FLUXO – CAMILLA LORETA

|ESCRITORXS DE QUINTA
Por
Camilla Loreta

Certa vez, deitados na cama, um moço de torço pequeno me disse: a canção acabou, aquela banda não percebe isso, mas a canção acabou.

Já fazem anos que ele me disse isso, não entrarei nos detalhes corporais de nosso envolvimento, nem mesmo nos fatos propriamente ditos de qual banda estava sendo abordada.

A questão é a parte de dizer que algo acabou, ele dizia que a canção acabou, como um conceito, não existe mais canção, apenas repetição de algo que já foi feito, portanto, ela está morta. Como se todas as pessoas já houvessem contado todas as histórias possíveis. Como se algo fosse possível de ser esgotado. Na época que ele me disse não compreendi, mas hoje em dia, em retrocesso, penso que ele não teria lido a ficha técnica de todas as canções existentes para fazer uma análise básica, onde encontraria que a maioria das canções que ele conhecia tinham sido compostas por pessoas iguais a ele. Portanto, que história estava sendo contada? Seria essa que necessitava de um fim?

Acabo de sair do filme As Horas (2002), também não entrarei em detalhes, creio que a escolha pela dramaticidade de Virginia Woolf é de um tom histérico dado por justamente um autor e diretor homens que revisitam suas mães, irmãs e avós. Não que sejam proibidos. Só muitas vezes não compreendem bem a delicadeza da melancolia, pois envolve escuridão e mistério. Esses elementos nos quais a força ou a ação nada podem manifestar. Músicas solenes, planos, movimento, tudo isso no filme traz essa dramaticidade um tanto pertencente a essa zona clara do mundo, que olha para a depressão de modo altivo e pouco aberto.

Esse filme me fez pensar que os homens gostam de falar sobre a morte de modo a colocar ela como responsável pelo fim. É eliminar. A morte da guerra.

Que fim é esse?

Saindo do cinema, a chuva estava atípica, como tem acontecido ultimamente, a chuva e o frio no verão que assusta a todos. E me lembrei de um momento recente que passei em um rio.

Sentada sobre uma pedra. Escondida dos borrachudos. Fechei os olhos. Ao longe a cascata caia sobre outras rochas. Ouvi seus sons, e o das pessoas em volta.

Tudo foi silenciando e a escuridão anunciou.
A água e seu barulho suave nos meus pés. Sentada de olhos fechados.
O vento gerado pela força da cascata balançava meus cabelos.

Eu era feita da mesma água. Mas não apenas feita. Eu era o rio. Não havia corpo. Vontade. A escuridão era enorme. E o som da cascata cada vez maior.

Abri os olhos. Lá estavam todos, as rochas, pessoas, a água, as plantas. Tudo igual.

Saindo do filme lembrei desse momento. E ao mesmo tempo do moço de torço pequeno me falando sobre o fim da canção.

Os homens brancos costumam falar isso, sobre o fim das coisas. O fim da arte. O fim do cinema. O fim da literatura. O fim da história. O fim da vida humana.

O conceito que tudo domina.

Lembro do momento que estava de olhos fechados no rio. As vozes do rio são infinitas. Não há fim.

Virginia Woolf tinha tal conhecimento. As vozes que ouvia, o rio que a preencheu.

Sai do filme com essa dor no meu peito. Como se eu mesma tivesse morrido. E lembrei do momento que estava sentada na pedra, frente a água. Não estava morta, estava ali. Não propriamente viva ou morta, existia, assim como a água, junto dela, nunca separada. Não importava. Nada permanecia, nada era eterno.

Não havia morte, apenas água que corria.

Não cabe então dizer que a arte acabou, nem a canção, nem a literatura, pois o que há de acabar?

As vozes do rio seguem brotando em direção as suas ouvintes, cabe a nós escutar.

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Camilla Loreta é formada em Audiovisual e História da Arte, em São Paulo. Pesquisa a escrita o corpo e a imagem através das artes gráficas e audiovisuais. Seu trabalho foi publicado pela Editora Caixa e participou de feiras com a Plana (SP e RJ) e Tijuana (SP e RJ) em livros e zines individuais e coletivos. Dirigiu dois curtas-metragens, Clara e O Silêncio das Pedras, sendo esse último selecionado para a Semana Paulista de Curta-metragem. Participou de diversas residências internacionais e nacionais, entre elas: Kaaysa em Boiçucanga (Brasil) com o estudo Como se salvar de afogamentos; Encosta Residência na Ilha do Mel (Brasil), onde desenvolveu projetos de impacto local, dialogando com as comunidades e histórias da região; a residência solo FUGA (Nova Iorque) que rendeu seleção no Festival do Filme Livre, exibido em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasilia em 2019; The Artist meeting em Marianowo (Polônia) onde iniciou a escrita do livro Sândalo Vermelho e os Gatunos Olhos Dela, seu romance de estreia como escritora, programado para lançamento em 2020.