Bicho – Camilla Loreta

|ESCRITORXS DE QUINTA
Por 
Camilla Loreta

A sopa de feijão borbulhava na panela, o pão tostava na torradeira enquanto eu pensava que o alho tinha acabado, e que almoçar no dia seguinte seria só cebola. Minha filha devia estar no quarto estudando qualquer coisa, e eu seguia no celular descendo o feed de notícias do Facebook. Já eram quase nove horas.

Sentada no banquinho alto, perto da mesa da cozinha, conseguia ouvir que o vizinho estava lavando roupa. Que tarde para fazer isso… deve acender o cigarro, se não me engano, pra matar o tempo. E entrou pela janela aquele cheiro de fumaça, que deixa o nariz meio torcido, meio automaticamente, mesmo que eu não tenha problemas com cigarros, por logo me acostumar, cresci numa roça com muita gente fumante de palheiro.

A sopa está quase boa, abro um tantinho da tampa, lá está o caldo grosso, o vapor agridoce sobe e se mistura com a fumaça leve do vizinho. Bem, poderia ser quinta-feira lá em casa, na minha casa de verdade, com meu tio pitando na varanda e minha tia no fogão cozinhando o feijão do almoço, com um pouco de canela.

Mas era segunda-feira ainda, fazia três semanas que tinha voltado a trabalhar. Fernanda andava pela casa feito uma descompensada, dizendo que a faculdade estava ótima, só que os professores tinham perdido o prumo, mandando todo mundo estudar mais do que nunca. Já não bastava o fim da quarentena, teve mais as vacinas que causaram febres lancinantes na probrezinha… passou três horas delirando. Perder Fernanda não era uma possibilidade, então não sai do lado da cama, liguei para todos os médicos. Diziam sempre a mesma coisa: Três horas de febre não era o caso de levar para o hospital, a senhora vai encontrar prontos socorros lotados de gente pior que sua filha. É reação, espera passar.

Fiquei lá, então, sentindo nada, como costumo ficar quando o assunto é família. Não sinto, cabeça pensa rápido, mãos agem sozinhas. Fernanda falava umas coisas estranhas, depois dormia, depois acordava pedindo água, deitava e falava mais coisas estranhas, sem sentido, voltava a dormir. Ficamos nesse ciclo e, então, de repente ela dormiu um total de doze horas. Quando acordou parecia ter sido atropelada por um caminhão, mas pelo menos estava com a temperatura normal e tinha fome. A canja estava pronta, ela comeu às sete da manhã. Foi engraçado, parecia eu depois de oito horas de trabalho de parto, onde ela mesma nasceu, e parecia um pacotinho de tão pequena. Tinha um cheiro ocre, minha Fernanda, misturado com um azedo que devia vir da minha placenta. Tive vontade de lambê-la, como uma cachorra e suas crias, mas a minha tia tirou do meu colo o pacotinho e levou para lavar e benzer perto do fogareiro. Quando eu consegui me levantar um pouco, sentada, tia Amélia colocou ela no meu colo, entregou a fuligem do carvão, o cordão tinha sido cortado já, passei o pó no umbigo de Fernanda. E foi aí que eu chorei, e ela também, chorei rindo, chorei sofrendo. Meu pacotinho uma hora parou, quando tia Amélia baixou minha camisola e deu meu peito para a criança. Ela mamou, e às sete da manhã eu comi a canja feita no fogão de barro.

Eu tinha dezoito anos quando meu pacotinho nasceu.

Desliguei o fogo, o pão já tinha esfriado praticamente, então virei e liguei a torradeira de novo. Foi aí que a Fernanda chamou:

– Mãe! Corre aqui mãe, corre aqui!
– Que que é Fernanda? Tô fazendo a janta!
– Não mãe, é sério, corre aqui!

Fui rápido até seu quarto que é tão pequeno, coitada. Fernanda tinha tantos livros que não cabia tudo, eram pilhas pelo chão, a cama toda cheia de papéis, nem uma escrivaninha ela tinha. Ela estava empoleirada na janela, aquilo me deu uma ardência no peito.

— Que é Fernanda, sai daí filha, que história é essa?

Ela olhava para fora sem se mover, parecia até que tinha parado de respirar.

— Olha ali mãe, olha ali.

