ENTRE BREU E GERMINAÇÃO NO POEMA DE JOSELY VIANNA BAPTISTA – FÁBIO PESSANHA

coluna |  palavra : alucinógeno


a ideia de breu pode se alargar para o sentido originário de silêncio, vazio, nada. desdobramentos que carregam consigo a luz. palavra monossilábica, monotônica. harmoniza a cadência das falas antes de serem verbo; da linguagem antes de ser fecundação. o que vem antes do vazio é ele mesmo – o vazio –, o lastro de sua condição genesíaca. está junto com o que se redobra por luz e escuridão na recolha do broto. rompemos a analogia prosaica da ordenação do mundo quando, pela imersão nos ritos consagratórios da vida, nascemos para a iluminação no que nos reconhece entre terra e útero. germinação. talvez seja esse o percurso que trilhamos no poema “do zero ao zênite”, de josely vianna baptista.

do zero ao zênite

no tempo
em que os ventos
frios
eram sopros
(dobres)
fúnebres
entre as trevas
e o vazio

como um broto
que se abre
(só, sobre si,
com luz
dentro),
o deus
– do breu –
desdobrou-se

seu dorso
riscou no escuro
o ouro
de seu contorno,
do escuro
foi erguendo
o tronco
que se entrevou
no lúmen
do próprio
útero

do negrume
evolveu-se
(a flor de plumas
na fronte),
como sol
e nume e fronde
florescendo

a conspiração por um nome que traduza a musculatura do movimento concede à estirpe dos títulos poemáticos alguma blindagem contra a monotonia das elucidações. cumprir o destino do zero ao zênite é uma provação contínua, dada a potência da vida em conceber poemas que são, eles mesmos, uma vivência. fecunda-se por extensão a vida na vida pela poesia da poesia, a qual gera nos poemas dos poemas o circuito autopoiético do que seria, de outro modo, uma alucinação da linguagem. nada fica de fora dessa itinerância porque os desvios são próprios dos caminhos, assim como toda exceção é por outorga a prevalência máxima (não redundante) das regras.

a ideia do antigamente seria uma lembrança, do tipo das que a gente tem quando se olha para o horizonte, mas com a perspectiva lá para trás das recordações. um tempo dentro do tempo, ou seja, o do que se vê com os olhos e do que se vive com a experiência da memorial viagem às muitas vidas de uma vida. no entanto não se trata aqui apenas de uma constatação mnemônica, e sim da prática do tempo no corpo, sendo transição com ele. podemos pensar sermos um prazo recorrente de ambiguizações, às vezes, justaposições, quando no tempo / em que os ventos / frios / eram sopros / (dobres) / fúnebres / entre as trevas / e o vazio estávamos instalados na movimentação fraturada das casas, cujas portas habitavam a abertura para a profanação dos seus alicerces. sopravam pelas frestas junto aos escombros a frequência brisal dos cantos. se não fosse pela falácia dos sinônimos, poderia se pensar que entre trevas e vazio haveria plena equivalência. e há, assim como também não há, uma vez que apesar de algumas convergências semânticas, cada palavra instala a seu modo uma repercussão singular na instabilidade do tempo que nos é.

a gente vai aprendendo a ouvir a terra e o que ela nos oferece enquanto acolhimento, como um broto / que se abre / (só, sobre si, / com luz / dentro), / o deus / – do breu – / desdobrou-se. tal qual o filho que se aparta da barriga e excede a brevidade da parturiente estreia, o broto carrega consigo a temporalidade da maturação plena de existência. destino então seria uma palavra com muito pano pra manga ao se creditar nela a suposta invariável condição de presença. ser sozinho como muda, uma espera plantada no eixo evolutivo das mãos abertas às chuvas, arvorando o compartilhamento entre o dEUs e o brEU. em ambos mora a vigilância do ego. o eu se desdobra enquanto a luz abre caminho rumo a tudo que for aberto, tanto quanto vigora dentro do próprio inverno. eis aí – por que não? – a calamidade instalada na recolha temporal dos ventos, simultânea à procura pela sensualização da linguagem, dada sua incandescência.

