A SUCESSORA – OU A PERMANÊNCIA NA TEIA? – RENATA DE CASTRO

|SIBILA
Por Renata de Castro

Em 1934, Carolina Nabuco lança o romance A Sucessora. O livro foi reeditado no ano passado e desde então temos a oportunidade de acessar uma obra de sucesso comercial no Brasil tanto na década de 30, como no final da década de 70, em razão da adaptação feita por Manuel Carlos para a TV. É uma obra com um histórico polêmico, já que a escritora inglesa Daphne du Maurier publicou um romance quatro anos depois, intitulado Rebecca, com o mesmo enredo de A Sucessora. Em 1941, Hitchcock, adaptou Rebecca para o cinema e ganhou o Oscar de melhor filme daquele ano. O que se sabe hoje é que a autora inglesa sempre negou o plágio e que Carolina Nabuco havia enviado uma cópia de seu livro – escrito também por ela em inglês – ao mesmo agente literário de Maurier. Tendo havido plágio ou não, o que mais interessa aqui é pensar a sucessora e a quem ela sucede num enredo que em muito extravasa a ficção.

Embora não me recorde de ver o nome de Carolina Nabuco em nenhum livro didático que trabalhe a geração de 30 da literatura brasileira – e que tenha passado por minhas mãos nas duas últimas décadas –, A Sucessora atende perfeitamente às necessidades conteudistas para tal, além de trazer uma discussão que talvez até hoje interesse. O romance apresenta um conflito de papéis femininos interseccionado por uma função socialmente hipervalorizada, a de mãe.

A narrativa é toda centrada em Marina, a sucessora da falecida Alice – primeira esposa de Roberto Steen – e se passa na década de 20, num Rio de Janeiro urbano, tomado de ares franceses e novos ricos, e num rural, em declínio. A protagonista, filha de uma aristocracia escravocrata decadente, casa-se com um novo rico industrial. É um casal bastante alegórico.

Marina cresceu na fazenda sem uma educação formal, mas amava ler literatura, história e filosofia. Tinha como preceptor seu primo, alguns anos mais velho, que não só lhe presenteava com livros, como conversava com ela sobre as leituras, mediando suas reflexões. É possível cairmos no estereótipo da mulher que se emanciparia pelo conhecimento, ainda que tenha sido por intermédio masculino. Mais adiante, descobre-se que esse primo não era benevolente, mas sim egóico. Marina, por quem ele se apaixonara desde que ela ainda era menina e de quem se tornara noivo, representava a plateia admirada da qual ele precisava para seus longos discursos à maneira de políticos que caiam de moda. Além do gosto pela leitura, a protagonista demonstrava uma personalidade forte e assertiva. Assim que conheceu Roberto, terminou o noivado com o primo e casou-se, quase imediatamente, com o viúvo, por vontade própria e contra os planos familiares.

Literariamente, o ponto de maior destaque do romance é a tensão psicológica causada pela presença de Alice na vida do novo casal, ou melhor, na vida da nova esposa. Envolvemo-nos fluidamente no terror de Marina cercada de Alice por todos os lados, em todos os objetos da casa, na fala dos empregados, nas comparações dos amigos. Todos, na sua visão, comparavam-na a Alice e percebiam o quão aquém estaria ela em ser uma grande dama da alta sociedade carioca. Toda esta tensão foi desencadeada sobretudo pelo valioso e magnífico quadro de Alice, pintado por um renomado pintor francês. Marina começou a ficar atormentada com a presença do quadro na casa, que foi ganhando força e poder sobre ela à medida que se sentia cada vez mais cobrada pela sociedade a ser exatamente como a Madame Steen anterior, altamente cativante, excelente dona de casa e anfitriã, refinada e espirituosa; enquanto ela, Marina, era mimada, intimista e simples. Sua beleza e juventude eram sempre exaltadas por todos, mas sua falta de habilidade para a vida social era explicitamente lamentada.

O romance em si traz dificuldades para compreendermos quando há uma crítica ou quando é apenas um retrato do contexto, como por exemplo a condição dos negros no início do século. Marina tem uma mucama e é chamada de sinhazinha, tendo a fazenda onde cresceu mantido o trabalho dos negros em troca de teto e comida. No entanto, questões que envolvem um padrão de comportamento feminino parece, durante quase todo o enredo, estar sendo criticado através da protagonista, uma vez que esta já havia recusado ao padrão coquete de sua prima, ainda na fazenda, e continuou a se recusar a esse papel mesmo se sentindo pressionada por todos que a cercavam em sua nova vida como Madame Steen. Ela não demonstrava energia para tal, não se sentia à vontade, achava fúteis as conversas nas constantes recepções na mansão e não se dispunha a orquestrar o funcionamento da casa. Tudo que ela desejava era passar o dia com seus livros. Porém não tinha paz e era cobrada o tempo inteiro a mudar de perfil e assumir um outro padrão feminino, a fim de agradar a todos a sua volta e, sobretudo, ao marido.

