A ELASTICIDADE DA LÍNGUA DO SAPO – LAÍS REIS

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Por Laís Reis

Língua é uma palavra escorregadia, às vezes, com a boca seca é difícil ter saliva para explicar seu sentido. Mas, cabe a nós o desafio de tentar descobrir qual é a elasticidade da língua do sapo.

Língua.

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Quando se lê língua, em que língua se pensa?

Língua materna.  Língua de contato. Língua dominante. Língua comprida. Língua solta. Mostrar a língua. Má língua. Língua afiada. Papas na língua. Dobrar a língua. Engolir a língua. Queimar a língua. Língua morta. Língua oficial. Língua padrão. Língua tonal. Língua escrita. Língua estrangeira. Língua falada. Trava-língua. Trocar de língua. Língua nos dentes. Cunilíngua. Interlíngua. Metalíngua. Puxar pela língua. Na ponta da língua. Beijo de língua. Falar a mesma língua. Língua de gato. O gato comeu sua língua?

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A língua resiste porque é mole, segundo um provérbio chinês, e os dentes se vão, porque são duros. As diferenças entre
língua e linguagem suscitam interessantes discussões. Na língua dos linguistas, se ouvimos Saussure, a língua é um produto social da faculdade da linguagem, não sendo confundida com ela, apesar de lhe ser essencial. Ademais,  é “um sistema de signos distintos correspondentes a ideias distintas” e é comparável, por isto, à escrita, ao alfabeto dos surdos-mudos, aos ritos simbólicos, aos sinais militares etc.

Vocês se recordam sobre os signos? Na Semiótica do Corpo Lânguido dos Gatos, último artigo aqui, eu comentei sobre eles. Se a língua é especificamente um sistema, a linguagem pode ser “qualquer sistema de signos”, não só vocais ou escritos, como também visuais, fisionômicos, sonoros e gestuais, capazes de servir à comunicação entre indivíduos. Assim, a linguagem é a habilidade criadora e não o produto.

Na língua dos poetas, já que essa é uma coluna sobre poesia, Stela do Patrocínio, diz: “só depois da relação sexual é que eu posso carregar tudo pela língua e pela boca”.

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Sapo-boi a postura dos ovos, Slow motion, Atividade no brejo depois da chuva, Anfíbios,

Na língua dos sapos, ou dos anfíbios anuros, de acordo com o Google, também “(…) chamado de vocalização. Na grande maioria das vezes, é o macho quem vocaliza e esta é uma forma de defender territórios e atrair fêmeas. A vocalização pretende comunicar outro macho quanto ao seu tamanho, força e, possivelmente, idade. O que significa que superou as adversidades do ambiente e conseguiu sobreviver, sendo um oponente forte e que em um combate físico seria o vencedor”.

O coachar do sapo cururu(Rhinella jimi) ;  Sapo coaxando;

P77pmAA metamorfose dos sapos é curiosa. Ver os girinos, serezinhos tão pequeninos, tornarem-se sapos gordos e sudorentos me intriga. Num momento suas brânquias se movendo com leveza e graça, depois quando saem da água, fecham-se as fendas laterais e eles passam a respirar pelos pulmões e também pela pele, em troca de gases.

Metamorfose de Rã Touro; Metamorfose dos anfíbios, girinos, sapos, Amphibian metamorphosis, tadpoles, frogs,

A língua dos sapos, de acordo com alguns sites especializados no assunto que podem ser encontrados no Google, pode alcançar até 60 centímetros e as mais diversas alturas.

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Giant African Bullfrogs eating everything in sight (including mice) (atenção esse vídeo tem imagens fortes)

A vocalização me recorda as discussões sobre fala, que também é posta em contraste com a língua. Roland Barthes completa a definição de Saussure definindo língua como a linguagem menos a fala. Há muitos estudos recentes acerca da fala, uma vez que se diz que esta foi preterida pelos estudiosos em lugar da língua. Um dos grandes debates da atualidade, inclusive, tem sido isso do lugar de fala, vocês certamente já ouviram falar.

A comunicação, por sua vez, é o transporte de uma informação de um ponto a outro. A linguagem é o meio pelo qual é feita a transferência dessa informação, enquanto a língua é a forma que se apresenta. Para os teóricos e linguistas, a primeira condição, com efeito, para que a comunicação possa estabelecer-se é a condição da informação, isto é, a transformação da mensagem sensível e concreta em um sistema de signos, ou código, cuja característica essencial é ser uma convenção preestabelecida, sistemática e categórica.

Mas, afinal de conta, qual o sentido disso tudo?

Achei importante confundir bastante a cabeça de vocês, antes de poder falar a respeito de vídeo-poesia, já que é outra polêmica justificar porque é considerada poesia e não vídeo clipe? vídeo arte? E por que estou falando de sapos? Bem, a elasticidade da língua do sapo foi a metáfora que escolhi para percebermos a polissemia dos signo, ou seja, a capacidade de ter muitos significados, e, assim como “editamos” na nossa cabeça e escolhemos um sentido para língua, também editamos um sentido para outras palavras.

Se eu falasse a língua dos anjos… como já diria Renato Russo, vocês pensariam em que língua? Mas, se eu falasse a língua dos sapos… já seria outro papo…

Ser elástico é ser incorruptível, mesmo que não exista essa palavra. Porque o elástico é algo que não se rompe, mas que permite ser flexível,  e assim, como nos processos de significação, nós conferimos sentido a partir do contexto em que aquela palavra está inserida sendo, por isso, o signo arbitrário.

