UMA POÉTICO-FILOSOFIA DE TITO LEITE: MINHA CASA SÃO OS LUGARES EM QUE HABITO – FÁBIO PESSANHA

|palavra : alucinógeno
por fábio pessanha

“Deus nos salve / de Deus”. de todo poema que nos exerce, força maior é aquela que não nos conhece. e seja o fruto, o ínfimo estranho e sagrado. essa dor de amor de achar que é flor o espinho escondido. deus nos salve, saúde e salive! aleluia! que todos os santos rezem por nossos améns. que os anjos sobressaiam pelos pulsos cortados ante a agonia do perdão. salve, salve, poesia que nos salva da enganação. que a celebração dos ritos seja a fronteira entre o que se vive e o que se pensa viver. a estreia do sol nas faces de cada um que acorda isento de morte, por se morrer como se todo instante fosse apenas vida. quem sabe. nem sempre é. mas quando? a fonte seca no instante em que se bebe. a água. a sede. o fim que se revive no claustro. o apelo.

Falar da casca não duradoura
dos amores que nascem
e se findam, qual infindo orvalho
na face sem alento
do espelho:

de tal modo que se diga, que se suspenda. que seja a hesitação o preceito para se aderir à própria vontade de se dizer. o arremate do que se resvala pela fala. o silêncio. qual o desejo pelo desejo de ser a carne estimada pela encarnação da imagem. essa que foge pelo espelho. que não olha. que procura o meio para se esconder da culpa por ser ela – a imagem, o próprio seio – a fuga que procura um reflexo alheio. de tudo que se diga, pouco se confere ao arrebatamento. o espanto: a palavra nascida exatamente no momento do seu parto dá a ela – palavra – o necessário alívio pelo que se vai “qual infindo orvalho”. consumação.

a razão prática desorienta para a crítica da prática da razão, onde o estrelado céu se conjuga à lei que mora em todas as gentes. a moral. princípio que vale tão somente enquanto quando, isto é, no instante em que se finda simultaneamente ao próprio recomeço. um círculo. um circuito A CAMINHO DE CASA:

De abismo pontifica-se
a ovelha sem aprisco.

O que importa o risco,
se obscuros são os lugares
de esclarecimentos?

O que me resvala:
rasgar lâmpadas
em resgate
da moeda perdida.

Não se oriente pelo
céu estrelado de Kant:

em todos os lugares
estou em minha casa.

Expatriar-me será
o meu parto solenemente
filosófico.

sem curral que arrebanhe para a casa santificada, livres são as quedas presas nas ovelhas. o destino certo de seu novelo. a costura. o cerzir fortuito a tudo que se rediga ferozmente. uma tessitura que alicia o mais próspero dos desesperos. o domínio do abismo está na vertigem do risco. obscuro é sempre o passo dado à ausência de chão. a corporeidade do céu no precipício do salto.

de tudo que se valha, resvala o rasgo. a fronte que recebe o beijo e racha depois de uma pancada recebida bem no meio da ânsia por se abster de um compromisso celebrado. desafio é se manter na linha. durante a caminhada, toda esquina santa se reveste de pleonasmo. a tentação que mora na curva faz do estreito a largura necessária ao voto. deposita-se numa vida de clausura a abertura manifesta nos festins dos santificados demônios. a pretensão é a de sempre ir para casa.

chegar ao propósito do recomeço. a recontagem dos passos. a assunção recebida pela distância percorrida no interior da andança. em toda lâmpada que se rasga floresce um incêndio no peito. o resgate pelo zelo de se atravessar as instâncias dadas ao que se cumpre sem efeito.

todos os lugares são os lugares em que se está. estou em casa quando percebo lonjuras. estou em casa mesmo no declínio das certezas. estou em casa durante a dúvida que certifica o desafio. o ínfimo. o inteiro. o meio. “em todos os lugares / estou em minha casa”. e digo amém à chave que não encaixa na fechadura. rogo à porta que me leve para dentro do labirinto onde todas as perdições são motivos para a bênção de uma vida incerta.

exílio necessário é este que me recebe de braços abertos e peito trancado. nenhum dorso em que me mova conforta meu empenho por desvios. desde o horizonte que me afronta, a gestação é o que me espera. a gravidez dos meus dias se encontra prestes à parturiência do cedro, durante auroras. expatriar-me como refúgio das minhas faces. nos outros que sou, sou eu mesmo. fico sendo, mesmo quando diferente. diferença significa carregar o próprio caminho enquanto condução para a ambiguidade de ser.

meu parto habita o lugar onde não me encontro, ainda que a ideia de lugar seja a ideia da ideia de onde eu esteja. estando, eu não sou. aquilo que se apresenta é o que já não é. ser é o domínio presente da ausência. expatriar-me não para fora do meu domínio, e sim para dentro do que não domino: um “parto solenemente / filosófico”.

p.s. Tito Leite escreveu Aurora de cedro (7letras, 2019). eu li. li como se traçasse um círculo imperfeito, ao me deixar tocar por alguns poemas citados acima. eu nunca sei ler poemas, mas insisto. e com a imperfeição do traço, percorri essas linhas escritas, ainda em dúvida se findas no tempo ou se lançadas no espaço. Tito Leite escreveu, antes e depois, outros poemas. eu não sei o propósito de um poema porque um poema com propósito pode deixar de ser poema para se tornar um manual de sobrevivência. mais do que de manuais, precisamos viver (e errar e ser [quase] tudo que não se pretenda planejadamente). um poema nos vive. um livro de poesia é capaz de nos levar para não se sabe onde, e esse “onde não se sabe chegar” é possivelmente o lugar mais importante para se querer ir. eu vou. estou indo. tchau.