A VIDA NO ARMÁRIO – CHARLES BERNDT

|LORCA
Por Charles Berndt 

Uma breve reflexão sobre a representação do homossexual enrustido em alguns textos literários e adaptações cinematográficas. 

Recentemente, após concluir a leitura de um romance de Alexandre Vidal Porto, Cloro (2018), tive a ideia de escrever este texto – uma breve reflexão sobre o homem gay enrustido, uma figura bastante inquietante, que continua presente não só no nosso dia a dia, mas encontra espaço na arte, no cinema e na literatura sobretudo.

No romance Cloro, Vidal Porto nos conta a história de Constantino, um homem que durante toda sua vida permaneceu no armário, vivendo uma vida dupla: para o mundo, para a opinião pública, ele era um advogado bem-sucedido e respeitado, casado, pai de família; para ele próprio, era um homem gay frustrado e infeliz, incapaz de assumir e viver com plenitude seus desejos e sua verdadeira identidade.

Narrado em primeira pessoa, por um narrador póstumo, esse romance nos aproxima desta figura e nos faz compreender e enxergar, de perto, muito dos seus medos, anseios e frustrações. É impossível então não lembrar de Brás Cubas, narrador do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis. Tal como o narrador machadiano, após a sua morte, a consciência de Constantino se encontra numa espécie de “limbo” e decide reconstruir toda sua vida, dividir com o leitor os detalhes da sua fatídica história, repleta de medo, mentiras e repressão. Diferentemente de Brás Cubas, que no romance oitocentista escreve para esconder seus erros, ainda que de um modo irônico e sarcástico, Constantino procura lamentar muitas das suas escolhas, assumindo, quase sempre, os seus erros e fazendo uma espécie de mea culpa.

Como grande parte dos homossexuais, Constantino confessa que começou a se dar conta de sua sexualidade através dos outros, ainda na infância:

Um dia, me chamaram de bicha. Foi o Marcos Bauer quem, do nada, me chamou de bicha e me deu um soco na barriga na saída da escola, na frente de todo mundo. Foi uma ofensa definitiva, que ficou ecoando para sempre na minha cabeça[1].

A partir daquela experiência de bullying homofóbico, Constantino não só percebe que ser bicha é algo terrível, mas se dá conta de que precisava esconder seus sentimentos, precisava amordaçar seus impulsos, seus desejos, sua atração por pessoas do mesmo sexo. O xingamento do amigo permite que ele tenha consciência disso precocemente e a sua escolha é a de tentar se encaixar nos padrões exigidos pela sociedade – ele finge se interessar por garotas e não demora muito para começar a namorar com elas.

O tempo passa, Constantino decide não só abafar sua sexualidade, mas viver como se fosse heterossexual, como esperavam seus colegas, sua família burguesa e toda a sociedade de modo geral. Então, aos dezesseis anos conhece Débora, com quem irá se casar, ter dois filhos e permanecer unido até o fim de sua vida.  Mas ele jamais esqueceu de uma outra imagem de sua infância, que levaria consigo por toda vida e marcava, de algum modo, seu primeiro contato com sua homossexualidade:

Até o dia de minha morte, porém, eu me lembrava do cheiro de cloro no corpo do professor de natação. Em minha memória, não há espaço mais antigo que o dele. Se você perguntasse ontem, dez minutos antes de morrer, se ainda me lembrava do cheiro de cloro no corpo do professor de natação, minha resposta seria sim. Três vezes sim. Poderia descrevê-lo. Minha cabeça de criança contra seu peito molhado. Seus pelos. O vapor subindo da piscina aquecida, água morna entrando por minhas narinas. Eu nos seus braços, suas mãos no meu corpo, me segurando, me ensinando a nadar.[2] (PORTO, 2018, p. 17-18)

Seria somente após a perda violenta de um dos filhos que ele, assolado pela tristeza, decide parar de fugir de si mesmo. Constantino então descobre a internet e, já próximo dos cinquenta anos, começa a explorar sua sexualidade como faria um adolescente.

