Alguns poemas em mim que eu não entendo – THÁSSIO FERREIRA

|Alguma coisa em mim que eu não entendo
Por Thássio Ferreira

Sempre tive um forte apego por compreender. O que em literatura, e talvez especialmente em poesia, é um obstáculo a ser vencido. Clarice uma vez disse que não se devia tentar entendê-la, mas senti-la. Bandeira, no Itinerário de Pasárgada, escreveu acerca de uma quadrinha publicada em Estrela da Manhã: “É um poema ininteligível nos seus elementos, porque só eu possuo a chave que o explica; mas que a explicação não é necessária para que pessoas dotadas de sensibilidade poética penetrem a intenção essencial dos versos, se prova pelo comentário da nossa grande Cecília Meireles, que os qualificou de ‘pura lágrima’”. Então convido vocês (e eu mesmo) a alguns poemas cuja chave explicativa só eu tenho, e outros cuja chave perdi, sendo hoje um mistério até para mim.

 

#
teve uma vez
que eu lembro tão bem
que é quase como
tivesse acontecido

 

#
Indagar exclama (?!)
Sim!?
(Para mim sim, pois que gosto…)
Não sempre (?!?), que os signos
e as ilimitações do homem
são, até onde sei,
até onde escrevo,
até ontem e até quando (!?!) vejo,
incognoscíveis…

Mas na realidade minha,
que construo e acalento,
na loucura dos sentidos
e dos expressares
que porejo
(e vento e grito?!)
sim, verdade, sim!(?),
os indagares pulam,
enfáticos, em pasmo,
embevecidos?(!)

E os exclamares interrogam,
curioincompreensitransformadores!(?)!

 

# um espanto
Quebra-se o céu
abre-se o mar
o uno torna-se duo
divide-se o indivisível
os sonhos explodem
a realidade rompe-se
da ampulheta alvejada
partida
jorra a areia
o tempo se esvai
levado pelo vento
ventania, tempestade
quem alvejou a ampulheta?
e destruiu a ordem?
quem subverteu
e corrompeu
o certo?

 

# Quando outubro chegar

Quando outubro chegar
e trouxer com ele os demônios 
esteja aqui.

Sei que precisarei de conforto
sei que me trarás esperanças
esteja aqui.

No exato instante eterno
em que a escuridão me tomar
esteja aqui.

Quando não houver mais saída
sob o céu nebuloso
esteja aqui.

Tão logo a noite caia
enterrando setembro
quando outubro chegar
anunciando novembro
esteja aqui.

 

# A lua de São Paulo

Sob a lua urbana das catástrofes,
espada de mil lâminas, mil faces
impávidas, pacientes, a desenhar exatas
em seus fios os abismos com que, inclemente,
rasgará a carne das cidades,
dura carne de concreto e erros,

sob essa lua grávida
de mil castigos,
silenciosa e exangue
como um deus de pranto,
dorme São Paulo, babilônia,

sem saber da véspera do desastre.

Eu velo.

 

# poema sem resposta

?
(“the answer, my friend, is blowing in the wind”)

 

# Em mim

Em mim
–– seja “eu” o que for ––
todo o incerto aponta
atravessa e cristaliza
sem nem mesmo
estremecer.

A dúvida
em mim
é pedra

a sombra
cega

e os avessos
não desavessam
nunca.

Medra em mim,
imune a qualquer vento
e a toda matemática,
sem hesitar
sem se importar
com qualquer lógica
minha ou das leis 
do mundo como conhecemos,
tudo que não pode
não deve
não tem como
e não tem nome.

As impossibilidades
me percorrem e me carregam
— exatas.

Tenho inexistências
de estimação
que me arranham as mãos
e a alma, com garras de destemor
— duras, cruéis.

O inexplicável
— mais do que me cabe —
anda comigo sem descanso,
ensinando-me poemas.

 

# casi sueño

o tempo é teto
de palha
que a formiga
do abraço
roeu

o céu, luz de
navalha
entre o olho
e morfeu

 

#
a coragem do não
perante a lua
agindo em vou-me
pela ponte
através da noite
em vão

 

#
ela rodopiava no contratempo
enquanto a pista contrapiava
no rodotempo
ela rodogirava no contrafluxo
enquanto contratacava
o transmovimento
em seu elemento
a luz tremeloucava
sobre seu girocorpo
enquanto o riso frouxo
contranstornava a todos
em transcontentamento!

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Thássio Ferreira
, escritor radicado no Rio de Janeiro, é autor de (DES)NU(DO) (Ibis Libris, 2016) e Itinerários (Ed. UFPR, 2018 — obra vencedora do i Concurso Literário da editoria universitária). Foi editor e curador da Revista Philos de Literatura Neolatina. Tem poemas e contos publicados em revistas e antologias, como Revista Brasileira (nº 94), da Academia Brasileira de LetrasEscamandroGuetoMallarmargensRuído ManifestoGerminaRevista Ponto (SESI-SP), aqui na Vício Velho, InComunidade (Portugal), e outras. Mantém página no Facebook e no Instagram