EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO – VERA SAAD

|Palimpsesto
Por Vera Saad

Confesso que abrir o primeiro volume de Em busca do tempo perdido de Proust para escrever este texto não foi tarefa fácil. Tive de lidar com meu passado, com o tempo em que li os sete livros, época sem redes sociais, de conexão lenta e leitura perfumada. Sim, ler tinha cheiro. Mesmo cheiro que sinto hoje ao abrir o primeiro dos três grandes volumes que tenho em casa. O cheiro me traz a madaleine de Proust, Swann, Albertine, minhas leituras em qualquer lugar, a biblioteca do Sesi na avenida Paulista, um livro emprestado a cada semana.

Intercalava minhas leituras entre os três volumes que tinha em casa e os sete da biblioteca, na verdade, seis, faltava justamente o primeiro, No caminho de Swann. Motivo pelo qual comprei a belíssima tradução de Fernando Py, editada pela Ediouro, conquanto preferisse as outras traduções e os outros volumes, a capa rosa me dava dor de cabeça. A cor rosa hoje me deu nostalgia desse tempo e me lembrou o quanto do tempo perdido de Proust existe no que escrevo.

Há uma passagem de meu último romance Dança Sueca que faço uma menção explícita a uma passagem de No caminho de Swann. É justamente esse palimpsesto que trago aqui hoje. Vamos às comparações:

No início da segunda parte do meu romance, uma música chama a atenção de Birá (narrador) ao visitar a tia:

Ouvir de novo aquela peça, o primeiro andamento, situava em mim, rosto adulto, corpo alto, um lugar apertado, com titia ao piano e as paredes gastas de uma casa antiga. A memória trazia de volta o cheiro de reboco seco.
Quando toquei a campainha do apartamento no sexto andar, na Avenida Angélica, revisitava um fundo decantado da minha história por uma música que ouvia do hall de entrada.
A música acompanhava o toque longo. Do hall de entrada, eu voltava àquele tempo […].

Fiz uma singela homenagem à passagem em que Swann ouve a frase de uma peça musical, a fictícia sonata de Vinteuil, e a associa à Odete:

 […] É que o violino se erguera a notas altas onde permanecia, como à espera, espera que se prolongava sem que ele deixasse de sustentá-las, na exaltação em que estava de já perceber o objeto de sua espera, que se aproximava, e com um esforço desesperado para tentar durar até a sua chegada, de acolhê-lo antes de morrer, de lhe manter, ainda por um momento, com todas as suas últimas forças, o caminho aberto para que ele pudesse passar, como a gente sustém uma porta, que sem isso cairia. E antes que Swann tivesse tempo de compreender e dizer a si próprio: “É a pequena frase da sonata de Vinteuil; não ouçamos!” — todas as lembranças do tempo em que Odette o amava, e que até esse dia ele conseguira manter invisíveis nas profundezas de seu ser, iludidas por esse brusco luzeiro do tempo de amor que julgaram estar de volta, tinham despertado e, em vôo rápido, subiram para lhe cantar perdidamente sem piedade pela sua desgraça atual, os refrões esquecidos da felicidade” (PROUST, 2002, p. 272).

O mais curioso é que não mencionei a obra de Proust nas referências bibliográficas que sempre incluo nos meus romances, como forma de me reafirmar autora do blog Palimpsesto. Proponho, portanto, que este texto seja uma errata propriamente dita e que eu faça as pazes com Proust e com o meu tempo perdido.

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Vera Saad é autora dos romances Dança sueca (Patuá, 2019) e Telefone sem fio (Patuá, 2014) e do livro de contos Mind the gap (Patuá, 2011), Vera Saad é jornalista, mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC – SP e doutora em Comunicação e Semiótica também pela PUC – SP. Ministrou no Espaço Revista Cult curso sobre Jornalismo Literário em 2012. Tem participações nas revistas Cult, Língua Portuguesa, Metáfora, Portal Cronópios e revista Zunái. Vencedora do concurso de contos Sesc On-line 1997, avaliado pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão, foi finalista, com o romance Estamos todos bem, do VI Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana. Seu romance Dança sueca foi selecionado pela Casa das Rosas para o projeto Tutoria, ministrado pela escritora Veronica Stigger.         

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Referência bibliográfica:

PROUST, M. No caminho de Swann; À sombra das moças em flor. Trad. Fernando Py. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

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