No escritório, pedia para não ser incomodado, trancava-me em minha sala e assistia filmes pornográficos, prestando atenção nos atores masculinos. No começo, escolhia filmes em que dois ou mais homens transavam com uma única mulher. Depois passei a filmes bissexuais, nos quais os atores masculinos também transavam entre si. Logo, só me interessavam filmes gays. “Os outros eu já conheço”, dizia para mim mesmo.[3]

Não demora, evidentemente, para que Constantino tenha sua primeira experiência sexual com um homem, com um desconhecido que conhece na internet. Assim, no meio de tantas viagens a trabalho, que o mantinham afastado de casa, Constantino ainda teria a oportunidade de se envolver com um garoto de programa. Pouco tempo depois, numa dessas viagens à Brasília, ele conheceria sua primeira e única paixão: Emílio.

Emílio era um diplomata de carreira do Itaramaty, que vivia em Brasília. Com ele, Constantino conheceu o amor, viveu, ainda que timidamente, o sonho de dividir momentos de alegria com outro homem, pôde explorar sem medo sua sexualidade, sua afetividade, pôde ser quem realmente era.

Com Emílio eu finalmente entendi um poema surrealista que havia estudado na aula de francês muitos anos antes, que falava de olhos tão profundos que roubavam a memória de quem os fitasse […] Minha relação com Emílio me fez perder a memória de quem eu era. Com ele, eu pensava no que queria ser, não no que até então havia sido. Ele me deu sentido de possibilidade, me abriu sentimentos que eu não sabia que existiam e aos quais não sabia se sobreviveria […] Mas em algum momento, achei que moraríamos em Brasília juntos, numa casa afastada, num mundo reinventado, como se só houvesse nós dois.[4]

Como vemos neste excerto, ao fim e ao cabo, apesar de todo seu medo, das décadas de repressão e de autocensura, Constantino consegue se libertar, pelo menos dentro de si próprio, chegando a sonhar em assumir aquele amor. Infelizmente, isso não acontece. Se, por um lado, Constantino, apesar do amor que sentia pelo diplomata, não estava completamente certo se seria capaz de assumir todos os dramas, riscos e dilemas de um homossexual assumido numa sociedade ainda radicalmente homofóbica como a brasileira, Emílio estava muito ligado à sua vida de diplomata e não renunciaria a isso para ficar com o advogado. Assim, apesar do sentimento de ambos, os dois se separam quando Emílio é transferido para a embaixada do Brasil na Indonésia. Constantino fica desolado, mas continua com sua vida dupla. Numa viagem de trabalho ao Japão, ele acaba conseguindo, numa manhã, escapar de um dos seus compromissos e visita uma sauna gay:

O horário mais popular entre a clientela daquele estabelecimento não seria dez da manhã de uma quinta-feira de junho; eu já antecipava isso. Além do cara que me olhou no vestiário, cruzei com outros seis ou sete caras, todos orientais, no caminho para as saunas. À exceção do primeiro, nenhum outro indicou interesse por mim. Nossos olhares não chegaram a se cruzar. Era como se eu não existisse: exatamente como agora[5].

E é neste lugar, longe de casa, aparentemente perfeito para uma aventura rápida e sigilosa, que o advogado conhecerá seu fim:

[…] Fechei os olhos. O cheiro de cloro seguia em minhas narinas. No meio da escuridão, me levantei. Não via nada. Breu total. Pressenti que algo se passava, uma vibração estranha, mas nunca pensei que fosse minha morte se aproximando. Nunca imaginei que aquele dia, aquela manhã, seriam os meus últimos. A última vez que calcei meus sapatos. Senti no pescoço uma pontada que desceu até a batata da perna. Foi como se todo meu corpo se paralisasse. Fui caindo em câmera lenta. Minha garganta travou. Não consegui mais gritar. Pensei no professor de natação. Meu corpo envolto em água morna. Acho que me urinei. Ouvi Doris Day cantando Its’s later than you think. Tudo bem. Ironia. Escuro.[6]

No momento de sua morte, o cheiro do cloro da sauna faz Constantino lembrar do abraço do professor de natação que jamais esquecera. Então, o leitor percebe que por mais que o narrador-personagem tenha, durante grande parte de sua vida, fugido daquela experiência, daquele tipo de sentimento, a verdade é que sempre foi uma fuga inútil, já que não se pode fugir de si mesmo. No início do romance, a voz póstuma de Constantino já havia confessado que Tem gente que passa a vida fugindo de uma coisa sem compreender que não existe fuga possível[7].

