SOCIEDADE EPICUREIA: A CASA DO CAPIROTO

COLUNA UIVOS

POR ROMULO NARDUCCI

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– Tenho uma casa aqui na entrada da cidade. Entrando, à direita, defronte do cemitério – disse satã ao jovem Macário ao chegar a São Paulo.

Esse trecho que faz parte da obra Macário, do escritor e poeta Álvares de Azevedo, é uma referência à casa conhecida como Chácara dos Ingleses, que ficava na Rua da Glória (hoje Praça Almeida Júnior), que era localizada em frente a um cemitério de escravos e indigentes, onde o autor teria residido junto a Bernardo Guimarães e Aureliano Lessa, outros dois grandes nomes da literatura brasileira, quando ainda jovens estudantes de direito.

A faculdade de Direito que esses três jovens endiabrados estudaram ficava na capital de São Paulo, instalada no desativado Convento de São Francisco, nos meados do século XIX. Outros jovens de vários estados do Brasil ficavam alojados em uma república de estudantes, longe dos olhares de suas famílias, possibilitando uma vida de total desregramento.

A chegada desses jovens causou certo rebuliço na pacata São Paulo da época, escandalizando a capital cuja população não ultrapassava os seus quinze mil habitantes e um novo modo de vida na capital paulistana começou a ganhar corpo.

Segundo o historiador Richard Morse esse modus vivendi acabou por influenciar a moda, os vestuários, vitalizando a região com novos hábitos como a boemia e criando a necessidade do surgimento de tavernas e livrarias. Mas não foram somente esses hábitos boêmios e intelectuais a olhos vistos que os forasteiros insurgiram. Bebedeiras, novas maneiras de flertar e interagir entre eles, e muitas orgias fizeram-se patentes na nova rotina da capital.

Reza a lenda que no ano de 1849 os três estudantes da faculdade de São Francisco, residentes da Chácara dos Ingleses, fundaram a misteriosa Sociedade Epicureia. Inspirados pelo romantismo do poeta inglês Lord Byron e pela filosofia de Epicuro – que era atingir a felicidade, estado caracterizado pela aponia, a ausência de dor (física) e ataraxia ou imperturbabilidade da alma – os três jovens faziam reuniões, saraus e cultos secretos que despertavam a curiosidade e o medo de todos que passavam pela Rua da Glória à noite.

Bernardo Guimarães era o principal líder e animador da malfadada Casa de Satã. Couto de Magalhães conta que “Bernardo, Azevedo e (Aureliano) Lessa dispunham de tudo para o cerimonial da orgia. Tapetes, indumentária, caveiras, ossos humanos, trípodes, caçoilas, armações funerárias etc. Na Epicureia dominavam reflexos de satanismo”. Magalhães ainda narra que Bernardo Guimarães consumia álcool e éter exageradamente:

“Ficou semanas inteiras sepulto, com os comparsas, nos cômodos, bebendo sem parar. Registraram-se cenas indecorosas, impossíveis de serem narradas. E houve desregramentos piores, de horrorizar. As sessões terminavam quando não havia mais bebidas”.

Relatos afirmam que gatos pretos, sapos, corujas, morcegos, urubus, cobras e todos os animais que pertencem ao folclore do terror eram soltos dentro da casa a fim de consolidar um ritual tipicamente byroniano. Eram declamados poemas e o vinho era servido em crânios furtados do cemitério dos escravos. Brindavam a Baco, Epicuro e Sileno. Sessões da Divina Comédia de Dante Alighieri eram encenadas, outros estudantes anônimos corriam pela casa imitando animais, Bernardo Guimarães cantava canções macabras e Álvares de Azevedo lia contos de terror. Sem entender nada, do lado de fora, os escravos dos estudantes ficavam estarrecidos.

Outro registro importante sobre a mítica Sociedade Epicureia – feito por Raimundo Menezes, na edição de 14/06/1946 do Estado de São Paulo – relata que na casa de frente para o cemitério dos escravos um grupo de jovens pintou o diabo e celebrou maluquices, alarmando a pacata cidadezinha de São Paulo.

