AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS PARA UM POEMA DE WISŁAWA SZYMBORSKA – FÁBIO PESSANHA

|palavra : alucinógeno
por fábio pessanha

de estranhezas somos todos feitos. não tem jeito. as palavras. coisas. uma parede descoberta. um gato miando no telhado. não tem jeito. a gente é assim. um meio termo para um tempo que não se leva a ermo. por mais que se ignore a campainha tocando, que se dê aleluias a testemunhas de jeová. não há como sermos a metade de um dia inteiro. é muita estranheza nessa vida, e a gente é essa vida estranha, cheia de coisas, de palavras bizarras. aí umas três:

 

As três palavras mais estranhas

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser.

(Wisława Szymborska)

 

a questão está no dizer. seja o futuro, seja o silêncio, seja o nada; o negócio é o pronunciar.  a palavra. o agora. “Quando pronuncio a palavra Futuro” todo amanhã é hoje. por exemplo: durante a topada na pedra que ficou no instante do pé, o sangue depreendido do corte já não é mais sangue porque já não é mais corte porque já não é mais pé tampouco pedra. o sangue já não é. o que se vê de vermelho seria o passado da dor na ficção da rasgadura. o importante não é tanto o que passa, e sim o que está prestes a. um futuro quase presente quase pretérito. o quase é o que há. poesia é quase. “aliond / ehápoe / siaain / danãoé / poesia”. o irremediável remédio para o tempo sem curva. a sílaba é o fragmento da palavra na invenção do seu futuro.

muita estranheza está também em se dizer o silêncio. “Quando pronuncio a palavra Silêncio” quero dizer nada mais além do que a mudez. ou muito mais aquém do que há de quietude no silenciar; que não se trata apenas do emudecer, e sim da introspecção no que de mais presente existe na palavra quando dita. algo como aquilo que sumiu na chuva. o pingo que não caiu. a válvula que faz escapar o som do “s” ao negar o não. me diz você que coisa é essa, o silêncio que eu suprimo quando o digo. me responde. me dá uma luz. acenda o interfone e chame o eletricista porque aqui o que falta é este internato de palavras caladas. chamar na porta é a mesma coisa. a gente diz um nome e aparece a pessoa, não o nome. o nome se suprimiu na pessoa? que coisa é essa que eu chamo e aparece o que não vi? por que uma pessoa é gente e não a palavra em si? e pode uma palavra ser o corpo da pessoa que tem um nome? o silêncio é a palavra mais impossível que há, e o que há é poesia, ou quase.

só que a história não termina fácil assim. ainda falta o terceiro elemento da estranheza, pois “Quando pronuncio a palavra Nada”, aí é que são elas. não por ser mais ou menos importante em relação ao silêncio ou ao futuro. não mesmo. estão todos na mesma emboscada. cada um com o cano encostado em nossa nuca. não dá nem pra dizer oi, tchau, vai na fé. o jeito é seguir em frente. então, sigamos. falar a palavra nada talvez seja o mesmo que ser o nada enquanto palavra. ir mais profundo no dentro da linguagem. palavra e linguagem se intrometem uma na outra na mesma referência entre ser e não ser. mas antes, lembrei de uma outra coisa que precisa ser pensada: “quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”. este é o estratagema de quem esperneia na culatra, segundo as vias do paradoxo. é coisa do Rosa, o brincante da palavra. o habitante do nome João.

quando nada acontece é quando acontece o nada. substantivamente. que quer dizer: o nada mesmo, em sua gênese sacana, que se diz exatamente por não dizer. outra possibilidade – não menos sacana – é o nada como ausência. a mudez tão muda que nem chegou a se dizer enquanto se dizia. quando nada está acontecendo, ou seja, nem o nada comparece à presença do que é. nada a dizer. mas ambos se encontram na ambiguidade que criam. nada e nada: puro rio no mergulho. o somatório e a divisão. as quatro operações elevadas à potência do que é futuro, do que é silêncio. mas, veja. há um estranhamento forte no último verso do poema: “crio algo que não cabe em nenhum não ser”. aí não há só pronúncia, há criação também. algo que transborda, que não cabe.

a dupla negação é enfatizada pelo não ser e se torna [quase] um tipo de tripla negação. mas não se enganem. ou se enganem muito. afinal, pra que saber o certo se o que vale é sempre incerto? o não ser na poesia é tal como o sal na maresia: está em todo o lugar, mas não se pode apreender no que doa como aparição. ou o sol na metafonia das luzes, das cores de azul em azul. um blues compartilhado no compasso do improviso. embora não se improvise o não ser no ser. desdobra-se. desdobramento que até pode arriscar uma improvisação. nunca se sabe. nunca sei o que saber durante a letra errada numa frase. não caber em nenhum não ser quem sabe também seja trazer para o tempo o futuro. trazer para o agora o nada. tudo de incompleto que há. fazer barulho no silêncio porque o silêncio é o barulho mais alto exatamente porque dele nada se escuta.

só há poesia. ou quase. ainda não é poesia onde há poesia. augusto correndo nos campos da paisagem em prosa. ou não prosa. o que importa? vale o que transborda. o que não cabe. de estranhezas somos todos feitos. não tem jeito. as palavras, as coisas. e mais: as letras maiúsculas em futuro, silêncio e nada. não sei se já te contei, mas não gosto de letras maiúsculas. elas impõem começos, e a poesia é uma constância, sem início, sem final. só há meio do caminho. as letras maiúsculas nomeiam coisas consideradas importantes. próprias. os nomes próprios que a gente aprende na escola. saudade da minha lancheira que era o nome mais próprio que eu levava nas costas, dentro da mochila. ali cabia muito bem o transbordamento do não ser no silêncio, no futuro e no nada. éramos todas as letras minúsculas à espera de que alguém nos conduzisse até o recreio. mas legal mesmo era a hora de ir embora.

p.s. essa alucinação poético-palavral nasceu do poema “As três palavras mais estranhas”, publicado no livro Poemas (Companhia das Letras, 2011), de Wisława Szymborska. por aqui também compareceram uns flertes com o poema “não”, de Augusto de Campos, publicado em Não poemas, o qual foi editado pela Perspectiva, em 2009; e também trouxe para a conversa o conto “O espelho”, de Guimarães Rosa, presente em Primeiras estórias, edição da José Olympio, de 1974.