Após sua morte naquele lugar, todos acabarão por saber sobre sua vida dupla e sua decisão de jamais assumir publicamente sua orientação sexual. No fim das contas, tudo parece ter sido inútil para Constantino, pelo menos no que diz respeito a negar sua sexualidade e tentar se adequar aos padrões heteronormativos da sociedade. Apesar de ter carinho por Débora, ele nunca a amou. Também não foi um bom pai, na medida em que estava sempre distante e não conseguiu se abrir com seus próprios filhos. Suas experiências afetivas e sexuais com outros homens foram limitadas, vividas na marginalidade e na clandestinidade. A sua insegurança, o seu comodismo, o apego à vida falsa que construíra, contribuiu, até mesmo, para que Emílio não quisesse ficar com ele.

Na parte final do romance de Alexandre Vidal Porto, após a narrativa póstuma de Constantino, segue-se ainda uma parte intitulada Os outros, em que diversas pessoas comentam sobre Constantino e as circunstâncias de sua morte – as pessoas que o encontraram morto na sauna; funcionário da embaixada brasileira no Japão, responsável por fazer contato com o governo brasileiro e fazer o translado do corpo; o cunhado, que sempre desconfiara dele; Débora e Emílio. O mais interessante é perceber que grande parte das pessoas acaba por demonstrar compaixão com relação à sexualidade de Constantino e o leitor compreende que, em grande parte, ele foi mais vítima de si mesmo. A sua homofobia interna e a sua incapacidade de conversar sobre isso com outras pessoas, talvez, tenham sido seus piores inimigos.

A história de Constantino me fez lembrar, ainda, de muitos outros exemplos de homossexuais enrustidos da ficção. Lembrei, por exemplo, de uma peça de Nelson Rodrigues, O beijo no asfalto (1960). De modo resumido, podemos dizer que nessa peça se conta a história de um homem chamado Arandir, que ao ver um sujeito ser atropelado na rua por um ônibus, corre para ajudá-lo. O sujeito, morrendo, pede um beijo na boca e Arandir, num gesto de compaixão, realiza seu desejo. A partir daí, gera-se um grande escândalo na sociedade carioca dos anos de 1960, já que o episódio é presenciado por jornalistas e pelo próprio sogro de Arandir.

Arandir passa a ser perseguido pela polícia e vê sua vida ser completamente destruída. Rapidamente, o caso ganha grandes proporções, os jornais aumentam a história e, mesmo sem provas, noticiam que ele tinha um caso com o sujeito que morreu atropelado. Selminha, sua esposa, ainda que resoluta no início, acaba por acreditar na história e abandona o marido, influenciada pelo próprio pai, Aprígio, que sempre demonstrou odiar o genro.

Aprígio é justamente a figura que nos interessa. No desfecho da peça, ele mata Arandir e descobrimos que sempre fora apaixonado pelo genro. Desvela-se, assim, a sua hipocrisia e o motivo pelo qual não aprovava o casamento de Selminha e havia ficado tão enfurecido com o episódio do beijo no asfalto:

APRÍGIO — Você era o único homem que não podia casar com a minha filha! O único!

ARANDIR (atônito e quase sem voz) — O senhor me odeia porque. Deseja a própria filha. É paixão. Carne. Tem ciúmes de Selminha.

APRÍGIO (num berro) — De você! (estrangulando a voz) Não de minha filha. Ciúmes de você. Tenho! Sempre. Desde o teu namoro, que eu não digo o teu nome. Jurei a mim mesmo que só diria teu nome a teu cadáver. Quero que você morra sabendo. O meu ódio é amor. Por que beijaste um homem na boca? Mas eu direi o teu nome. Direi teu nome a teu cadáver. (Aprígio atira, a primeira vez. Arandir cai de joelhos. Na queda, puxa uma folha de jornal, que estava aberta na cama. Torcendo-se, abre o jornal, como uma espécie de escudo ou de bandeira. Aprígio atira, novamente, varando o papel impresso. Num espasmo de dor, Arandir rasga a folha. E tomba, enrolando-se no jornal. Assim morre)[8]

