FÉ CEGA, FACA AMOLADA – THÁSSIO FERREIRA

Coluna | Alguma coisa em mim que eu não entendo


(para Ana K, Bituca e Gal)

Eu andava à procura de Deus — e me indagava se Ele andaria à minha procura, pra tanta gente sinais em profusão, esse fervor nas gargantas, teimosias que lembravam a infância, como diabos (ops) nos havíamos desprendido uma do Outro? 

A mãe, que Ele a tenha, sempre dizia ser no tombo do caixote que a gente valoriza o fôlego. E haja caixote ultimamente, parecia. Terapia ajudava, claro, os voos sem amarras na oficina de escrita também, mas era como se os pulmões quisessem inspirar algum fôlego maior que não vinha, sabe? Cadê? 

Quem não viveu aquele outubro nunca vai saber, da agonia em cada esquina, do estrago de quatro anos e a sombra de mais, como pode, aquela falta de Deus era diferente da minha, tão cheia do Nome nas bocas mas tão sem Ele nas mãos, acho que só fazia aguçar minha busca, por favor, e ainda guerra quase nuclear, e ainda incêndio na floresta, o trem de tudo descarrilhado e tome labuta, no bolo de areia e sal generalizado eu me agarrando em algas pra conseguir dar aula, tentar ser horizonte em vez de engrossar o caldo das seis turmas acumuladas porque a Lola não tinha dado conta, pediu licença.

Então assim: na correria coletiva eu pendurava meus sufocos pessoais, enquanto por baixo a correnteza, clarão de sol e fundo de mar, onde Deus, porra, se ao mesmo tempo não não não não podia ser nas línguas tortas desses muitos, mas devia de sim na força pedra de muitas outras, teimando sorriso e partilhando o pão, lá na turma da sopa, no pré-vestibular noturno, na ocupação da Evaristo. 

Eu procurava. Quem procura acha, a mãe dizia também. Passei a botar reparo nele, com cuidadinho, tentando observar, já que padre, por coincidência meu aluno, um talvez, uma chance, como diz a Bíblia mesmo? O caminho, a verdade e a luz? Vai que. Mas quase sempre calado, bem (cor)retinho. Até quarta-feira.

Atrasada pra aula, mas a tempo do encontro, que acontece sempre na hora justa, ou não acontece. Não pesquei sobre o que conversavam. Ao entrar na sala e deixar a bolsa sobre a mesa, tive meu bom dia respondido por ele com o olhar em arco, dos colegas até mim: “Não, assim, não tenho nada contra homossexuais; tenho amigos que até são.” Terminou de falar e ficou me encarando, aparentemente na espera de uma resposta. Padres devem ter um apreço especial pela hierarquia. Atenção atenção, falei, agora tu, Professora.

Dois mil e vinte e dois. E ainda esse discurso que chega a parecer irreal de tão encaixado, as m-e-s-m-a-s palavras, lenga-lenga de apesar de, que até isso, até aquilo, nada contra, nada contra mas um nada carregado de tanto que não se diz. A bondade uma soberba. Concedo-te a graça da minha amizade, e por ela eu te salvo. 

O cansaço carburou-se chama, expandindo desde o estômago até o palato. Contra o que ele não dizia nas frestas daquele nada contra, eu haveria de dizer. “Pois não se preocupe, muitos homossexuais têm amigos que até são heteros, até padres!, e também não têm nada contra vocês.”

Depois, vieram-me imagens. Jesus expulsando os vendilhões do templo, lavando os pés dos discípulos, defendendo Madalena. Mas isso eram histórias, as que se contam desde muito tempo pra tentarmos entender e passar adiante o que na hora foi apenas certeza no miolo da afronta, sem narrativas: Deus.

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Thássio Ferreira
 é escritor, autor de (DES)NU(DO) (Ibis Libris, 2016), Itinerários (Ed. UFPR, 2018), agora (depois) _(Autografia, 2019) e Nunca estivemos no Kansas (Patuá, 2022). Tem poemas e contos publicados em revistas e antologias, como Revista Brasileira (nº 94), da Academia Brasileira de Letras, Escamandro, Gueto, Mallarmargens, Ruído Manifesto, Germina, Revista Ponto (SESI-SP), aqui na Vício Velho, InComunidade (Portugal), e outras. Seu conto _Tetris foi o vencedor do Prêmio Off Flip 2019, e seu livro inédito Cartografias, finalista do Prêmio Sesc 2017. Foi editor e curador da Revista Philos de Literatura Neolatina. Mantém página no Facebook e o Instagram