Olhei para a árvore de frente para a janela, era bonita aquela figueira, as folhas amareladas indicavam um outono fora de época. Algo brilhava entre as folhas. Não sei porquê, mas me veio uma emoção, meus olhos encheram de água, minha garganta deu um nó, e logo em seguida senti o cheiro da juçara, a fruta do palmito que já tinha olhado tanto, comido tanto. Me deu uma saudade, e não entendi o que se passava, de onde vinha o cheiro de juçara, a saudade e tudo mais. E vi. No meio das folhas estavam dois olhos brilhando para mim, grandes como bolinhas, continham mais estrelas do que o céu daquela noite.

— Mãe, não é aquele bicho que tem uma foto na sala?

Não era possível, aquele bicho… Mas parecia mesmo. Aquela foto borrada que nem se via nada, só um flash no meio da noite e uma coisa meio amarelada, dourada, que parecia estar fugindo.

— Nossa, mas Fernanda, como pode? Esse bicho tá extinto, e como que ele veio parar aqui no meio de São Paulo? Só tinha visto em Apiaí, quando muito pequena, depois nunca mais.

O bicho estava parado num galho longe da janela, não era muito maior que um macaco. Mas mesmo macaco eu nunca tinha visto na cidade. Ele parecia comer algo, tinha aquele jeito de roedor quando se alimenta, passava as patinhas pela boca, e os pezinhos pareciam se equilibrar no galho. Ficamos olhando por um tempo, não sei quanto, perdi a noção, Fernanda parece que também, as duas respirando devagar, contemplando o bicho.

— Qual o nome dele mãe?
— Ixi. Não sei…. não me lembro, isso é coisa de quando eu era muito garotinha Fernanda.

Ele pareceu nos ouvir, e virou os olhos grandes para mim. Piscou, e aí em questão de segundos pulou e sumiu. Fernanda se esgueirou para fora da janela, eu a segurei pela manga do casaco.

— Tá descompensada, minha filha? Vai aonde? Desce já dessa janela, Fernanda, o bicho apareceu, mas não foi para você se matar.

Fernanda pareceu acordar de um sono. Que que era isso, meu Deus? Ela me olhou com uma cara esquisita e disse meio baixo, como quando ela fazia quando criança.

— Mãe, isso foi muito estranho, não foi?
— Foi filha, foi… muito estranho.
— A foto na parede da sala, cresci vendo esse bicho mãe, inventando histórias, pedindo pra tia Amélia me contar sobre ele, e ai ele aparece bem na minha janela… Achei que eu tava com febre de novo, por isso te chamei aqui. Quer dizer, ele tava ali, né? Você viu também? Não tô alucinando?
— Não tá, minha filha, não tá.

Ela se sentou na cama, parecia devastada. Eu me sentei ao seu lado, segurei sua mãozinha, minha filha era meu pacotinho ainda, não tinha jeito, mesmo ela sendo bem estudada, inteligente, fazia de tudo, até consertava os móveis, encanamento, minha filha era uma pessoa completa. O dia que eu me fosse não precisava me preocupar, Fernanda sabia cuidar da vida dela. Só era muito bagunceira, e provavelmente ia sempre gastar dinheiro comprando livros que já tinha, porque não encontrava pela casa.

— Mãe, que isso significa?
— Nada filha, nada… Quer dizer, fico pensando que com essa cidade vazia, não sei… talvez…
— O que Mãe? O quê?
— Pode ser assombração filha, pode ser, pregando peça na gente.
— Que isso mãe! Nem existe uma coisa dessa.
— Tá bem Fernanda, você tem razão… é que esse bicho é coisa da minha infância, me fez lembrar de tanta história.
— Ô Mãe, mas não é esse bicho que traz boa sorte? Não é justamente por isso que ele tá ali na nossa sala, pendurado como se fosse um patuá?
— É sim Fernanda, é sim.
— Então…
— Então o quê?
— Sei lá…

*

No dia seguinte acordei bem cedo, mais cedo do que costumava, lá pela hora que nem luz tinha no céu ainda. Peguei o telefone e disquei para o fundão de Apiaí. Atendeu tia Amélia depois de três tentativas.