Na adaptação cinematográfica desta peça de Nelson Rodrigues, dirigida por Bruno Barreto e lançada no ano de 1980, essa cena final ganha um pequeno acréscimo, que a meu ver acaba por fortalecer ainda mais a sua mensagem, a sua crítica social: Aprígio, interpretado por Tarcísio Meira, após matar o genro, segura-o no próprios braços e, tal como aquele havia feito com o homem atropelado pelo ônibus, beija-o na boca. Como é próprio dos textos de Nelson Rodrigues, O beijo no asfalto fala sobre as contradições da sociedade brasileira, principalmente no que toca à burguesia carioca daquela época, desvelando e criticando o seu falso-moralismo, a sua corrupção, o seu conservadorismo descabido e hipócrita.

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Cena do filme O beijo no asfalto (1980). Tarcísio Meira interpreta Aprígio e Ney Latorraca, Arandir.

Gostaria, por fim, de falar de um outro filme, Maurice[9] (1986), dirigido por James Ivory, em que se conta a história de dois jovens ingleses, Clive Duhan e Maurice Hall, interpretados brilhantemente por Hugh Grant[10] e James Wilby, respectivamente, que se conhecem em Cambridge, onde estudam direito, no início do século XX. Naquela época, além de ser socialmente condenada, a homossexualidade era considerada um crime na Inglaterra e tinha como pena até um ano de prisão e a realização de serviços forçados. Clive e Maurice acabam por se apaixonar, mas, como muitos naquele contexto, acabam não vivendo seu amor por conta do medo de serem presos e expostos para toda a sociedade. O mais interessante, contudo, é perceber a diferença entre essas duas personagens. Clive, após ver um de seus amigos ser preso e condenado num tribunal por crime de sodomia, decide não só se afastar do amigo, do homem que amava, mas resolve se casar com uma mulher e tentar viver uma vida aparentemente “normal”, construindo uma promissora carreira como político. Maurice, ao contrário, nunca se adequou completamente às exigências da família e da sociedade, chegando a ser expulso da universidade. Inicialmente, no entanto, ele segue o conselho do amigo e procura igualmente controlar seus sentimentos, suas tendências sexuais proibidas, chegando a procurar um psicanalista para tentar se “curar”, com sessões de hipnose. Como era de se esperar, o tratamento não tem qualquer efeito e Maurice continua sentindo atração por outros homens. Assim, percebemos que a mudança no seu comportamento se dá aos poucos, é um longo processo de amadurecimento e descoberta. Isso fica evidente, de um modo metafórico, numa cena em que ele está hospedado na casa de Clive e, durante uma madrugada, coloca o corpo para fora da janela e molha-se na chuva – como se se entregasse à sua própria natureza, como se desejasse parar de agir conforme os desejos dos outros.

No dia seguinte, no meio da madrugada, Maurice recebe uma visita inesperada em seu quarto: o jovem Alec Scuder, guarda-caças de Clive, que o havia visto molhar-se na janela. O jovem abraça-o, beija-o na boca e diz: “Estava me chamando, senhor?”, como se através do gesto de se molhar na chuva, Maurice estivesse permitindo que seu corpo e seu espírito se encontrassem com seu desejo reprimido. Alec, inicialmente, representa exatamente isso, o desejo que o corpo de Maurice possui por outro corpo masculino. Então, naquela noite os dois dormem juntos e Maurice Hall ultrapassa uma espécie de fronteira proibida. A partir deste acontecimento, a relação com Alec evoluirá e cada vez será mais difícil fugir de si mesmo, lutar contra sua própria natureza.

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Alec (Rupert Graves) e Maurice (James Wilby), em Londres, em seu segundo encontro.

