Um poema de Ingrid Morandian

|SENHORAS OBSCENAS
Por Ingrid Morandian

vi, entorpecida, meu corpo
não calei
da boca afloraram lendas celtas
meus braços vertiam secreções amarelas
na atemporalidade,
e rodopiavam a noite toda
sempre vigiados pelas corujas,
fui interrompida pelas canções das yabás
a[normalidade]
derrapou no corredor do esquecimento
os ossos dos meus pés tocavam o solo chinês,
nas costas o peso de 12 poemas abandonados
como cartas velhas
molhados, os 12 poemas deveriam voar em estado de amor
eles pesam, o não-amor
meus passos não aguentam o peso do não sentimento
terra árida, devastada pelo reflexo da solidão
o velho mundo em conspiração para a 3ª guerra – implode sentimento
as falas inauditas da natureza dizem adeus
a mala esfarrapada do morador de rua
tem o peso do soneto de camões
tem o paradoxo do amor
meus ombros morrem curvados
sob o peso de tanta indiferença

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Ingrid Morandian
nasceu em São Paulo, onde reside. Participou de várias antologias. Publicações: Água Terra Fogo Ar Crônicas elementais (Editora Uapê, 2011); História intima da leitura (Editora Vagamundo, 2012); Revista Plural 1900 e Revista Plural La barca (Editora Scenarium Livros Artesanais, 2016); Senhoras Obscenas (Editora Benfazeja, 2016); Se você me amasse, teria fechado os olhos (Editora Patuá, 2019). Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Mallarmargens, Diversos Afins, Liberoamérica.