YOLANDA BEDREGAL: A PALAVRA DA MULHER – RENATA DE CASTRO

Coluna | Sibila


Yolanda Bedregal não chegou a mim, fui buscá-la em seu país. Em uma viagem à Bolívia, quis conhecer nomes de escritoras locais – hábito que criei há poucos anos quando tomei consciência do apagamento ou minoração da autoria feminina. Depois de uma busca na internet, fui a algumas livrarias e sebos à procura de pelo menos um exemplar da escritora que deu nome ao prêmio nacional de poesia da Bolívia. Não para minha surpresa, infelizmente, o máximo que consegui foi ver uns cinco poemas seus em uma antologia.

Hoje, de posse de um exemplar de Del Mar y la Ceniza, Alegatos, Antología – a primeira edição, de 1957 –, comprado em um sebo brasileiro, ainda me pergunto o porquê de uma escritora que teve sua morte noticiada na TV não ter exemplares de seus livros nas livrarias e sebos de La Paz.

Cresceu em um lar que respirava literatura, entre intelectuais paceños, amigos de seu pai, escritor do modernismo boliviano, professor e reitor da Universidad Mayor de San Andrés. Em razão desse ambiente, segundo a própria escritora, seus primeiros versos não foram escritos, antecedem sua alfabetização.

Yolanda teve uma vida profissional exitosa. Era também escultora e teve uma carreira acadêmica de destaque. O currículo de Bedregal é bem vasto, inclui ter sido designada embaixadora da Bolívia na Espanha e ter ministrado aulas de estética na Universidade de Columbia, em Nova York. Por ter promovido a cultura de seu país internacionalmente, recebeu do grupo literário boliviano Gesta Bárbara o nome de “Yolanda de Bolivia” e da Sociedad Argentina de Escritores, de “Yolanda de América”.

Apesar de todo esse histórico, ao qual se pode chamar de sucesso, em uma entrevista de 1998, menos de um ano antes de sua morte aos 86 anos, à revista Sincronía, da Universidade de Guadalajara, no México, Yolanda responde a perguntas sobre seu labor literário e surpreende em uma de suas respostas.

A entrevistadora pontua que o marido de Yolanda Bedregal, Gert Cónitzer, foi também poeta e a apoiou na produção de seus livros, perguntando, em seguida, sobre sua participação no trabalho literário da escritora. Yolanda começa a resposta elogiando o marido: Mi esposo era poeta no sólo porque escribía, sino porque daba un cariz poético a lo que para muchos habrían sido momentos rutinarios de la existência […] (Meu marido era poeta não só porque escrevia, mas porque dava um aspecto poético ao que para muitos teriam sido momentos rotineiros da existência).

Ainda na mesma resposta, Bedregal caracteriza o estilo de Gert, enaltecendo-o com elegância e, então, acrescenta: Como cualquier mujer tenía de joven muchas ocupaciones de rutina que no pueden esperar, tareas que nadie nota cuando están bien hechas y todos reclaman cuando faltan; la única hora en que podía escribir tranquila era tarde en la noche y lo hacía – como lo sigo haciendo – en cualquier papel, en el revés de las envolturas de cigarrillos, siempre a mano y con varias correcciones (Como qualquer mulher, desde jovem, eu tinha muitas ocupações de rotina que não podem esperar, tarefas que ninguém nota quando estão bem feitas, mas todos exigem quando faltam; a única hora em que eu podia escrever tranquila era tarde da noite e eu o fazia, como sigo fazendo, em qualquer papel, no verso das embalagens de cigarro, sempre à mão e com várias correções).

Aqui é preciso destacar a associação inevitável da fala da escritora ao discurso de Virginia Woolf, em Um teto todo seu. É, no mínimo, impactante ver este depoimento de uma escritora muito bem-sucedida em uma longa carreira de mais de meio século. Mesmo ela, advinda de uma classe social privilegiada, de um meio instruído e culto, com carreira acadêmica e artística, também só podia escrever tranquila à noite, quando a vida doméstica estava em ordem.