Na edição comemorativa da morte de Álvares de Azevedo, o jornal A Gazeta, de 25 de Abril de 1952, publicou uma matéria contando um dos episódios da mítica Sociedade Epicureia:


O festim macabro da Consolação

Um grupo de estudantes esquentados pelo álcool penetrou, de madrugada, no cemitério da Consolação e revolveu túmulos e ossos. De repente, houve entre eles quem lançasse a ideia de proclamarem a rainha dos mortos. Bêbados como estavam, fizeram arruaça infernal e, em seguida, foram em busca de Eufrásia, pobre mundana e conhecida como imbecil. Arrombaram a loja Americana e se apoderaram das insígnias maçônicas, com as quais se enfeitaram, e também de um caixão funerário. Vestidos com paramentos da loja maçônica, entraram no lupanar, pegaram Eufrásia, envolveram-na no lençol e meteram-na no ataúde. Saíram à rua, em cortejo, acompanhados pelo famoso padre Bacalhau, suspenso de ordens sacerdotais.

Cantando a “canção dos estudantes” de Goethe, os discípulos de Byron voltaram à necrópole. Pararam no túmulo que tinha a inscrição: “Judite, 20 anos”. Tratava-se da linda judia, filha do hoteleiro israelita do Pátio do Colégio, que morreu de amor exatamente por um dos estudantes do grupo. Este não sabia da morte da jovem, porque estivera fora e regressara naquela noite. Ao dar com a realidade, viu-se atacado de momentânea loucura, escavou a terra e tirou da cova o cadáver da amada, que abraçou e beijou em acesso de desatino. O quadro lúgubre lhe agravou o desequilíbrio, e o estudante berrou, largando o cadáver da namorada:

– Eia, rapazes! É tempo de celebrarmos as bodas da Rainha dos mortos!

Soltou em cima do ataúde, onde haviam fechado a infeliz Eufrásia. Mas recuou. A decaída morreu de pavor. Isso motivou inquérito policial, porém a autoridade não conseguiu descobrir os autores da profanação e mesmo da morte culposa de Eufrásia.

(A Gazeta, 25 de abr., 1952)

 

O literato Antônio Cândido, publicou no Estado de S. Paulo, de 25.01.1954, um artigo sobre a Sociedade Epicureia que dizia de uma forma amena e construtivista: “Ponto de encontro entre a literatura e a vida, onde os jovens procuravam dar realidade às imaginações românticas”.

Muitos estudiosos duvidam da existência da malfadada Sociedade Epicureia, e ainda da possibilidade do poeta Álvares de Azevedo ter feito parte de tamanha insanidade. Bem, falácia ou não, alguns fatores contribuíram para que fosse criado um caráter profano e de má reputação ao redor do mito e seus membros.

Álvares de Azevedo possuía uma saúde frágil e uma personalidade introspectiva manifestada em seus versos. Além disso, o estudioso e dedicado jovem, teve uma importante parcela de sua obra construída durante o período que cursou a Faculdade de Direito. Portanto, é espantoso crer que o poeta promoveria e participaria das farras dionisíacas como as que compõem a reputação da Sociedade Epicureia, tais critérios duvidosos esmaecem no véu dos tempos. Porém, já não se pode dizer o mesmo de Bernardo Guimarães. Ferreira de Resende comenta que:

“Bernardo, portanto, nem estudava nem acordava para ir à aula; e ele teria com toda a certeza perdido o ano se não fosse um velho bedel da Academia, que se chamava Mendonça, o ajudasse ele não se formaria”.

Registros relatam que além de Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães e Aureliano Lessa, os participantes mais ilustres da Sociedade Epicureia eram Andrada e Silva, Bittencourt Sampaio, Castro Alves, Fagundes Varela, João Cardoso de Meneses e Sousa (Barão de Paranapiacaba), M.S. Mafra, Múcio Teixeira, Pires de Almeida, Teodomiro Alves Pereira e Zoroastro Pamplona.

Verdade ou não, o período em que há menções a respeito da Sociedade Epicureia, é considerado como uma fase em nossa literatura brasileira de intensa produção literária feita por um grupo. Isso se deu pelo fato do virtuosismo daqueles jovens poetas e do cenário romântico que circulava a São Paulo daqueles tempos.

 

O HINO DO PRAZER
Bernardo Guimarães

Et ces voix qui passaient, disaient joyeu-sement:
Bonheur! gaîté! délices!
A nous les coupes d’or, remplies d’un vin charmant,
A d’ autres les calices!…
(V. Hugo)

As orgias celebremos:
Evoé! – Peian! – cantemos.
(C. Semedo)

Convivas do prazer, vinde comigo
Ao folgar dos festins; – encham-se as taças,
Afine-se o alaúde.
Salve, ruidosos hinos desenvoltos!
Salve, tinir dos copos!
Festas de amor, alegres algazarras
De ebritroante bródio!
Salve! co’a taça em punho eu vos saúdo!
Beber, cantar e amar eis, meus amigos,
Das breves horas o mais doce emprego;
O mais tudo é quimera… o ardente néctar
No brilhante cristal férvido espume,
E verta n’alma encantador delírio
Que a importuna tristeza longe espanca,
E alenta o coração para os prazeres.
Pra levar sem gemer à fatal meta
Da vida o peso, vinde em nosso auxílio,
Amor, poesia e vinho.

