VADIAR – VALENTINA BASCUR MOLINA

Coluna das Ausências


Vadiar. Verbo. Segundo a Oxford Languages: “andar à toa, passear de um lado para outro. Vaguear. Viver na ociosidade, não trabalhar”.

Recentemente finalizei a leitura do livro Flâneuse, da escritora estadunidense Lauren Elkin, publicado no Brasil em 2022 pela Editora Fósforo. Fiquei pensando em quais palavras poderiam traduzir esta palavra para o português. Pensei em vaguear, vadiar, vagabundear e até em bater perna.  

Vadia e vagabunda são palavras que me soam familiares, é um dos primeiros xingamentos atribuídos às mulheres quando elas não fazem o que os homens esperam. 

Mas, o quê de especial teria uma mulher vagueando pelas cidades da Europa? É um dos elementos que despertou a minha curiosidade na hora de procurar saber mais sobre o livro. A minha surpresa foi maior quando, durante a leitura, fui percebendo que várias histórias se entrecruzam. Fofocas sobre a vida da autora, com outras fofocas sobre as mulheres que andavam à toa pelas ruas de Paris, Londres, Veneza. 

Um livro que no final das contas parece mais o resultado de uma pesquisa interdisciplinar que combina geografia feminista, com literatura e um tiquinho de relato pessoal e autobiográfico.  Simpatizei com Lauren e com todas as mulheres que aparecem no livro: Virginia Woolf, Agnes Barda, Sophie Calle, Martha Gellhorn (quem além de ser jornalista de guerra, sobreviveu à sombra do Heminway. Affe!), entre muitas outras.

                                                                                                        

Diante da ausência de um substantivo feminino para a palavra Flâneur, inventaram Flâneuse, que nas palavras de Elkin “vem do francês, substantivo. Forma feminina de flâneur, uma ociosa, uma observadora errante, normalmente encontrada em cidades. Essa é uma definição imaginária. Os dicionários franceses, em sua maioria, nem trazem o vocábulo”.       

O espaço público ainda é hostil com nós, mulheres. Ou com qualquer outro corpo que acaba sendo jogado nas sombras da cidade. Basta olhar para o nosso redor, observar o nosso próprio corpo na hora de andar pela rua, dependendo do horário, lugar, iluminação etc. 

Me pergunto, honestamente, se o prazer do ócio nos é permitido? Quem possui as condições para dedicar tempo apenas para andar pelas ruas? Tento trazer a questão levantada por Elkin para o nosso contexto latino-americano e percebo que as mulheres sempre ocuparam os espaços públicos. Não necessariamente vagueando, mas sim fazendo parte da imensa força de trabalho produtivo e reprodutivo. Este último, realizado nos espaços domésticos. 

No ano 2015 passei um período curto de tempo em La Paz, Bolívia, entrevistando mulheres para o meu Trabalho de Conclusão de Curso sobre o coletivo feminista Mujeres Creando. Em algum ponto elas sinalizaram que sempre estiveram nas ruas, protestando ou trabalhando. Grande parte da força de trabalho produtiva da Bolívia pertence ao mercado informal e quem integra maioritariamente este espaço são as mulheres. 

Como Mujeres Creando se auto denomina um coletivo feminista anarquista, corri atrás das referências históricas do anarquismo na Bolívia e me deparei com um relato incrível sobre a Federación Obrera Femenina (FOF), descrito no livro “Los Artesanos Libertarios y la Ética del Trabajo”, escrito em 1988 pela socióloga boliviana Silvia Rivera Cusicanqui, uma intelectual e militante lúcida, terna e sagaz que continua viva inspirando novas gerações de pesquisadoras que transitam pela história, a sociologia e as artes, assim como eu. 

A FOF existiu na Bolívia entre os anos 1929 até 1964, e estava composto por uma série de grêmios e coletivos de artesãs, cozinheiras, e outros ofícios realizados por mulheres que se organizavam para reivindicar direitos mínimos como jornadas de trabalho reduzidas, tempos de descanso, criação de creches e direito ao divórcio.

A história dos movimentos populares na Bolívia é apaixonante, porque, dependendo das leituras (principalmente as não oficiais), nos oferecem uma visão atrativa sobre as mulheres ocupando as cidades tanto em razão da sobrevivência como reivindicando direitos. 

Nesse sentido, volto para o questionamento inicial, e me pergunto quais as condições que permitiriam que as vadias latino-americanas vagueiem livremente pelas ruas, sem culpas e quem sabe, em segurança? 

Uma resposta simples seria: Basta se autorizar. Uma mais demorada seria, talvez, que as condições permitam ter tempo hábil para dedicá-lo a passear, e ainda mais, sem culpas nem cobranças. Quem sabe, com uma dose de coragem e outra de direitos garantidos, consigamos.

____________________
Valentina Bascur Molina é pesquisadora, poeta, escritora e tradutora. Mestre em Estudos Feministas pela UFBA. Nasceu e cresceu em Temuco, território de Wallmapu, Chile. Reside no Brasil há nove anos. Autora de “Kümedungun: trajetórias de vida e a escrita de si de mulheres poetas Mapuche”, publicado pela Editora Urutau, selo Margem da Palavra, em 2021. Integra o Núcleo Feminista de Dramaturgia, espaço em que desenvolve projetos de escrita e pesquisa coletiva com outras autoras, sob orientação de Maria Giulia Pinheiro.

(Imagens: Ruth Orkin, Federación obrera femenina)