Coluna | Sentido
É uma síndrome. A sensação de que só você está exposto. De que há uma marca, um estigma, que todos podem perceber, mas não mencionam. Lançam olhares sardônicos, riem de você. Você não consegue ficar à vontade. E retroalimenta a síndrome. Precisa de horas de solidão por dia para se recompor, reparar os tecidos. Você é um troll. Todo dia te ferem, te deformam, te queimam, jogam ácido na sua cara, mas pela manhã lá está você, intacto, invicto. Você é um herói. Mas há as cicatrizes, as quelóides, novos estigmas. Num ciclo. Em loop. Não tem escapatória. Você está preso, uma prisão de imagem e autoimagem que se refletem, espelhos. Não há escapatória. Todos são carcereiros. Você é um carcereiro. Você está investido disso, você veste a armadura disso, você é um paladino disso, de não se ser. Compulsório, a contragosto, amargo. Mesmo quando você pensa respirar, nos cumes da madrugada — até os do desespero —, é através do elmo, mesmo quando você pensa ver, é através da viseira. Não é respiro, é só um espirro. É uma síndrome. Ainda sem nome. Você dá risos amarelos, fica vermelho, olha para baixo. O pior é isso. Baixar os olhos. O que você rumina, o que você remói, de olhos baixos, como um boi, é ter baixado os olhos naquela hora. A cena que você refaz é essa, a resposta que você não deu, a reação que você não causou, o triunfo que você não desfrutou. É uma síndrome. Há especialistas em bicar seu fígado, sentem o cheiro dos hormônios da síndrome a quilômetros. Os rapazes, os rapaces, as moças. Os abutres debicam o albatroz em vida, as águias degustam o fígado da águia viva. A vida nunca pode ser o que prometeu, a não ser numa solidão de rochedo do Cáucaso. Você só cresce e se expande na solidão, você só baila na solidão, ébria pajelança de si. Em comunidade você definha, murcha, deforma-se, desaparece e deixa uma casca de cigarra em seu lugar, com um cigarro na boca e um copo de cerveja na mão. É uma síndrome. Você não espera chegar em casa, em segurança. Você começa a remoer ali mesmo, a refazenda dos fatos, na mesa do bar, na reunião de família, no trabalho, na escola, na faculdade, na praia com a galera, e isso te deixa indefeso, de guarda baixa; por causa disso cravam mais bandarilhas em teu lombo extenuado, você é o doidinho do jogo de bola, você é o joão-bobo, você é o touro sangrando nas arenas de México, de Espanha. Só você acredita nisso, mas os outros percebem que você acredita e investem, fazem ser verdade. Mas sua espinha não quebra, sua cerviz não curva. Você sabe: eles têm uma síndrome, complementar à sua.
____________________
João Paulo Parisio (@jpparisio), nascido no Recife em 4 de setembro de 1982, é autor de Legião anônima (contos, 2014, Cepe editora), Esculturas fluidas (poemas, 2015, Cepe editora), Homens e outros animais fabulosos (contos, 2018, editora Patuá) e Retrocausalidade (romance, 2020, prêmio Pernambuco, Cepe editora), obras que o situaram entre os expoentes da literatura brasileira contemporânea. Apontado pelo crítico José Castello como “um dos principais nomes da nova geração de narradores brasileiros”, tem ainda textos veiculados em revistas, jornais e sites especializados.
Imagem: Canva
