NOTAS SOBRE UMA ESCOLIOSE HERMÉTICA

coluna palavra : alucinógeno

por fábio pessanha

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este texto é um início. uma coluna. vertebral. mas este texto não é um sustentáculo. nele não se escora a massa muscular do que aqui se dirá. tampouco será a pele verbal das palavras. elas – as palavras – teimam por mais substantivos. por mais pronomes que advérbios.
                                                               este texto é uma fala. uma sombra. um silêncio. a vértebra que principia o arranjo rudimentar do que aqui se erige e se encaixa no lugar reservado ao excesso.

poesia.

nada mais excessivo que um poema. nada mais inútil. um inutensílio. quando a gente volta aos antepassados – sim somos deuses – encontramos hermes. o deus. o vizinho. o encruzilhado. dele vem a hermenêutica. coisa que aqui se arriscará. e muito. dele vem o meio do caminho que é transe. é trânsito. é rua. dele vem o lugar que a gente tenta nunca alcançar. mas a gente insiste nessa vingança. e muito. porque somos despachos. largados.

                                                              estamos no meio do caminho entre o abuso e o uso disso que a gente aprende a pegar nas palavras. mas a única coisa que se pega (se é que se pega alguma coisa) é a afonia do grito nos pulmões.

                                      essa coluna é uma escoliose verbal. das parcerias que aqui se faz. porque somos sempre parceiros. até quando sozinhos. nascem estilhaços.

a fala
é sempre sozinha.
um contrassenso.
um diálogo.
uma unidade de dois.
ou mais.
sempre mais.

há muitas falas que compõem o silêncio que a gente é.              aqui se fala de poesia. que são muitas. que é uma encruzilhada. que vem de hermes. o vizinho do apartamento de baixo. o deus. hermes é vizinho e deus. ao mesmo tempo. é também quem ainda não nasceu. quem passa na rua.              exu.              as ruas entroncadas levam ao encontro dessas vidas. dessas mortes em cada verso. em cada linha. dessas mortes em cada espaço. cada voz traçada na geografia de gargantas. porque aqui se fala de poesia. que é uma coisa corporal. que é uma coisa animal.

quando hermes se misturou com a ordem dos quelônios
quando o vazio do casco o conduziu para o vazio da gruta
[onde acabara de nascer]
quando o casco continha – desde sempre – a celebração musical da lira
seu silêncio era tão alto que velava o som
porque qualquer som desde antes do silêncio já era tudo o que poderia ser
“também uma tartaruga, se descobrir, ele mesmo,
também tripas de ovelha, se descobrir, ele mesmo,
também couro de vaca, se descobrir, ele mesmo,
também talas de cálamo, de que são feitos os braços da lira.”

hermes
o mensageiro
o meio do caminho para a poesia que aqui se diz
hermes
a ocupação sonora do silêncio
hermes
o eixo da coluna que acaba de nascer
que continuará nascendo a cada texto linha palavra verso
hermes
uma escoliose verbal
uma vingança tramada contra o arquétipo do mito

de nada adianta travar a voz pela rouquidão imediata do berro. de nada adianta a luta mediada pelo terrorismo do grito. a fala é múltipla desde antes. são várias no enunciado fálico da boca. e diz. aqui se pretende o gesto. a escrita falha da certeza. porque sobre certeza a única certeza que se tem é que nada se sabe ao certo. e tenho dito. aqui se fala [de] poesia.

obs.: ensaio/texto/coisa escrito a partir da leitura do poema “Da alegria”, de alberto pucheu, publicado no livro para que poetas em tempos de terrorismos?, em 2017, editado pela azougue. pucheu é poeta. é professor adjunto do departamento e do programa de ciência da literatura, da faculdade de letras da ufrj.