Depois dessa colocação aparentemente, no todo da entrevista, fugidia, Yolanda conta como seu marido a ajudou: Mi marido madrugaba, botaba las colillas de cigarrillos, juntaba los papeluchos, los descifraba y copiaba todo lo que yo había escrito la noche anterior. Creo que sin su ayuda, su apoyo y su admiración, no habría publicado cuanto publiqué. Además tradujo al alemán toda mi obra y fue un crítico exigente y cuidadoso (Meu marido madrugava, jogava fora as pontas de cigarro, juntava os papéis, decifrava-os e copiava tudo o que eu havia escrito na noite anterior. Creio que sem sua ajuda, seu apoio e sua admiração, não haveria publicado tanto quanto publiquei. Além disso, ele traduziu toda minha obra para o alemão e foi um crítico exigente e cuidadoso). E tal colaboração rendeu ao casal uma produção conjunta, um livro de poemas, Ecos.

Não tenho pretensão de pensar o relacionamento de ambos, mas de propor um olhar da discreta Yolanda como mulher espelhada em seus poemas. Para tanto, o foco será o poema Al hombre sin nombre la mujer eterna. Como o poema é dividido em duas partes, introito e final, proponho nos atermos à primeira parte.

Al hombre sin nombre la mujer eterna

Me llegaré al altar del hombre
en ofrenda de huída y rebeldía.

Hombre de ahora y de siempre,
abre tu mano a recibirme
y levántame al cielo como una hostia
aunque soy sólo pétalo de lágrima.

Hombre nuevo y eterno,
escúchame.
Sobre tu pecho roto
llamo y clamo.

Mi palabra golpea
-obsesionante ala obsesionada-
contra las sienes.

Mi palabra del grito
te taladra la frente,
sangre de luz de la herida
bautizará por un instante,
hombre frágil,
a la mujer eterna.

Eterna como el sueño fugaz.

Yo te miro sin ojos desde siempre.
tú me llevas en ti desde que existes.
Si antes no lo sabías,
ahora
ya no lo puedes olvidar.

Yo he crecido en el mar
sobre una ola que se alargó
para volverse tallo.
En ese tallo de agua limpia
he subido a mirar a los ojos de Dios.

Ahora me inclina un hálito a tu mano,
y estoy en ti como la mujer muerta
por la que todos los hombres han llorado.

Tú también has llorado
por tu hija, por tu madre,
por la mujer eterna de cuya muerte vives.

Ya no lo puedes olvidar.

Cuando tus ojos caminen en la sombra,
sentirás todavía por el cuerpo
una dulzura amarga y tibia:
beso en las palmas juntas
y una paloma que huye de tus dedos.

Con mi cara de piedra
yo estoy en la otra orilla.

Existo para ti en este momento;
y para mí no existo
porque soy más que eterna en cinco letras.

En el altar de Hombre fuerte como la vida,
hombre de hierro y hielo,
metal, sangre y espíritu,
cae la ofrenda íntegra
de la mujer lejana.

Mujer de canto y llanto
eterna como el sueño.



Ao homem sem nome a mulher eterna

Chegarei ao altar do homem
em oferenda de fuga e rebeldia.

Homem de agora e de sempre,
abre tua mão para me receber
e ergue-me ao céu como uma hóstia
ainda que eu seja só pétala de lágrima.

Homem novo e eterno,
escuta-me.
Sobre teu peito roto
chamo e clamo.

Minha palavra bate
– apaixonante asa apaixonada –
contra as têmporas.

Minha palavra de grito
te perfura a testa,
sangue de luz da ferida
batizará por um instante,
homem frágil,
para a mulher eterna.

Eterna como o sonho fugaz.

Eu te olho sem olhos desde sempre.
Tu me levas em ti desde que existes.
Se antes não o sabias,
agora
já não o podes esquecer.

Eu cresci no mar
sobre uma onda que se estirou
para se tornar um talo.
Neste caule de água limpa,
subi para olhar nos olhos de Deus.

Agora me curva um hálito em tua mão,
e estou em ti como a mulher morta
pela qual todos os homens choraram.

