder, cair e não ter mais chão?

Estou submersa na manufatura da vida, no fazer do dia a dia. Passar o café, torrar o pão, colocar manteiga. Intelecto e razão não me são mais úteis, pois, parece que o cotidiano não foi pautado assim. Pouco importa se serei doutora, ou se li Foucault.  

Há algo na experiência do desejo que é impossível de ser narrada. Não consigo, nem quero tentar contorná-la com palavras, pois, pertence ao corpo.

Não pertence ao entendimento.

Las palabras no pueden decir la verdad
la verdad no es decible
la verdad no es lenguaje hablado
la verdad no es un dicho
la verdad no es un relato
en el diván del psicoanalista
o en las páginas de un libro.

Cristina Peri Rossi, em “Estrategias del Deseo” (2004).

Cristina Peri Rossi (1941) é uma escritora uruguaia, exilada na Espanha desde a década de setenta, e a mais recente ganhadora do Prêmio Cervantes pelas suas contribuições literárias em língua espanhola. Enquanto pensava em como apresenta-la, lembrava das vezes que me encontrei com a sua poesia.

Conheci Cristina Peri Rossi há uns bons anos, quando era uma estudante de graduação no interior quente do Paraná. Morava com uma amiga uruguaia que trabalhava exaustivamente nas traduções dos seus poemas. Entre cafezinhos, gatos e calores eternos comentávamos os escritos, ríamos das possibilidades infinitas das palavras, saboreávamos cada uma, testando interpretações.

Queria tanto falar sobre o arrebatamento que é o amar, enquanto manufatura diária, enquanto verbo ou ação. Queria tanto falar sobre as paixões e afetos que sacodem as nossas vidas, e vejo que com Cristina não poderia ter sido melhor. Vejo, com olhos sinceros que, junto do amor, está atravessada a morte. Junto do começo está anunciado o fim.  É por isso que chamo de arrebatamento. É por isso que, no final das contas, continuo viva. Muito viva.

En el amor está inscrito el desamor
como las placas en el caparazón
de los galápagos.
Como los años
en los surcos del tronco de los árboles.

En el amor está inscrito el desamor
como el ocre en el ocre
como las huellas de una pintura
en la pintura
como el texto
en el palimpsesto.

Ninguna inocencia
en mi mirada enamorada
sin querer
descubro
que los ojos que amo
serán un día los ojos por los que dejaré de amarte
y la risa que hoy festejo con alegría
será la que me alejará de vos.
La caricia que anhelo
mañana me dejará indiferente
y las noches de deleitoso placer
serán las pesadillas al despertar.

En el amor está inscrito el desamor
como en la vida está inscrita la muerte.

“Derrota”, Cristina Peri Rossi (2004).

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Valentina Bascur Molina é pesquisadora, poeta, escritora e tradutora. Mestre em Estudos Feministas pela UFBA. Nasceu e cresceu em Temuco, território de Wallmapu, Chile. Reside no Brasil há nove anos. Autora de “Kümedungun: trajetórias de vida e a escrita de si de mulheres poetas Mapuche”, publicado pela Editora Urutau, selo Margem da Palavra, em 2021. Integra o Núcleo Feminista de Dramaturgia, espaço em que desenvolve projetos de escrita e pesquisa coletiva com outras autoras, sob orientação de Maria Giulia Pinheiro.