O CORPO DO MAR NO EROTISMO LINGUÍSTICO DE RENATA DE CASTRO – FÁBIO PESSANHA

coluna |  palavra : alucinógeno


invocação: acorda em mim, água. vem com a força de tua ancestralidade, das vidas que te compõem junto a todas as mortes que ainda serás. faz nascer tormentas nos meus esconderijos para que eu aprenda a ser arrebentação com o desejo do teu nome. ante este apelo, te faço também meu, poema, que da linguagem se metamorfoseou em palavra e se tornou verso na linha duma vida irrompida em saliva, canto, suor e devastação. que a voz da renata de castro seja um dilema a ser vivido nas quebras desse encanto. que aqui eu seja mergulho e incorporação do poema gerado de quando estive em alto-mar, de quanto fui o retorno da onda.

Vem me nascer
na carne do dia
transborda-me águas
agua tudo que há

Traz teu cheiro de sal
Traz tua voz em ondas
Traz tua pele solar

Vem me romper
a saudade na melodia
que repete teu nome
                     teu nome
                     teu nome
por todo corpo do Mar

há poemas que nos são conjuração, são a rota para os choques no sal da praia e seus desertos. como um tiro que atravessa a matéria e costura o tempo interrompido da imagem, envergam-se as fronteiras entre a vida nascida no poema e a de quem chegou ao mundo para cumprir o destino do verbo em ser fogo e exaltação. enxurrada. pela submersão fluida das profundidades, vem me nascer / na carne do dia e experimentar o peso das pegadas deixadas na areia desde a gênese dos corpos que um dia foram bocas e fomes inteiras. extravaso o limite líquido do espaço ao tomar posse das fendas e buracos por onde meu toque se espraia. transborda-me águas / agua tudo que há enquanto for possível ser o antes e o depois na conjugação das marés.

aguar é um verbo nascido do ensinamento das enchentes, e estas, antes de serem o desastre das habitações, são a substantivação do ato contínuo de apropriação. outro verbo possível para incorporações é o ocupar, sendo o princípio da mútua penetração dos sentidos de encher, preencher, fazer de si o dentro perene da extrapolação. o estado de água seria o copertencimento entre as brechas por onde se entranha a dimensão manante da correnteza. tomo posse do poema ao transfigurá-lo como elo dos meus futuros, por ser agora a pele na expectativa do toque-leitura de quem me fizer amante. vem, pessoa de decifração faminta, traz teu cheiro de sal / traz tua voz em ondas / traz tua pele solar e comunga a vontade de ser crepúsculo ao abrigar o poente na ingênua ideia de submersão do sol na linha que reúne céu e mar.

cria passagem em mim tal qual a exortação das ruínas por onde se fez dilúvio. diverge das trilhas deixadas pelas águas ao ser confidente da origem das nomeações. de todas as coisas que esperam a violação dos seus segredos, a melancolia se alicerça na estrutura da convocação. verbo é quando uma palavra se deriva em conjugação e abarca a indagação dos nomes. se eu, tu, você, ele ou ela fazemos a singularidade dos casos retos, tortos seremos quando nos tornarmos plurais. então, vem. vem me romper / a saudade na melodia / que repete teu nome / teu nome / teu nome. guardo a confissão que fizeste ao partilhar os ensinamentos colhidos ao longo de tantas existências. por mais que se invoque, teu nome é secreto e encerra o propósito da canção para tudo que for ou será eternidade.

a cada vez que retorno, interrompo a saudade numa nova demora e levo comigo a areia como se fosse o derramamento da ideia das ampulhetas. carrego o desejo dos pés de se manterem fincados onde não é possível conservar sua permanência. talvez seja isso uma explicação para o tempo e suas várias propagações. a tríade nascida no que foi, é e será como instabilidade mnemônica dos deuses e deusas, ceifados pela invenção da heresia. ou ainda o que de mim se torna constância a cada morte-nascimento, a cada vez que me torno homem ou mulher ou vivente mútuo desde o início do início do sem fim dos tempos. essa correspondência tripartida também se chama memória, a partir de uma referência à mnemosýne, filha do céu e da terra, mãe das musas, as quais segundo o pensamento grego são invocadas por poetas ao entrarem em estado de palavra e se tornarem existência com seus poemas. aqui, desde o início, estamos em condição invocativa, e por essa correlação talvez seja possível compreender a história pela qual a vivência pactua encruzilhadas nas decisões que me antecederam. antes mim, eu ainda. antes de ti, tudo que fora ausência na presença das vidas que se tornaram espera no que viemos a ser: oceano.

por todo corpo do Mar, o que seremos enquanto enchente. por todo corpo do Mar, a repetição do teu nome tal qual o mantra evocado insistentemente quando as rochas se fizeram impacto em nossa arrebentação. das espumas, o sal fez ponte com a saliva e o entroncamento de nossas línguas gerou a possibilidade de se dizer o intangível verbal, o orgasmo que faz dos corpos unidade, a salinidade ambígua do suor, o rastro no corte das águas fadado ao recolhimento e à renovação de tudo que foi, poderia ter sido ou ainda será. o mar. o lugar onde tudo é retorno. por todo o corpo.

p.s. do livro De quando estive em alto-mar (Editora Escaleras, 2021), o poema sem título, cujo primeiro verso é “Vem me nascer”, tem nesse início um convite para que possamos nos fazer pertencer a ele. tal entendimento me provocou pensar que poesia é além de uma constatação regulamentar, muito além de um gênero. ao nos darmos conta de que a língua é nossa e de que precisamos a cada dia tomar posse dela, com quebras, inversões, rearranjos que excedem o estipulado pela norma gramatical, descobrimos nisso um alargamento das fronteiras linguísticas e, mais ainda, a assunção erótica de nossa participação na elaboração do que se torna nosso modo de dizer. a poesia tem essa força e se materializa no poema, na nossa corporeidade linguística ao dizer um poema, ao escrevê-lo, ao assimilá-lo como parte integrante de nossa existência física e para além dessa divisa orgânica. juntando essa percepção à ideia de mar, temos ampliado o poder da palavra no diálogo de águas correntes. a nós, me parece, o importante é seguirmos a andança das marés, com todos os caixotes e naufrágios.

____________________
Fábio Pessanha (Instagram / Facebook) é poeta, doutor em Teoria Literária e mestre em Poética, ambos pela UFRJ. Publicou ensaios em periódicos sobre sua pesquisa, a respeito do sentido poético das palavras, partindo principalmente das obras de Manoel de Barros, Paulo Leminski e Virgílio de Lemos. É autor de A forma fugaz das mãos (Patuá, 2021), A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos (Tempo Brasileiro, 2013) e coorganizador do livro Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento (Tempo Brasileiro, 2011). Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Diversos Afins, Escamandro, Ruído Manifesto, Sanduíches de realidade, Literatura & Fechadura, Gueto, Escrita Droide, Gazeta de Poesia Inédita, Mallarmargens, Contempo, Poesia Avulsa, Quatetê, Arara, 7Faces, InComunidade e na própria Vício Velho.