do breu, o deus é a luminosidade concomitante com o ventre, o qual se desenrola na anunciação das vértebras desde sua condição de abrigo. como se encaixassem os ossos da coluna vertebral, um a um, do cóccix ao pescoço, seu dorso / riscou no escuro / o ouro / de seu contorno, num levante rizomático soerguendo a cabeça desde o chão, deixando um rastro dourado por onde as costas escoravam o escuro e ocupavam o instante propício para a sagrada invenção das palavras. beirava o sabor da terra na roça barroca da linguagem ante a constelação rítmica e aglutinante dos mitos cosmogônicos. cantavam. dançavam. a corporeidade sonora do verbo eram os gestos, o próprio corpo perfazendo a canção de seu nascimento, sendo louvado na consagração da descoberta, da assunção dos sete céus ou firmamentos, quando do escuro / foi erguendo / o tronco / que se entrevou / no lúmen / do próprio / útero.

felizes os seres que se alimentam das palavras reunidas pela ambiguidade, por serem repletas de lugares desviantes. se pelo paralisante sentido do entrevar fôssemos convidados a seguir, a leitura iria pela rota da asfixia. nesse sentido, ficar entrevado no lúmen do útero nos apontaria talvez para uma condição ao mesmo tempo resplandecente e paralítica de gestação, quando esta fosse abortada em sua respectiva proveniência. cairíamos no paradoxo da luminosidade, tanto oriunda das trevas quanto copertencente a elas. o nascedouro da linguagem, por sua vez, nos proporia o caminho da apropriação do verbo, mediante a contradição do ventre. de dentro dessa disparidade, o tronco tateia a negrura genesíaca e se ajusta à dinâmica germinante da vida, irrompendo desde o essencial colapso das sementes. tal como o caule que se alarga para cima, o corpo cresce numa coreografia de iminência brutal, em direção ao que amadurece e se espraia na natureza do sagrado.

levanta da raiz às mãos o princípio da existência. do negrume / envolveu-se / (a flor de plumas / na fronte), / como sol / e nume e fronde / florescendo. ganha o céu a ginga construída pelo levante das vozes em sintonia com o silêncio da terra. envolto num arquipélago de pétalas, o broto assim nascido tatua na casca do seu passado a geografia pertinente à peregrinação do canto, este que na poesia de josely entoa a longevidade ancestral dos povos indígenas da língua guarani, tão presentes no que os olhos de hoje têm dificuldade de enxergar. da fronte às folhagens, encadeiam-se as palavras cujo fôlego anuncia o tronco familiar de quem recebe a gênese do sol no florescimento numinoso do corpo, seja ele verbal, silente ou material.

p.s. vale muito conferir o livro Roça barroca (Cosac Naify, 2011), de Josely Vianna Baptista, no qual, além da publicação de poemas autorais – entre eles, o presente “do zero ao zênite” –, a poeta traduz três cantos sagrados dos Mbyá-Guarani do Guairá e compartilha um pouco da sua imersão na “sensualidade linguística” (termo que a poeta menciona) dos Guarani. em minha leitura para este texto, além de ter como maior referência o poema aqui citado, transitei por alguns outros dizeres da poeta-tradutora, ampliando o quanto fosse possível (ainda que dentro desse nosso pequeno limite litúrgico-palavral-alucinógeno) as imagens para fins de alguns, quem sabe, amanhecimentos poéticos.

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Fábio Pessanha (Instagram / Facebook) é poeta, doutor em Teoria Literária e mestre em Poética, ambos pela UFRJ. Publicou ensaios em periódicos sobre sua pesquisa, a respeito do sentido poético das palavras, partindo principalmente das obras de Manoel de Barros, Paulo Leminski e Virgílio de Lemos. É autor de A forma fugaz das mãos (Patuá, 2021), A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos (Tempo Brasileiro, 2013) e coorganizador do livro Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento (Tempo Brasileiro, 2011). Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Diversos Afins, Escamandro, Ruído Manifesto, Sanduíches de realidade, Literatura & Fechadura, Gueto, Escrita Droide, Gazeta de Poesia Inédita, Mallarmargens, Contempo, Poesia Avulsa, Quatetê, Arara, 7Faces, InComunidade e na própria Vício Velho.