Roberto Steen é definido pelo narrador como um homem de tons liberais, generoso, paciente, atencioso e que acreditava que as mulheres deveriam ter algumas liberdades. É um personagem menos machista do que se poderia esperar para o período. Há apenas uma cena na história em que cobra que Marina soubesse conduzir os empregados. Apesar deste perfil, a jovem sabe que o marido teria valorizado bastante a coqueteria e a espirituosidade da falecida esposa e isso a deixava insegura.

Quanto mais Marina acreditava que Alice teria sido uma mulher radiante de felicidade e perfeita em todos os sentidos possíveis; ela, Marina, não chegaria aos pés da antecessora em tudo que diz respeito às necessidades de Roberto. Nada na tensão tem a ver com a individualidade, com a subjetividade de Marina, mas sim quem ela deveria ser para o marido. Ela deixou os livros e começou a tentar ser a partir do senhor Steen. Nas situações em que realmente se esforça, sendo sempre aconselhada por outra mulher a como agir para bem resguardar o casamento, ela consegue. A cena mais emblemática é a do carnaval. Sendo o marido um “bom homem”, não quer obrigá-la a pular mais um dia de carnaval com ele e os amigos, mas a cunhada aconselha Marina a ir a fim de que ele não fique frustrado em seu desejo, afinal só iria acompanhado por ela. A jovem então, numa tomada de fôlego, foi e se comportou exatamente como a mulher que todo o grupo esperava. E com perfeição. Roberto surpreendeu-se, mas acreditou na felicidade da esposa. Ao final da folia, Marina sentia-se exausta por ter desempenhado todo o tempo o papel de Alice e teve a certeza de que não conseguiria continuar representando esse personagem para satisfazer Roberto.

Mais uma vez, é possível cairmos na expectativa de que Marina romperia com o papel feminino que lhe estava sendo imposto, já que ela decidira voltar para a fazenda. No intuito de parar de se sentir atormentada pela presença de Alice, nega o papel de dona da casa e refugia-se em seus domínios. O marido aceitou que assim fosse por algum tempo, indo vê-la sempre na fazenda, onde ela era filha e sinhazinha, era ela em relação a ela mesma.

Nesse período, Marina engravidou, percebeu então que não deixaria o marido, que deveria voltar para a mansão de Alice. Mas antes disso, resolvem fazer uma viagem pela Europa, pois Marina queria ficar mais um pouco com o marido sem a presença da antecessora. No entanto, durante a viagem, Roberto encontra pessoas que conheceram a falecida esposa, e de um desses encontros desenha-se o grande final da história. Nas últimas páginas do livro, Marina ouviu uma amiga íntima de Alice dizer que esta não se sentia uma mulher completamente feliz, porque não tinha tido filhos com Roberto.

A maternidade resolve toda a tensão de Marina em relação à Alice. Aquele era o momento em que Marina era mais que Alice, que seria a mãe que Alice não conseguira ser e daria o filho que Roberto sempre quisera, um herdeiro, como o próprio personagem fala, para que ele tivesse a quem deixar suas propriedades. É por meio do papel de mãe que a jovem esposa venceu a imagem da falecida em toda sua perfeição. Marina não recupera sua identidade, não assume a identidade de Alice, entretanto, redime-se de seu lugar de sucessora por meio da maternidade. Não uma maternidade como uma realização pessoal, um desejo íntimo, um projeto de vida; mas sendo a mãe do filho que o marido desejava, que a primeira esposa desejava e que ela então tinha o poder de o ter.

Tanto a coquete quanto a intelectual, que em momentos históricos abriram mão da maternidade, foram pressionadas por um padrão de comportamento feminino burguês. Quando Marina, que em nenhum momento da narrativa expressa um desejo explícito em ser mãe, descobre que Alice o desejava, acredita que venceu a antecessora em seu papel em relação ao marido. Durante toda a narrativa, todo o tormento de Marina, a assombração de Alice que não a deixava em paz, não foi um conflito de personalidades de duas mulheres, mas sim um conflito de papéis femininos, mais especificamente do papel de esposa. Tanto Marina quanto Alice são mulheres a partir do marido. No caso de Alice, não sabemos quase nada de sua vida anterior a Roberto; mas de Marina sabemos. O enredo parece conduzi-la a sair dessa teia de funções femininas predefinidas socialmente, mas é justamente o papel de mãe do filho do homem que a faz presa feliz da estrutura que a colocou como adversária de outra mulher.

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Renata de Castro
 é professora e, atualmente, doutoranda em Literatura na UFS. Dedica-se sobretudo à escrita de versos, embora também escreva prosa. Tem dois livros publicados: O terceiro quarto (Ed. Benfazeja, 2017) – composto não só por poemas, mas também por contos – e Hystéra (Ed. Escaleras, 2018) – composto exclusivamente por poemas eróticos. Fez parte da Antologia Poética Senhoras Obscenas (Ed. Benfazeja, 2016), da Antologia Poética Damas entre Verdes (Selo Senhoras Obscenas, 2017) e Antologia Poética Senhoras Obscenas (Ed. Patuá, 2019). Alimenta uma conta no Instagram com conteúdo relacionado à Literatura, em especial à Poesia.