INSETO – JOÃO PAULO PARISIO

Coluna | Sentido


a Modesto Carone

Não é novidade que a atmosfera de pesadelo presente na obra de Kafka emana em grande medida da conduta excêntrica e bitolada dos personagens, sobretudo dos protagonistas, exatamente como muitas vezes nos afigura nosso comportamento quando recordamos sonhos. E grosso modo esse comportamento pode ser definido como a insensibilidade ao absurdo, a familiaridade com o infamiliar, a passividade ante a subversão das leis naturais e convenções sociais, mediante uma perda total ou parcial das referências. Uma amnésia nebulosa daquilo que nos incutem desde o início, uma perplexidade geral que não separa o joio do trigo. Esta é uma noção formulada pelo personagem-narrador em mais de um momento no conto ou noveleta O sonho de um homem ridículo, de Dostoiévski:

“Às vezes vejo o meu irmão em sonho: ele toma parte nos meus negócios, estamos bastante compenetrados, e no entanto, ao longo de todo o sonho, sei e lembro muito bem que o meu irmão está morto e enterrado. Como é que não me espanto com o fato de que, embora esteja morto, mesmo assim ele está aqui ao meu lado e se atarefa junto comigo? Por que o meu juízo admite tudo isso?”

“E sinto o caixão balançar, e raciocino sobre isso, e de repente pela primeira vez me assalta a ideia de que eu, afinal, estou morto, completamente morto, sei disso e não duvido, não enxergo e não me movo, e no entanto sinto e raciocino. Mas logo me conformo com isso e, como de hábito nos sonhos, aceito a realidade sem discussão.”

“E eis que estou nos braços de uma criatura, não humana, é claro, mas que é, existe: “Ah, então há também uma vida além-túmulo!” – pensei eu com a estranha leviandade dos sonhos, mas a essência do meu coração permanecia comigo em toda a sua profundeza:”

– (tradução de Vadim Nikitin)

Caso Gregor Samsa, depois de acordar de sonhos intranquilos metamorfoseado num monstruoso inseto, tivesse se escandalizado ou horrorizado ante sua nova situação, buscado e rebuscado respostas filosóficas, mágicas ou científicas e mergulhado num sinistro estado de excitação, A metamorfose seria apenas “a incrível estória do homem transformado em inseto”. Nisso poderia consistir um penny dreadful ou conto a ser publicado numa revista de pulp fiction, uma ficção científica como A mosca; não teria, contudo, a índole kafkiana. Kafka é um artífice de pesadelos. A condição sine qua non do pesadelo é não sabermos ser só um pesadelo, pois assim ele é eterno enquanto dura (descobri-lo em meio ao fluxo onírico pode ser perturbador, mas segue-se o alívio, algum relaxamento). Talvez Kafka conceda nada mais nada menos que a oportunidade única de ser testemunha oracular (eis o leitor) de um pesadelo alheio. Essa condição impotente e tirânica, cômoda e incômoda, aflitiva e fascinante, que é a de espectador. A estória começa com o despertar de Samsa, logo, não é um sonho, mas por isso mesmo o é, quando vista de fora, por nós, empáticos e sádicos observadores.

Nem por o serem deixam os pesadelos de documentar aspectos realíssimos e aspérrimos da vigília. Em A metamorfose, a exploração profissional, por exemplo. Se não quisermos ser eufemísticos: o sequestro da liberdade, a servidão remunerada, fenômeno característico da sociedade da grana. “Eu estou presa”, me disse uma vez uma moça com quem conversei no ônibus, arrematando o relato de como lhe sobrava tempo apenas para as necessidades fisiológicas, higiênicas e parcos lazeres dominguentos, dadas as obrigações que tinha para com a família. Sustentada por ela toda a vida, não podia esquivar-se agora ao dever de ampará-la. Esse era o caso de Gregor Samsa: o caixeiro, conquanto viajante, era um prisioneiro muito antes de seu confinamento no quarto.

A primeira informação dada sobre Samsa é sua profissão, e a sua primeira reflexão que extrapola a própria metamorfose é a seguinte queixa:

“Ah, meu Deus! Que profissão cansativa eu escolhi. Entra dia, sai dia – viajando. A excitação comercial é muito maior que na própria sede da firma e além disso me é imposta essa canseira de viajar, a preocupação com a troca de trens, as refeições irregulares e ruins, um convívio humano que muda sempre, jamais se torna caloroso. O diabo carregue tudo isso!” – (tradução de Modesto Carone)

Apesar de Kafka ter desejado reunir A metamorfose, O veredicto e Na colônia penal sob o título Punições, tenho me pego seduzido pela ideia de que a metamorfose foi ao mesmo tempo uma solução formulada nos recônditos da mente de Gregor Samsa, um plano miraculoso que ele ocultou de si até o momento de executá-lo, ou melhor, inclusive no momento de executá-lo: durante o sono. Um estratagema digno de Ulisses, um cavalo de Troia às avessas. Para sair. Para escapar. A cidadela, no caso, seria a consciência por oposição ao inconsciente. Fazia-se imperativo dissimular o verdadeiro desígnio até o momento em que se consumasse. Só assim ele pôde, placidamente, descobrir-se metamorfoseado pela manhã, já que não se perdoaria a deserção moral em que implicava uma metamorfose além de voluntária, regressiva. É comum operações de alta complexidade excederem o horário previsto para sua conclusão, daí Samsa ter acordado com horas de atraso e, coisa estranha, sem ter ouvido o despertador tocar, isso num quarto pequeno. No primeiro capítulo de Notas do subterrâneo, Dostoiévski, autor que Kafka aliás lia e admirava, o personagem-narrador nos diz:

“Não consegui chegar a ser coisa alguma, nem sequer mau, nem mau nem bom, nem canalha nem homem de bem, nem herói nem inseto.”

Na abertura do segundo:

“Quero agora contar-vos, senhores, mesmo que não desejeis ouvi-lo, porque nem sequer consegui tornar-me um inseto. Declaro-vos solenemente que muitas vezes quis tornar-me um inseto. Mas nem disso fui considerado digno. Asseguro-vos, senhores, que o excesso de consciência é doença, uma doença verdadeira e completa.” – (tradução de Moacir Werneck de Castro)

O personagem-narrador de Angústia, de Graciliano Ramos, servidor público de baixo escalão como o de Notas, define-se assim:

“uma criaturinha insignificante, um percevejo social, acanhado, encolhido para não ser empurrado pelos que entram e pelos que saem.”

Cansado de ser o herói compulsório, o escravo necessário, a figura sacrificial voluntária indenizada apenas pela gratidão de seus dependentes, pressionado, esmagado pelos seus deveres de bom filho e bom irmão, Samsa teria acalentado até a fervura o desejo de transformar-se num ser reles e desprezível, de consciência básica, do qual nada se espera e nada se exige: um inseto. E consegue. O pesadelo é a realização de um sonho. Alguém deve ter caluniado Josef K., mas Gregor Samsa não contou com o mesmo estímulo externo.

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João Paulo Parisio (@jpparisio), nascido no Recife em 4 de setembro de 1982, é autor de Legião anônima (contos, 2014, Cepe editora), Esculturas fluidas (poemas, 2015, Cepe editora), Homens e outros animais fabulosos (contos, 2018, editora Patuá) e Retrocausalidade (romance, 2020, prêmio Pernambuco, Cepe editora), obras que o situaram entre os expoentes da literatura brasileira contemporânea. Apontado pelo crítico José Castello como “um dos principais nomes da nova geração de narradores brasileiros”, tem ainda textos veiculados em revistas, jornais e sites especializados.