DO POGO AO LEGO OU O GELO DE EGAN – JOÃO PAULO PARISIO

Coluna | Sentido


(considerável concentração de spoilerina)

Há, em contraste com seu tema aparentemente sombrio, um intenso colorido em A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan. Inclusive os tons de um safári tragicômico e afrodisíaco que nos reporta a um conto magistral de Hemingway, cujo título também alude ao tempo: A vida breve e feliz de Francis Macomber. Sabemos: o cara que desce do jipe e é atacado pela leoa não vai morrer. As pessoas morrem neste livro, mas não desse jeito. Desse jeito podem morrer em Hemingway. American hemingway of death. Em Egan, a natureza selvagem (inclusive a contida nos homens) não mata as personagens, o que as mata é a desnaturação civilizatória. Por falar da Geração Perdida, há momentos do livro que lembram O grande Gatsby; a efervescência de champanhe da vida social da aristocracia, a estagnação de pântano da sua vida interior, a afetação com que pretendem ocultá-la, a felicidade de proveta calcada num sentimento de distinção insalubre, só pode resultar da morbidez da cultura, do mal-estar na civilização.

Em A visita cruel do tempo, toda a análise acurada do humano, do sucesso e do fracasso, do talento e da mediocridade, do desejo e da anedonia, da popularidade e do isolamento, entretanto, parece revestida por uma camada de glacialidade anglo-saxônica, remete-nos à austeridade de uma Jane Austen. Até a savana escaldante e a praia caribenha de Egan parecem recobertas por banquisas coloidais que os personagens, de baixo, tentam romper, como focas árticas que precisam de uma abertura no gelo para respirar no auge do inverno. Para quebrar, é preciso certa rigidez. O gelo de Egan é fluido, elástico, uma placenta que aprisiona os seres em um mundo mal oxigenado. Todos sofrem de algum grau de hipóxia. Com a visita cruel do tempo, eles começam a sufocar. A se dar conta dela. Não é a simples nostalgia do perdido, mas o sentimento de ter sido enganado sobre o que era alegria, êxtase, triunfo, felicidade.

Diferente do que nos acontece lendo Hemingway e Fitzgerald, nem por um instante acreditamos que aqueles personagens realmente estejam lá, naqueles lugares, nem por um instante acreditamos que eles acreditem estar naqueles lugares. São incapazes disso, levam a qualquer lugar a própria atmosfera, a própria bolsa placentária fora da qual não saberiam existir. A prolongada imersão no mundo que inventamos e nos englobou torna-nos astronautas em qualquer ambiente fora dele, com os respectivos traje e capacete. Vemos – através de um visor. Tocamos – através de luvas. Como se um japonês, após frequentar a vida inteira as praias artificiais do Japão, fosse pela primeira vez a uma praia natural do Japão (uma constelação de não sei quantas ilhas!) e tivesse a sensação sagaz de que aquilo era uma praia artificial artificial. Como uma criança de biscoitos e salgadinhos apresentada a uma fruta cujos sabor e aroma são reproduzidos dentro das embalagens. Olha-a com desconfiança, aversão, escândalo, hilaridade, certo sarcástico ceticismo de quem suspeita que estão querendo é lhe pregar uma peça barata. O natural parece-lhe demasiadamente alienígena – viscoso, peludo, indecente, almiscarado. Miscigenação indecente de simetria e assimetria.

Sim, o livro de Egan se passa no mundo todo, ciranda de paisagens e personagens. Dolly e Lulu experimentam uma carambola: o que se diz sobre ela, carambola, não é específico a ponto de sabermos não se tratar de uma reprodução sintética de carambola, fabricada num futuro em que já não existem carambolas e os cientistas, ou os robôs, ou as consciências sintéticas, tentam reconstituí-las a partir da mídia disponível, objetivo para o qual A visita cruel do tempo não colaboraria muito. Em liberdade condicional, Jules faz palácios de Lego para o sobrinho. Todos os personagens intuem em algum ponto: tudo não passa de Lego, embora doa de verdade pisar descalço numa peça esquecida na sala escura quando buscávamos a fluidez da água dentro da fluidez do organismo depois de um sonho que nos deixou com a boca seca. Assim a vida nos fere com seus constructos, seus despojos, suas ruínas. Cacos de vidro no estômago.

Scotty nos fala da distância infinitesimal entre ser ele, um músico fracassado que virou gari ou zelador, e Bennie, seu amigo da escola (e da banda da escola), hoje um produtor musical, um alto executivo da música: tudo é Lego. Da sala de Bennie dá pra ver a cidade inteira. Parece um laborioso brinquedo, repara Scotty na tarde em que vai visitá-lo e o presenteia com sua lanterna de Diógenes, um peixe formidável das águas poluídas perto de Manhattan, escorregadio como a verdade. Como quem diz: é isso o que eu te lego, e a diferença entre esse peixe e o que você pode legar, digamos, a seu filho, tende a zero. Os buracos dos dentes caídos de Scotty são janelas para o abismo circundante, post-its pretos onde nada pode ser escrito sem afundar em seu piche. Tudo é abismo com cenários pintados por cima. Tapumes, perfumaria. Suas janelas são falhas nos pixels da realidade consensual.