Ferva o delírio ao retinir dos copos,
E entre ondas de vinho e de perfumes,
Se evapore em festivos ditirambos.
É doce assim viver! – ir desfolhando,
Descuidado e a sorrir, a flor dos anos,
Sem lhe contar as pétalas, que fogem
Nas torrentes do tempo arrebatadas:
É doce assim viver: – se a vida é sonho,
Seja um sonho de rosas.
Quero deixar de minha vida as sendas
Juncadas das relíquias do banquete;
Frascos vazios, machucadas flores,
Grinaldas pelo chão, cristais quebrados,
E entre murchos festões roto alaúde,
Que reboando balanceia ao vento,
Lembrando amores que cantei na vida,
Sejam de meu passar por sobre a terra
Os únicos vestígios.

Antes assim, do que passar os dias,
– Qual feroz caímã, guardando o ninho,
Inquieto a vigiar avaros cofres,
Onde a cobiça aferrolhou tesouros
Colhidos entre as lágrimas do órfão
E as ânsias do faminto.

Antes assim, do que sangrentos louros
Ir pleitear nos campos da carnagem,
E ao som de horríveis pragas e gemidos,
Passar deixando após um largo rio
De lágrimas e sangue.

Antes assim… mas quem aqui vos chama,
Importunas idéias? – por que vindes
Mesclar voz agoureira
Das meigas aves aos mimosos quebros?
Vinde vós, do prazer risonhas filhas,
De ebúrneo colo, torneados seios,
Flores viçosas dos jardins da vida,
Vinde, ó formosas, bafejai perfumes
Sobre estas frontes, que em delírios ardem,
Vozes casai da citara aos arpejos,
E ao som de meigos, deleixados cantos,
Ao quebrado languor dos olhos lindos,
Ao mole arfar dos mal ocultos seios,
Fazei brotar nos corações rendidos
Os férvidos anelos, que despontam
Nos vagos sonhos d’alma, bafejados
De fagueira esperança, e são tão doces!…
Talvez mais doces do que os gozos mesmos
Seja harmonia o ar, flores a terra,
Amor os corações, os lábios risos,
Para nós seja o mundo um céu de amores.

II

Je veux rêver, et non pleurer!
(Lamartine)

Mas é já tempo de depor as taças:
Que este ardente delírio, que inda agora
Ao som de soltos hinos
Tripudiava n’alma, vai de manso
Para os lânguidos sonhos descambando,
Sonhos divinos, quais só tê-los sabe
Ditoso amante, quando a fronte inclina
No regaço da amada, e entre as delícias
De um beijo adormecera.
Basta pois, – que o prazer não só habita
Na mesa dos festins, entre o alvoroço
De jogos, danças, músicas festivas…
Vertei, ó meus amigos,
Vertei também no cíato da vida
Algumas gotas de melancolia;

Cumpre também banquetear o espírito,
Na paz e no silencio inebriá-lo
Cos místicos aromas que se exalam
Do coração, nas horas de remanso:
Na solidão, ao respirar das auras
Se acalme um pouco o férvido delírio
Dos atroados bródios.
E ao túmulo suceda a paz dos ermos
Bem como a noite ao dia!

Quanto é grato depois de ter sumido
Largas horas em risos e folguedos,
Deixando estanque a taça do banquete,
Ir respirar o hálito balsâmico
Que em torno exalam flóridas campinas,
E reclinado à’ sombra da mangueira
Fruir em solidão esse perfume
De tristeza, de amor e de saudade,
Que em momentos de plácido remanso
Do mais íntimo d’alma se evapora!

