TRECHO DO ROMANCE “A CASA DAS ARANHAS” – MÁRCIA BARBIERI

|SENHORAS OBSCENAS
Por Márcia Barbieri 

Prólogo de um conto de horror

Um apagão tomou conta do povoado inteiro, se olhássemos pelas janelas das casas conseguiríamos avistar apenas pequenos feixes de luz, provenientes, provavelmente, de velas acesas. Ninguém ousava deixar suas casas, as ruas estavam escuras e desertas, os assassinos enfurnados em seus cubículos, escutávamos apenas o escarcéu dos gatos nos telhados (é admirável a forma como os gatos fazem amor, em outra encarnação nascerei na carne desses bichos), o latido incessante dos cachorros tentando nos alertar para um perigo invisível e os guinchados dos ratos esfomeados no esgoto. A pensão estava ainda mais sinistra, a construção falida, as portas e janelas desfalecidas, os trincos enferrujados, as árvores secas, o jardim abandonado, a fonte servindo de mictório e pouso de pássaros. Ninguém poderia supor que alguém habitasse aquele lugar fantasmagórico. No entanto, a vida dos homens se prolifera nos lugares mais improváveis e insólitos. Estevão morava lá com mais meia dúzia de desocupados. Ninguém sabia como tinham parado na pensão, assim como não sabíamos do que viviam, pois havia apenas uma fábrica na cidade e não empregava nenhum deles. O comércio se restringia a um açougue e uma mercearia familiar. Assim, desconfiávamos de que eles não precisavam dos mesmos alimentos que nós, mortais, precisávamos, embora, ninguém tivesse certeza desse fato. Estevão, talvez motivado pela escuridão e pela vagabundagem, começou a relatar a sua história aos demais. “Bem, era uma pensão como essa, no entanto, cada cômodo abrigava um tempo diverso, conheci três mulheres supostamente distintas, porque tinham idades e aparências diferentes, uma inclusive já estava morta dentro do caixão, me recordo como se fosse ontem, os olhos fundos, a face pálida, como se tivesse uma espinha de peixe atravessada na garganta, o corpo duro como de uma adolescente… Contudo, as três eram a mesma mulher, o mais engraçado é que apesar de vê-la agonizando e conhecê-la totalmente sem vida não me impediu de desejá-la de uma forma como jamais pude desejar novamente, provavelmente fui o único homem do mundo a conhecer tão intimamente uma mulher (não que este fato não me tenha causado transtornos incontornáveis), além disso, duvido que outro homem nesta terra seja amigo (sim, talvez possa chamá-lo de amigo) de um homem sem cabeça, tenha alimentado com as próprias mãos um cachorro verborrágico, tenha visto um homem se duplicar bem diante do seu nariz (os homens têm em sua natureza o poder da transformação, mas se partir em dois feito uma ameba nunca tinha visto) ou conheça um homem sem truques. Não quero convencer ninguém da veracidade dos fatos, sigam o resto da história e chegarão às suas próprias conclusões.”

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Márcia Barbieri nasceu em Indaiatuba, São Paulo, em 1979.  Formou-se em Letras pela Unesp e é mestra em Filosofia pela Unifesp. Participou de várias antologias e tem textos nas principais revistas literárias brasileiras. Foi uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro, do canal Pílulas Contemporâneas e do projeto Pinot Noir Literatura. Publicou os livros de contos Anéis de Saturno (ed. independente, 2009), As mãos mirradas de Deus (Multifoco, 2011) e O exílio do eu ou a revolução das coisas mortas (Appaloosa, 2018). Entre os romances figuram Mosaico de rancores (Terracota, 2013) lançado no Brasil e na Alemanha (Clandestino Publikationen, 2016), A Puta (Terracota, 2014), O enterro do lobo branco (Patuá, 2017), finalista como melhor romance de 2017 pelo Prêmio São Paulo de Literatura 2018 e A casa das aranhas (Reformatório, 2019).