Tu também choraste
por tua filha, por tua mãe,
pela mulher eterna de cuja morte vives.

Já não o podes esquecer.

Quando teus olhos caminharem na sombra,
ainda sentirás pelo corpo
uma doçura amarga e tépida:
beijo nas palmas juntas
e uma pomba que escapa de teus dedos.

Com minha cara de pedra
eu estou na outra margem.

Existo para ti neste momento;
e, para mim, não existo
porque sou mais que eterna em seis letras.

No altar do Homem forte como a vida,
homem de ferro e gelo,
metal, sangue e espírito,
cai a oferenda inteira
da mulher distante.

Mulher de canto e pranto
eterna como o sonho.

O título já marca o tom do poema, la mujer eterna é para o hombre sin nombre seu objeto direto, como se classifica gramaticalmente, e que expressa de modo preciso a ideia de coisa para pessoa. No entanto, a voz do poema rompe com o lugar passivo e assume a voz da mujer eterna que já se apresenta na primeira palavra, me, primeira pessoa. A voz que fala é a voz que experiencia.

Esse eu-lírico que se vê como sacrifício no altar masculino tem um quê mítico da criação judaico-cristã, em que a primeira oferenda ao homem foi Lilith, a mulher que recusou a posição submissa e rebelou-se contra a estrutura na qual foi inserida. Essa voz rebelada dirige-se ao homem atemporal e roga-lhe que a receba como a imolada. De grande, faz-se contrária, pequena, com a imagem da pétala de lágrima, suave e delicada.

Referindo-se, mais de uma vez em vocativo, ao homem atemporal, la mujer eterna pede atenção a este ser quebrado. Ela grita a palavra em desespero, a palavra cortante que pretende atingir a cabeça desse homem roto e frágil diante dela, a mujer eterna.

E, novamente, a mulher constrói-se em paradoxos, é eterna, porém onírica e, por isso, fugaz. Ela não precisa de olhos para ver o homem, ela o antecede, o conhece, e mostra-se ancestral, primeva: tú me llevas en ti desde que existes. Uma verdade gritada, o hombre sin nombre não poderá deixar de ouvir.

A mujer eterna crescida nas águas dos oceanos reforça a ideia da entidade feminina, mãe de tudo e de todos. De água – elemento feminino, líquido, fluido – formou-se um talo – um falo?! – para que a mujer eterna olhasse no olhos de Deus. Um deus marcado pela cristandade, em letra maiúscula. É contra a estrutura de mundo do deus cristão que o eu-lírico se rebela. Para o homem forte e duro, porém humano, a oferenda é a mujer distante, a da outra margem, a mulher que o homem não alcança, porque não a conhece, embora a imole sempre em seu altar masculino.

Essa voz feminina que se anuncia está no hombre sin nombre, ela o constitui. Ele e todos os homens choram por ela como uma mulher morta, de quem vivem, pois ela é todas as mulheres, desde a mãe até a filha, Não é possível não levar a mujer eterna, a doce e amarga. Ela é um coletivo, não existe individualmente porque é mais que contínua em cinco letras, mujer.  É originária, genitora e dual, canta e chora. Revelou-se ativa; não foi criada, criou; não é objeto, é sujeito.

Agora o homem sabe e já não pode esquecer.

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Renata de Castro
 é professora e, atualmente, doutoranda em Literatura na UFS. Dedica-se sobretudo à escrita de versos, embora também escreva prosa. Tem dois livros publicados: O terceiro quarto (Ed. Benfazeja, 2017) – composto não só por poemas, mas também por contos – e Hystéra (Ed. Escaleras, 2018) – composto exclusivamente por poemas eróticos. Fez parte da Antologia Poética Senhoras Obscenas (Ed. Benfazeja, 2016), da Antologia Poética Damas entre Verdes (Selo Senhoras Obscenas, 2017) e Antologia Poética Senhoras Obscenas (Ed. Patuá, 2019). Alimenta uma conta no Instagram com conteúdo relacionado à Literatura, em especial à Poesia.