O AMOR ENTRE VAQUEIROS – CHARLES BERNDT

|LORCA
Por Charles Berndt

DE BROKEBACK MOUNTAIN A GOD’S OWN COUNTRY

Dirigido pelo taiwanês Ang Lee, Brokeback Mountain chegou às telas dos cinemas em 2005, contando-nos a história de dois vaqueiros, Jack Twist e Ennis del Mar, que se conhecem durante o pastoreamento de ovelhas, em 1963, na fictícia montanha Brokeback, numa cidade do estado de Wyoming, e que acabam vivendo uma intensa história de amor. Vencedor de inúmeros prêmios importantes do cinema, entre os quais três estatuetas do Oscar de 2006, o filme de Ang Lee foi amplamente assistido e ganhou um reconhecimento que até então nunca havia sido dado a produções que abordam temáticas como essa. Vale mencionar, ainda, que o filme é uma adaptação de um conto homônimo da escritora e jornalista Annie Proulx, publicado originalmente em 1997, na revista The New Yorker. Recomendo vivamente a sua leitura. O texto de Annie, em essência, é quase idêntico ao roteiro do filme de Lee, mas há alguns detalhes e espaços vazios que a literatura dá conta de explicitar de uma maneira mais clara. As cenas de afeto entre os dois vaqueiros na Montanha Brokeback, por exemplo, são mais explícitas. 

Em 2006, eu tinha 15 anos e já tinha, como a maioria dos jovens dessa idade, consciência da minha sexualidade, da minha orientação homoafetiva. Sempre fui apaixonado por literatura e cinema e, como jovem suburbano, cuja família não contava com grandes recursos financeiros, cresci assistindo a programação que a TV aberta brasileira disponibilizava. Isso justifica até hoje o meu carinho por telenovelas. Mas vamos ao que interessa: em 2006, Brokeback foi transmitido na Tela Quente da Rede Globo pela primeira vez e jamais me esquecerei da minha ansiedade quando vi a chamada do filme: A incrível história de amor entre dois cowboys – lembro-me de ter ouvido algo desse gênero. O meu coração, que ansiava por algo que me representasse, que desejava desesperadamente sentir-se parte do mundo, palpitou naquele instante. Preciso confessar que este filme foi bastante importante para o meu processo de aceitação e amadurecimento enquanto jovem homossexual – a partir dali novas janelas se abriram e eu percebi que havia sim espaço para pessoas como eu em filmes, séries etc. Percebi que a minha forma de amar não é inferior nem deve manter-se escondida, muito pelo contrário. Relato essa experiência pessoal com a finalidade de atentar para a importância desse tipo de narrativa, sobretudo para minorias sociais e sexuais, secularmente silenciadas, invisibilizadas, discriminadas e marginalizadas. Felizmente, desde então, as coisas mudaram um pouco.  

A partir da boa recepção de Brokeback Montain, houve uma mudança no modo como o público passou a se relacionar com narrativas cinematográficas dessa natureza. Em outras palavras, podemos dizer que Brokeback abriu caminhos para que ao longo dos próximos anos fôssemos brindados com outros filmes como Carol (2015), Moonlight (2016), Call Me By Your Name (2017), Una Mujer Fantástica (2017) e tantos outros.  De forma semelhante, no Brasil, também houve um crescimento significativo de filmes que trazem histórias protagonizadas por pessoas LGBT+. Podemos destacar filmes como Do começo ao fim (2009), Como esquecer (2010), Praia do Futuro (2012), Tatuagem (2013), Hoje eu Quero Voltar Sozinho (2014), Corpo Elétrico (2017), As boas maneiras (2017), entre outros. 

Inclusive, há que se reconhecer que 2017 foi um ano ímpar, em que diversos filmes que abordam relações LGBT+ foram lançados e produzidos. Além desses que já citei, há uma produção britânica que, em certa medida, passou despercebida pelo grande público, mas que é de grande importância e revela o quanto esse tipo de narrativa amadureceu e ganha cada vez mais espaço: God’s Own Country

Dirigido por Francis Lee, o filme conta a história de Johnny Saxby, um rapaz de 20 anos que vive com a avó e o pai adoentado, numa fazenda no interior da Inglaterra. Por conta da doença do pai, Johnny toma conta de todos os afazeres da fazenda, cuidando sobretudo das ovelhas. Desde o início, ele é apresentado como alguém frustrado, violento e reprimido. Em segredo, ele se encontra com outros rapazes, com quem se relaciona sexualmente, sem qualquer sentimento. Tudo isso muda com a chegada do estrangeiro Gheorghe, um rapaz romeno, estudante de veterinária, que vai estagiar na fazendo da família de Saxby. 