Vertei, brisas, vertei na minha fronte
Com macio murmúrio alma frescura;
Fagueiras ilusões, vinde inspirar-me;
Aéreos cantos, quérulos rumores,
Doces gorjeios, sombras e perfumes,
Com risonhas visões vinde embalar-me,
E adormecei minh’alma entre sorrisos.
Longe, bem longe destes doces sítios
O torvo enxame de cruéis pesares…
Deixai-me a sós fruindo
A taça misteriosa onde a poesia
A flux verte seu néctar.
Busquem outros sedentos de tristezas,
De dores só nutrir o pensamento,
E quais duendes pálidos vagueiem,
Entre os ciprestes da mansão funérea,
Lições severas demandando às campas;
Meditações tão graves não me aprazem;
Longe, tristes visões, fúnebres larvas
De agoureiro sepulcro
Longe também, ó vãos delírios d’alma,
Glória, ambição, futuro. – Oh! não venhais
Crestar com o bafo ardente
A viçosa grinalda dos amores.
Nos jardins do prazer colham-se rosas,
E com elas se esconda o horror da campa…

Deixai que os insensatos visionários
Da vida o campo só de abrolhos junquem,
Lobrigando ventura além da campa;
Míseros loucos… que os ouvidos cerram
A voz tão meiga, que ao prazer os chama,
E vão correndo após um bem sonhado,
Oco delírio da vaidade humana…
De flores semeai da vida as sendas,
E com elas se esconda o horror da campa…
A campa! – eis a barreira inexorável,
Que nosso ser inteiro devorando
Ao nada restitui o que é do nada!.
Mas enquanto se oculta a nossos olhos
Nos longes nebulosos do futuro,
Nas ondas do prazer, que mansas correm,
Larguemos a boiar a curta vida,
Bem como a borboleta matizada,
Que desdobrando ao ar as leves asas
Contente e descuidosa se abandona
Ao brando sopro de benigno zéfiro.

III

Venez…………………………………………………………………….
L’air est tiède, et là-bas dans les forêts prochaines
La mousse épaisse et verte abonde au pied des chênes.
(V. Hugo)

Descamba o sol – e a tarde no horizonte
Saudosos véus desdobra…
Do manso rio na dourada veia
Tremem ainda os últimos reflexos
Do dia, que se extingue;
E os píncaros agudos, onde pousam
Do sol poente os raios derradeiros,
Ao longe avultam quais gigantes feros,
Que a fronte cingem com diadema d’ouro.

Ah! eis a hora tão saudosa e meiga,
Em que o amante solitário vaga
A cismar ilusdes, doces mistérios
De sonhada ventura…
E vem, ó tarde, suspirar contigo,
Enquanto não desdobra o manto escuro
A noite a amor propícia…
Afrouxa a viração – mole sussurro
Suspira apenas na sombria veiga,
Qual voz sumida a murmurar queixumes.
É junto a ti, meu bem, que nestas horas
Me voa o pensamento. – Ah! não vens inda
Pousar aqui de teu amante ao lado
Sobre este chão de relva?
Vem, ninfa, vem, meu anjo, aqui te aguarda
Quem só por ti suspira…
Da tarde as auras para ti desfolham
Cheirosas flores na macia relva,
E para te embalar em doces êxtases,
Murmura a solidão meigos acordes
De vagas harmonias:
Vem, que ermo é tudo, e as sombras
Da noite, mãe de amor.

Ah! tu me ouviste; – já ligeiras roupas
Sinto leve rugir; – estes aromas
São as tuas madeixas, que recendem.
Oh! bem-vinda sejas,
Entre meus braços, doce amiga minha!
Graças à aragem, diligente serva
Dos ditosos amantes, que levou-te
Meus suspiros, e trouxe-te a meu seio!

Vem, meu querido amor, vem reclinar-te
Neste viçoso leito, que a natura
Para nós recamou de musgo e flores,
Em diáfanas sombras escondido:
Desata as longas tranças,
E a seda espalha das madeixas negras
Por sobre os níveos ombros;
Desprende os véus ciosos, deixa os seios
Livremente ondearem; – quero vê-los
Em tênues sombras alvejando a furto,
No afã de amor ansiosos arquejarem.
Da boca tua nos mimosos favos
Oh! deixa-me sorver num longo beijo
Dos prazeres o mel delicioso,
De amor toda a doçura.

Eu sou feliz! – cantai minha ventura,
Auras da solidão, aves do bosque;
Astros do céu, sorride a meus amores,
Flores da terra, derramai perfumes
Em torno deste leito, em que adormece
Entre os risos de amor o mais ditoso
Dos seres do universo!
Brisas da noite, bafejai frescura
Sobre esta fronte que de amor delira,
Com cantos alentai-me, e com aromas,
Que em tamanha ventura desfaleço.
Eu sou feliz… demais!… cessai delícias,
Que a tanto gozo o coração sucumbe!

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Assim cantava o filho dos prazeres…
Mas no outro dia um golpe inopinado
Da sorte lhe quebrou o tênue fio
Da risonha ilusão que o fascinava:
A noite o viu cantando hino de amores,
A aurora o achou curvado a verter pranto sobre uma lousa fria.

(In Inspirações da Tarde, 1858).