— Ô tia, benção. Aqui é a Cíntia.
— Ô Cíntia, minha filha, madrugou é?
— Foi tia, foi.
— Que você tá me ligando? Aconteceu alguma coisa? Como tá a Fê?
— Tá bem tia, tá ótima.
— Passou a febre dela? Você fez o escalda pé nela?
— Fiz sim, passou, a Fernanda tá bem. Tem nada não.
— Ah! Bom, que susto minha filha, faz tempo que não ouvia notícias suas, tava na preocupação.
— Desculpe, eu voltei a trabalhar, não tô tendo um tempo muito fácil aqui. Mas eu liguei porque queria te perguntar uma coisa.
— Cêis já tomaram vacina, Cíntia? Já colocaram a fitinha na porta?
— Já tomei, a Fernanda também, por isso que ela teve febre, lembra? E a fitinha tá na porta sim.
— Ah, é mesmo minha filha… Aqui tá um silêncio estranho, dona Cidinha morreu na semana passada, de complicação da vacina.
— Puxa tia… que tristeza…

Passei um tempo ouvindo minha tia fungar, dona Cidinha era amiga da família tinha muito tempo, era a mais velha da região.

— Tinha quantos anos ela?
— Ia fazer cento e dez minha filha… Perdemos nossa melhor parteira…
— Puxa, que tristeza, que Deus a tenha.
— Ah sim! Aquela mulher tá no céu, tanta criança que ela fez abrir o pulmão no mundo, com certeza… Teve uma vida muito bonita, o enterro que foi bonito também, tinha tanta gente. O céu tava rosa minha filha! Nunca vi nada tão bonito.
— Imagino, que bonito, que bom que ela se despediu em paz.
— Foi sim, foi sim… Mas que você me ligou então?
— Liguei sim, foi para perguntar um nome de bicho.
— Bicho?
— É, lembra daquele bicho que apareceu um dia no quintal, que até o tio Olavo tirou uma foto, meio borrada, que eu trouxe comigo pra São Paulo?
— Que bicho minha filha? Que foto?
— Um bicho com os olhos grandes e o pelo dourado.
— O mico?
— Não não, não é macaco, não é mico, é outro nome. Lembra que depois que o tio tirou a foto até apareceram uns cientistas perguntando do bicho e fazendo um monte de estudo e indo embora três meses depois com as mãos abanando?
— Ah! Foi – tia Amélia deu uma risada no telefone— Foi! Que meninos bonzinhos, pena que não sabiam nada de bicho.
— Então tia, qual o nome?
— Ah minha filha, quem sabia dos nomes tudo era meu pai, e depois sua Mãe. Eu mesma aprendi outras coisas, nome de planta, de rezar, de benzer, minhas santinhas, mas bicho não sei.
— Ah… Nem o tio sabe?
— Não, seu tio não tá sabendo nem que dia é hoje, a cabeça dele é de vento.
— Ah… tá bem…
— Mas por que tá perguntando?
— Porque… olha, porque eu vi hoje esse bicho.
— Na televisão?
— Não… pior, na janela do quarto da Fernanda.
— Na janela? Em São Paulo?
— É tia, na frente de casa, ele tava embrumado na figueira que tem aqui.
— Tem uma figueira aí? Que bonita… Mas esse bicho? Minha filha, não era o mico não?
— Não era, tenho certeza… Sabe por quê?
— Por quê?
— Senti o cheiro.
— Que cheiro filha?
— De juçara tia.
— Juçara?
— É, da fruta do palmito.
— Ah, sei. Juçara. Gostoso cheiro de juçara.
— Foi tia, deu até vontade de chorar…
— E que tem a ver o cheiro?
— Tem que esse bicho tem cheiro de juçara, lembro da minha mãe me falando que era esse o cheiro porque ele comia isso, só essas frutinhas.
— Ah bem, sua mãe te disse isso?
— Disse…
— Quando foi?
— Não sei tia, lembro que tava sentada na varanda. O sol tava bem no pico do céu, bem ardido, tio Olavo tava sentado comendo laranja.
— Laranja? Seu tio? Faz tempo então.
— Claro, minha mãe se foi quando eu era menina…
— Ah, verdade, que cabeça a minha. Não liga não, já tô velha coroca.
— Não ligo, nem um pouco. Saudade da minha velha coroca.
— Ô filha, por que você não vem visitar a gente?
— Não dá tia, depois que acabou essa doença que varreu tudo, tô achando um milagre ter aparecido trabalho, esses eventos que me deixam mandar dinheiro para a senhora e pro tio Olavo.
— Tá certo… tá certo, e a Fernanda? Tomou vacina? Colocou a fitinha na porta, minha filha? Se não os bombeiros vêm e cercam a casa da gente, aconteceu lá com a sobrinha da Fátima.
— Não tia, já tomamos vacina sim, tudo certo, e coloquei a fitinha na porta.
— Tá bom. Olha, do bicho, eu não sei não. Mas deve ser coisa boa, deve de ser…
— É? Por que tia Amélia?
— Ué, porque sim… Cê fez qualquer coisa de errado?
— Não fiz… tô fazendo tudo certinho, como a senhora me ensinou.
— Mantem o potinho na porta de entrada da casa? Com o alho dentro e o sal e a pimenta?
— Mantenho sim, mantenho…
— Então deve ser coisa boa, notícia, espera um pouco… Ou é sinal de você prestar atenção e seguir sua vida pra frente, sempre seguir a vida para frente.