Desde o princípio, uma tensão se instala entre os dois rapazes. Aos poucos a agressividade de Saxby para com o estrangeiro se transforma em interesse e, em seguida, em desejo e afeto. Os dois passam a dormir juntos todas as noites e o rapaz britânico, antes agressivo, infeliz e arredio, tem seu comportamento modificado, parecendo muito mais satisfeito e alegre. A intertextualidade com Brokeback Montain é evidente e se dá de diversas maneiras, seja no ambiente rural e campesino, ou mesmo na masculinidade tóxica de Johnny, que tal como Ennis del Mar e Jack Twist, ainda não conseguia expressar abertamente seus sentimentos, sua sexualidade. 

Assim, se a história dos dois cowboys estadunidenses se passa na década de 1960, num tempo em que a homossexualidade era ainda radicalmente incompreendida e combatida, o amor entre Saxby e Gheorghe acontece num tempo em que a homofobia começa a ser contestada e descontruída cada vez mais. Desse modo, no filme de 2017 não teremos mais o desfecho trágico, em que os dois vaqueiros não podem assumir e viver com liberdade sua relação amorosa, terminando, inclusive, com a morte de um deles. Na Inglaterra de 2017, apesar do machismo e da homofobia que ainda existem principalmente em cidades interioranas, os dois vaqueiros podem concretizar o velho sonho de Jack Twist: viver juntos num rancho, cuidando de ovelhas e vivendo uma vida de companheirismo e amor. 

O filme de Francis Lee nos ajuda, assim, a repensar o próprio lugar da masculinidade na contemporaneidade. A brutalidade e a dificuldade de expressar sentimentos de Johnny Saxby são descontruídas através da relação amorosa com o Gheorghe, alguém que já é bastante resolvido sexualmente e afetivamente. O ápice dessa modificação, dessa vontade de transformação, fica evidente na última cena, quando o britânico viaja ao encontro do estrangeiro e pede, humildemente, para que ele regresse e viva junto dele, em sua fazenda. Na última cena de Brokeback Montain, Ennis, abraçado ao casaco de Jack que guarda em seu armário, diz em voz alta: “Eu juro, Jack, eu juro”. É inevitável não se perguntar: o que é que Ennis jura afinal? Será que está a jurar que não se esquecerá de Jack e que irá amá-lo até o fim da vida, mesmo depois de sua morte? Jura não mais se esconder e viver uma relação de fachada com uma mulher? No caso de Johnny e Saxby, a jura de amor é o beijo final – o beijo que ficamos a imaginar que Ennis e Jack gostariam de dar uma vez mais, antes de decidirem morar juntos em seu racho de ovelhas, caso tivessem vivido em outro tempo. 

O filósofo alemão Walter Benjamin, em uma de suas Teses sobre o conceito de História, disserta sobre o que chama de redenção. Para ele, em linhas gerais e sem aprofundar o tema, é possível redimir as injustiças do passado através da modificação do presente. Assim, o amor de jovens homossexuais na contemporaneidade, que em diversos lugares do mundo já têm o direito de assumir quem são e viverem com liberdade suas relações, como Johnny e Gheorghe, de alguma forma redime o sofrimento de todos aqueles que não puderam fazer o mesmo no passado. Os vaqueiros do filme de 2017 redimem o final trágico dos vaqueiros do filme de Ang Lee, que se passa na década de 1960? Fica a questão.  Tomara que nós, os jovens privilegiados de hoje, não nos esqueçamos da luta que nos antecedeu e, sobretudo, não pensemos que tudo está feito, pois não está – basta olharmos para a ascensão de tantas pautas autoritárias e homofóbicas que têm avançado nos últimos anos, basta olharmos para tantos países do mundo, onde a homossexualidade continua a ser perseguida, criminalizada e até punida com a própria morte. 

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Charles Berndt (Instagram) é professor e cursa seu doutorado em literatura na UFSC. É viciado em utopias, em palavras etéreas, mas ainda não foi pra Nárnia por acreditar que dentro deste mundo há um outro possível, mais justo, sensível, igualitário e fraterno.