No desfecho da história, cada uma das personagens fará sua escolha. Alec Scuder desiste de um emprego na Argentina para ficar com Maurice, sem ter a certeza de que este o queria realmente. Maurice, após saber disso, toma sua decisão, vai ao encontro do rapaz, mas antes procura Clive e talvez seja este o momento mais importante de toda história. Na varanda da casa do amigo de Cambridge, ele fala abertamente sobre tudo que viveu com Alec e confessa que não mais pretende fugir de si mesmo, fugir do que pede seu corpo, sua “carne” e seus “ossos”. Clive, então, disserta sobre o único amor possível entre dois homens na sua visão: o amor platônico. Incapaz de convencer Maurice a abandonar a intenção de viver seu amor com o guarda-caças, ele entra em casa e vai ao encontro da mulher. No quarto, dirige-se para as janelas e lembra de Maurice – nesta lembrança, em um dia ensolarado, em Cambridge, o amigo chama-o para fora e, em seguida, acena, despedindo-se. Melancolicamente, Clive fecha as persianas da janela de sua casa suntuosa, como se estivesse fechando a si próprio naquela escolha, naquela vida de aparências.

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Clive Duham (Hugh Grant), em sua casa, fechando as janelas do quarto.

Ao pensar essa questão sobre a representação do homem gay no armário a partir do romance de Alexandre Vidal Porto, da peça O beijo no asfalto e sua adaptação cinematográfica, bem como através desse filme britânico, é necessário que se tenha em mente, contudo, alguma sensibilidade e pensamento crítico, para não corrermos o risco de generalizações rasas e problemáticas. Quando falo sobre as escolhas destas personagens de sair ou não do armário, obviamente, estou levando em conta o contexto histórico e social nos quais estão inseridas. Assim, se para Constantino, como ele mesmo afirma em diversos momentos de seu relato, viver no armário sempre foi uma escolha sua, no caso de pessoas que vivem em sociedades onde a homossexualidade é um crime – como era o caso de Maurice e Clive na Inglaterra do início do século passado[11][12] –, a questão é muito mais complexa. O próprio psiquiatra que aplica as sessões de hipnose em Maurice, interpretado por Ben Kingsley, diz a ele, ao fim e ao cabo: Eu o aconselharia a viver em um país como a França, a Itália, onde a homossexualidade não é mais um crime; Maurice pergunta: Isso será possível no futuro na Inglaterra?; e recebe a resposta: A Inglaterra nunca esteve inclinada a aceitar a natureza humana. Como julgar, desse modo, pessoas que, como Clive, não assumem sua sexualidade porque sabem que se o fizerem serão presas ou mortas? Seja como for, mesmo em países onde não é mais ou nunca foi crime ser homossexual, como o Brasil, crimes homofóbicos sempre estiveram presentes – ainda hoje, muitos são agredidos, espancados, perseguidos e mortos, todos os dias.

Resta saber até quando conviveremos com isso, com esses discursos que não só contribuem para que muitos permaneçam no armário, tenham medo de assumir quem são e prefiram uma vida de infelicidade e repressão. Resta saber até quando toleraremos discursos de ódio que indiretamente matam pessoas LGBT+ todos os dias. Ninguém escolhe a sua orientação sexual, mas podemos escolher de que lado dessa luta estamos: do lado daqueles que pregam o respeito, a igualdade, o amor e a vida; ou do lado daqueles que defendem a exclusão, a violência e a morte. Por fim, para se encerrar essa discussão, gostaria de sugerir o documentário estadunidense Outrage (2009), dirigido por Kirby Dick, sobre políticos gays no armário que, assumindo o papel de homens conservadores e defensores da moral e dos bons costumes, não só se aliam aos religiosos fundamentalistas, mas patrocinam e votam a favor de uma legislação anti-gay no Congresso dos Estados Unidos. O documentário traz uma série dessas histórias sobre congressistas publicamente contrários aos direitos da população LGBT+ que foram desmascarados por ativistas e por mídias alternativas, revelando, assim, sua hipocrisia, já que em sua vida privada mantinham relações homoafetivas[13].

Talvez o futuro nos reserve tempos com menos ignorância, tempos mais felizes e menos repressores, com menos armários, com menos Constantinos e Aprígios por aí e mais consciências e janelas abertas. Mas isso não cairá do céu, não sem luta, não sem resistência.

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[1] Citação retirada da página 16 do romance Cloro, de Alexandre Vidal Porto, publicado no Brasil em 2018, pela Companhia das Letras. Todas as outras citações do romance são desta mesma edição.

[2] p. 17-18.

[3] p. 75

[4] p. 89, grifos meus.