Desse caráter holográfico e sua percepção por certos personagens do holograma, A visita cruel do tempo retira uma paradoxal energia. Como a descoberta, numa crispação da frigidez, do orgasmo. É um livro que nos faz rir alto em alguns momentos, mas depois olhar ao redor temendo os ecos medonhos de um palácio de cristal. E pensar que tudo começa para eles, os personagens, com moicanos, drogas e rodas de pogo em shows frenéticos. Qualquer barbárie já é um pouquinho de saúde, ainda que em ambientes controlados, em condições preparadas para essa espécie de efusão. Punk. Eis o punk.

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Tóquio, algum lugar da China, Nápoles e o Vesúvio. Também estão naquelas páginas. Porém em Nápoles, em Nápoles uma agulha perfura de dentro pra fora. Alguma pomba gira naquelas praças enfestadas, imundas, encardidas, enquanto Ted Hollander procura e encontra a sobrinha Sasha em meio à profusa decadência: a agulha no palheiro furou a placenta. Com a família desta mesma Sasha, vinte anos mais tarde, a seiva da vida também aflora. As banquisas coloidais derretem, escorrem, leitosas, como sêmen após um tempo sobre a pele morna e ainda arrepiada. Delas emergem as placas solares fazendo tai chi chuan ao luar, um exército de monólitos sem testemunhas além das estrelas do deserto e dois macacos-homens, a apresentação de slides de Alison Blake compondo um capítulo inusitado e lapidar. Se isso é uma resenha, acho que estou fazendo o blues ou o jazz de uma resenha. Minha editora sabe quanto estou demorando a entregá-la, mas amanhã eu a escrevi.

A visita cruel do tempo trata do aparelhamento de tudo. Inclusive do desejo, inclusive do amor. Tinha que ser Sasha a romper com as banquisas coloidais. Seu hábito de roubar coisas inúteis e colecioná-las como uma ave-do-paraíso, mas sem o intuito de atrair o sexo oposto, é um gesto de genuína rebeldia contra esse onipresente e onipotente aparelhamento que nos ausenta e despotencializa. Ela não sabe por que rouba e rouba sem por quê: justamente porque não há um porquê. Esse é o motivo do crime: a gratuidade. Elementar, meu caro Sherlock. Sasha rouba de graça, sem pedir nada em troca. Sasha é uma santa. Santa Sasha. Padroeira dos cleptomaníacos. Sasha é uma deusa. Há templos dedicados a ela em cidades-estado e uma dessas cidades leva seu nome; Sasheia, Sashópolis, Sashagrado, Sashopla. Lá está sua estátua, com a chave de fenda na mão, lá estão suas relíquias, muito bem escondidas em localizações populares.

Os contrabandistas interdimensionais que tentam roubá-las para revender aqui na Terra, por exemplo, a colecionadores de Manhattan que também têm mechas de cabelo da peruca de Andy Warhol e sisos de Hitler, são sumariamente atirados às mechas ruivas da pira no centro da nave escura. Se alguém tenta roubar simplesmente por não resistir a isso, entretanto, é conscrito como sacerdote de Sasha. Tem os cabelos pintados de vermelho e passa a ser um sashalói. Mas só permanecem no ofício o tempo que quiserem. Por isso alguns ficam a vida inteira e são longevos. Quase todos mulheres, diga-se de passagem. Várias personagens de Lispector e Lygia ficaram por lá, ao cabo de longas peregrinações.

Roubar é monstruoso? Então Sasha rouba por mais teratomorfismo e menos teleologia numa época em que tudo deve ter finalidade, proveito, gerar lucro, celebridade. Ter talento e não torná-lo público, imperdoável? Então Scotty o faz por mais vida íntima, sumarenta, e menos marketing numa época em que cada um é um agente de notícias de si emitindo incessantemente notas nas redes sociais, sobre a própria vida e a morte dos outros. As condutas de Sasha e Scotty são formas radicais de, neste mundo sublunar, reencantá-lo, despragmatizá-lo, uma atitude à Manoel de Barros: fabricar inutensílios. Sasha e Scotty são cripto-heróis da dita pós-modernidade, inclusive quando ela encontra a beatitude doméstica em algum lugar remoto da Califórnia e ele é subitamente alçado ao estrelato pelo mesmo aparelhamento universal a que fugiu a vida inteira, como uma flor de lótus erguida em direção ao sol por Vishnu, conectada a seu umbigo por um cabo HDMI.

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João Paulo Parisio (@jpparisio), nascido no Recife em 4 de setembro de 1982, é autor de Legião anônima (contos, 2014, Cepe editora), Esculturas fluidas (poemas, 2015, Cepe editora), Homens e outros animais fabulosos (contos, 2018, editora Patuá) e Retrocausalidade (romance, 2020, prêmio Pernambuco, Cepe editora), obras que o situaram entre os expoentes da literatura brasileira contemporânea. Apontado pelo crítico José Castello como “um dos principais nomes da nova geração de narradores brasileiros”, tem ainda textos veiculados em revistas, jornais e sites especializados.