Pensei um pouco naquele conselho, tão normais, mas fazia tempo que tia Amélia não falava aquele tipo de coisa para mim, o nó na garganta voltou, mas respirei fundo. De qualquer maneira não tinha jeito, não dava para voltar para Apiaí, não com os estudos da Fernanda. Não era coisa de dinheiro como eu dizia para minha tia, eram os estudos da Fernanda que me preocupavam… não podia deixar meu pacotinho no meio da cidade, sozinha. E ela me fazia companhia também, éramos nós duas, e tinha que ser assim.

Expliquei para a tia Amélia que precisava ir me arrumar para o trabalho e desliguei. Mesmo assim, permaneci sentada na cama, fechei os olhos e lembrei do dia que vi o bicho no quintal em Apiaí. Era dourado mesmo, caminhava como se fosse um gambazinho, mas num era, nem mico nem gambá. Ficava de pé, nas duas patas, tinha uma barriga meio redonda, meio caída, parecia estar procurando qualquer coisa, os pelos eriçados da cabeça, parecia ter uma espécie de juba pequena, que refletia dourado intenso. Os olhos eram realmente grandes. Senti o cheiro de juçara no ar, como se estivesse lá também, ao mesmo tempo que no meu quarto em São Paulo. Andei com os pezinhos de criança, a sandália de couro branca já gasta e meio suja de terra vermelha. Fui chegando perto do bicho, como se fosse meu amigo. Ele me olhou, mexia o focinho, torcia, levantava a cabeça esticando o pescoço e o corpo todo seguia, suas patinhas de baixo no chão, suas patinhas de cima dobradas, como dos roedores. Era uma noite clara, eu conseguia ver tudo com a luz da lua redonda que pairava no céu. Os olhos dele refletiam as estrelas, pareciam ter vários pontinhos, cor de prata no fundo preto. Eu dei uma risadinha, como quem descobriu alguma coisa, e fui chegando perto do bicho, até que ouvi meu tio Olavo lá de dentro gritando:

Cuidado criança! Sai daí seu safado!

E o susto foi tão grande que cai sentada de bunda no chão, a terra gelada e úmida da noite, me senti sozinha, o bicho foi embora, e fiquei lá com a garganta trancada, o olho cheio, o peito de saudades.

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Camilla Loreta é formada em Audiovisual e História da Arte, em São Paulo. Pesquisa a escrita, o corpo e a imagem através das artes gráficas e audiovisuais. Seu trabalho foi publicado pela Editora Caixa e participou de feiras com a Plana (SP e RJ) e Tijuana (SP e RJ) em livros e zines individuais e coletivos. Dirigiu dois curtas-metragens, Clara O Silêncio das Pedras, sendo esse último selecionado para a Semana Paulista de Curta-metragem. Participou de diversas residências internacionais e nacionais, entre elas: Kaaysa em Boiçucanga (Brasil) com o estudo Como se salvar de afogamentos; Encosta Residência na Ilha do Mel (Brasil), onde desenvolveu projetos de impacto local, dialogando com as comunidades e histórias da região; a residência solo FUGA (Nova Iorque) que rendeu seleção no Festival do Filme Livre, exibido em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília em 2019; The Artist meeting em Marianowo (Polônia), onde iniciou a escrita do livro Sândalo Vermelho e os Gatunos Olhos Dela, será romance de estreia como escritora, no momento em fase de aguardo para o mundo se assentar.