[5] p. 106

[6] p. 107

[7] p. 12

[8] Citação retirada de uma edição da peça de Nelson Rodrigues publicada em 2012, pela editora Nova Fronteira. A citação se encontra na página 58.

[9] Este filme é baseado no romance homônimo de Edward Morgan Forster, escrito entre 1913 e 1914 e que foi publicado apenas em 1971. Edward Morgan Forster era homossexual e, numa biografia publicada em 2010, a autora Wendy Moffat revela que o escritor, durante toda sua vida, teve amantes da classe operária, tal como a personagem Maurico, que se envolve com Alec, guarda-caças do amigo Clive. Ele teria escrito, em dado momento: “Quero amar um jovem forte das classes baixas e ser amado por ele e até magoado por ele”. Fonte: https://www.publico.pt/2010/06/09/culturaipsilon/noticia/quando-e-m-forster-teve-sexo-deixou-de-escrever-romances–258652

[10] Em 2018, Hugh Grant interpretaria um outro homossexual no armário, na minissérie A Very English Scandall, que conta a história de Jeremy Thorpe (1929-2014), um político liberal britânico que se envolveu em uma série de polêmicas, com intuito de encobrir um caso amoroso que tinha com um homem chamado Norman Scott.

[11] A homossexualidade foi considerada um crime na Inglaterra até o ano de 1967. Em outros países do Reino Unido, de modo semelhante, a homossexualidade esteve no código penal durante muito tempo (em Gales até 1967; na Escócia até 1980 e na Irlanda do Norte até 1982). Em 2016, a rainha Elizabeth II pediu perdão a todos os condenados por serem homossexuais no passado, incluindo o matemático Alan Turing (1912-1954), que ajudou a decodificar os códigos secretos dos nazistas na II Segunda Guerra Mundial. Turing foi preso e castrado quimicamente. Em 1954, cometeu suicídio. Vale lembrar, ainda, do escritor Oscar Wilde (1854-1900), que foi preso e condenado a um ano de serviços forçados. Muitos criticaram essa medida e alegam que, apesar de uma aparente boa intenção, isso parece ser mais uma autoabsolvição para a sociedade britânica, que no passado não só desrespeitou pessoas por conta de sua orientação, mas as perseguiu, torturou e assassinou cruelmente. Em muitos lugares do mundo, ainda é crime ser homossexual atualmente, sobretudo em países islâmicos, asiáticos e africanos. Para quem quiser conferir, de modo resumido, a situação da legislações sobre pessoas LGBT em todo mundo, sugiro esta lista, na Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Legisla%C3%A7%C3%A3o_sobre_pessoas_LGBT_no_mundo.

[12] Ainda sobre esse assunto, sobre a realidade dos homossexuais britânicos, durante o longo tempo em que foram considerados criminosos pelas leis britânicas, eu sugeriria o filme Victim (1961), dirigido por Basil Dearden e estrealdo por Dirk Bogarde. O filme mostra como muitos gays eram chantageados por todo tipo de oportunistas, que arrancavam dinheiro, sobretudo, de pessoas com maior poder aquisitivo. Assim, o filme mostra como a criminalização da homossexualidade incentivava, indiretamente, a prática de um outro crime previsto no código penal inglês – a chantagem. Este filme, assim, mostra o modo como a sociedade britânica da segunda metade do século XX já começava a não tolerar mais a absurda criminalização de pessoas por conta de sua orientação sexual.

[13] Evidentemente, esse documentário suscita uma questão ética através desse movimento de “tirar” pessoas do armário. A justificativa dessas pessoas é que o objetivo não é tirar pessoas do armário, o que é um direito pessoal de cada um (assumir publicamente ou não sua sexualidade), mas denunciar a conduta antiética e hipócrita de homens públicos, que no exercício de suas funções políticas atrapalham continuamente as pessoas LGBT, votando contra seus direitos e apoiando políticas discriminatórias e homofóbicas.

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Charles Berndt (Instagram) é professor e cursa seu doutorado em literatura na UFSC. É viciado em utopias, em palavras etéreas, mas ainda não foi pra Nárnia por acreditar que dentro deste mundo há um outro possível, mais justo, sensível, igualitário e fraterno.