(2023)

Coluna | Alguma coisa em mim que eu não entendo


 

um poema fresquinho de fim de ano puxando fios from other poets


(2023)

eis 2024
mas voltemos

a 22, ano em que
a poesia brasileira
chega a importantes
cais do passado

luiza romão (depois de
sangrar e enquanto
assassina nadine)
guarda pedras
de desespero
nas veias abertas
deste corpoamérica
latendo

rob packer
desanuvia ventos
que se entrelaçam
de há muito
entre a coroa
britânica
e os mares do sul
— por exemplo:
a primeira
bolha da bolsa
de londres teve
por causa um navio
negreiro

(não chequei as fontes
mas trabalhei com rob
num financiamento
sociossustentável
— é difícil fugir
ao capitalismo
— confio)

não dá pra dizer quanto
pequenos livros
iluminaram o porto
(frágil e movediço)
a que chegamos em 23
mas o clichê a coincidência
têm seu valor quando
o momento mais escuro
vem antes de alguma
aurora

no podcast
da revista dos livros
carola saavedra
(prosadora que
se fez poeta
também em 22)
compara tradutores
a xamãs:
o trabalho de ambos
transformar-se
em outro ser, ouvir
os outros
seres como um
deles, e ao voltar
a ser quem é
tentar dizer com
palavras nossuas
a fala alheia
— neste processo
sempre algo se perde

num poema sobre
poemas
sempre algo
se perde

talvez o norte
o medo talvez

sempre (em tudo)
algo se perde

_______________________
Thássio Ferreira
 é escritor, autor de (DES)NU(DO) (Ibis Libris, 2016), Itinerários (Ed. UFPR, 2018), agora (depois) _(Autografia, 2019) e Nunca estivemos no Kansas (Patuá, 2022). Tem poemas e contos publicados em revistas e antologias, como Revista Brasileira (nº 94), da Academia Brasileira de Letras, Escamandro, Gueto, Mallarmargens, Ruído Manifesto, Germina, Revista Ponto (SESI-SP), aqui na Vício Velho, InComunidade (Portugal), e outras. Seu conto _Tetris foi o vencedor do Prêmio Off Flip 2019, e seu livro inédito Cartografias, finalista do Prêmio Sesc 2017. Foi editor e curador da Revista Philos de Literatura Neolatina. Mantém página no Facebook e o Instagram

Imagem @Melinda Josie