JONI MITCHELL E TELEFONE SEM FIO – VERA SAAD

Coluna | Palimpsesto


Já faz algum tempo assisti a um vídeo do canal da escritora Anita Deak, em que ela discorre sobre os diferentes usos da palavra e propõe a palavra não mais como representação do real, mas como uma ponte para novas interpretações. Ela cita como exemplo o conto Gato na chuva, de Ernest Hemingway. No conto, é apresentado um casal americano em um hotel em um dia bastante chuvoso. A esposa avista uma gata que se abriga sob uma mesa para não se molhar. Penalizada, a esposa parte em busca dessa gata. Não a encontra, porém, e, de volta ao quarto, afirma ao marido que quer um gato. Depois critica o cabelo e por fim passa a desejar uma série de coisas, desde um cabelo mais comprido para puxá-lo para trás, “bem preto e liso” em um coque “bem grande”, até uma refeição em uma mesa com os próprios talheres. Para Anita, essas reclamações em primeiro plano ocultam o que era discutido de fato: o casamento.

Ao ver o vídeo, imediatamente me lembrei da música de Joni Mitchell, Big Yellow Taxi. A música é simples, publicarei aqui a letra na íntegra:

They paved paradise
And put up a parking lot
With a pink hotel, a boutique
And a swinging hot spot
Don’t it always seem to go
That you don’t know what you’ve got
Til its gone
They paved paradise and put up a parking lot

They took all the trees
And put them in a tree museum
And they charged the people
A dollar and a half just to seem ‘em
Don’t it always seem to go
That you don’t know what you’ve got
Til its gone
They paved paradise and put up a parking lot

Hey farmer farmer
Put away that DDT now
Give me spots on my apples
But leaves me the birds and the bees
Please!
Don’t it always seem to go
That you don’t know what you’ve got
Til its gone
They paved paradise and put up a parking lot

Late last night
I heard the screen door slam
And a big yellow taxi
Took away my old man
Don’t it always seem to go
That you don’t know what you’ve got
Til its gone
They paved paradise
And put up a parking lot

Perceba que, apesar de a música falar sobre um estacionamento construído pavimentando o que chama de paraíso (provavelmente uma das belas paisagens do Havaí, onde foi escrita a música), o título da canção é Big Yellow Taxi, que surge apenas na última estrofe para levar embora seu old man. Lembro-me de, em um show reprisado pelo canal Bis, a compositora trocar old man, ora por father, ora por my boyfriend. Como no conto, o assombro da cantora com a construção do estacionamento na verdade serve como pano de fundo para falar da dor da perda.

Inconscientemente, eu usei justamente essa música como, digamos, “música tema” de meu romance Telefone Sem Fio (Patuá, 2014), a qual acompanha a narradora do início ao fim do livro. Digo inconscientemente, pois apenas me dei conta disso mais de cinco anos depois, quando assisti ao vídeo da Anita Deak. Em Telefone sem Fio a música é usada como pano de fundo para se falar do luto. Em alguns momentos o trecho “Don’t it always seem to go / That you don’t know what you’ve got / Til its gone” é mais importante do que os diálogos dos personagens. Diálogos esses que ocultavam o que de fato os personagens queriam dizer. Por outro lado, os recantos, que deveriam permanecer ocultos, surgem à luz por uma música aparentemente simples. Ah, o nosso inconsciente!  

P.S.: Quem tiver interesse em assistir a linda aula de Anita Deak, aqui vai o link: Canal da Anita Deak

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Vera Saad é autora dos romances Dança sueca (Patuá, 2019) e Telefone sem fio (Patuá, 2014) e do livro de contos Mind the gap (Patuá, 2011), é jornalista, mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC – SP e doutora em Comunicação e Semiótica também pela PUC – SP. Ministrou no Espaço Revista Cult curso sobre Jornalismo Literário em 2012. Tem participações nas revistas Cult, Língua Portuguesa, Metáfora, Portal Cronópios e revista Zunái. Vencedora do concurso de contos Sesc On-line 1997, avaliado pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão, foi finalista, com o romance Estamos todos bem, do VI Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana. Seu romance Dança sueca foi selecionado pela Casa das Rosas para o projeto Tutoria, ministrado pela escritora Veronica Stigger. Mantém uma coluna semanal na revista Vício Velho.

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A imagem usada na publicação é um recorte da capa do romance Telefone Sem Fio (Editora Patuá), de Vera Saad.