Do ponto de vista da semiótica, em O Discurso da Poesia Concreta, de Pietroforte, “o sentido é gerado em relações formais, capazes de garantir sua manifestação em determinado sistema semiótico; não se trata do pensamento humano, que se manifesta em sistemas de signos diferentes, mas da formação do sentido – inclusive do sentido do pensamento – por meio de relações semióticas, das quais emana a própria significação.”

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Mas isso aqui não é uma coluna de poesia? Está parecendo uma aula de linguística… Bem, vou pedir uma última ajuda, antes de passar a uma parte mais prática. Para o professor Pietroforte: “
a poesia (…) é feita com palavras, desde que se entenda palavra como signo lingüístico, e não como a relação entre ‘sons’ e ‘coisas’.” Por isso, “na semiótica greimasiana – herdeira do pensamento de Saussure – o sentido se forma na relação entre um signo e outro signo, estabelecida em processos discursivos, e não na relação entre palavras e coisas. Uma palavra, portanto, não é um som que se refere a uma coisa, mas uma relação semiótica entre um significante – de ordem fonológica – e um significado – de ordem semântica. A relação entre significante e significado dá forma ao signo, que por sua vez se define em relação aos demais signos dentro do mesmo sistema semiótico.”

Assim, “(…) a poesia se faz com palavras, seja em sua forma fonológica, seja em sua forma semântica.”

Ufa!

A materialidade do texto poético na vídeo-poesia é um tema que vou procurar explorar nos próximos artigo. Para hoje, quero finalizar comentando a respeito da elasticidade do tarefa do editor. Se as possibilidades de significado, como vimos até agora, podem ser inúmeras e variáveis, quando se realiza a edição de um material, acaba-se, de certo modo, por estabilizar ou fixar uma forma e, assim, a condicionar a interpretação daquele material de acordo com os elementos escolhidos e apresentados pelo editor.

Na Filologia, dentro do campo da Crítica Textual, um editor precisa ser como a língua de um sapo, elástico para dar contas dos muitos problemas que apresentam a preservação das obras literárias. Tudo isso sem corromper a obra. No capítulo “Editing Textsde The powers of philology, Hans Gumbrecht conta a história do editor Ramón Menéndez Pidal, renomado filólogo espanhol, que foi reconhecido por muitos como o fundador da tradição filológica nacional na Espanha, e também por ter reunido e estabilizado a poesia medieval.

Apesar de suas contribuições, Pidal foi acusado de manipular os poemas, publicando uma edição de um texto compósito que não condiz com a realidade dos textos originais que, por sua vez, apresentariam muitas lacunas e, por isso, seria muito difícil alcançar aos resultados que o editor alcançou. Alguns, ainda, afirmam que Pidal inventou, ele mesmo, alguns versos como solução de alguns dos problemas que enfrentava na edição do material. Gumbrecht não condena o editor, porque acredita que os papéis de autor e editor podem se confundir e é exatamente essa confusão que procuro explorar em meu trabalho artístico, por meio da apropriação de materiais que já existam.

“Eu quero a explosão”, foi uma dessas tentativas de explorar na prática um pouco mais dessa discussão. O poema, publicado em Todo poeta mente sincera mente, de Marcus Cardoso é um poema que teve sua materialidade e forma fixada pelo próprio poeta, em um livro de papel. A variedade de significados que poderiam ser compreendidos a partir dessa escolha no tipo de suporte, são descartadas de antemão, uma vez que tradicionalmente é essa a forma que a poesia é veiculada e foi naturalizada.

Por outro lado, quando proponho uma tradução deste mesmo poema para um vídeo-poema, chama a atenção o suporte escolhido e, embora o texto do poeta esteja preservado integralmente no conteúdo, oferecem-se outras possibilidades de conferir sentido e, sabendo que  o sentido se forma na relação entre um signo e outro signo, é aí que age o meu trabalho de edição, que “desvirtua” a obra, do ponto de vista purista de seu sentido original, mas que o torna acessível por meio da criação de outras possibilidades de significação.  

Quando propus ao Marcus fazer um vídeo-poema de seu poema, pedi que ele gravasse a voz.  Mas, como boa leonina que sou, não deixei ele ler do jeito que queria (talvez esse seja o lado Pidal que existe em mim), e depois de várias leituras gravadas, criei uma versão que não existia e que reunia partes editadas de diferentes faixas por ele produzidas.

Então, não entendo bem dizer que “estragou” um poema, ou “melhorou” um poema, porque o poema está lá, igual.Todas as palavras como o poeta tinha decidido. Neste caso, a manipulação que eu exerço na edição pode colocar em questão o papel do autor. Entretanto, o vídeo-poema só seja possível graças ao poeta, já que foi uma apropriação de seu material.

Por fim, já que o conteúdo do texto foi preservado no suporte de vídeo, inclusive a partir da voz do próprio poeta, restaram espaço para inserção de imagens, sons, movimentos de câmera e outros recursos próprios deste tipo de suporte e dos programas de edição que são utilizados para essas criações.

A escolha dos elementos que preenchem esses espaços partiu da minhas próprias escolhas estéticas de apropriação de materiais, procurando não só preservar o poema do poema, mas outros conteúdos que estão disponíveis na rede. O recorte de apropriação de material do youtube para as imagens em vídeos, como esses que coloco no artigo, a edição de música e outros ruídos, a combinação com a voz do poeta,  foram escolhas minhas.

Ainda que tenha procurado dialogar com o poema, jamais será possível dizer que é a mesma coisa, assim como qualquer edição, afinal é possível que a combinação de novos elementos gere sempre outras possibilidades de interpretação, e isso, ao meu ver, é o que é o mais legal.

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Laís Reis 
(Facebook), nascida em São Bernardo do Campo em 1989. Tem formação em Letras, Português e Latim Clássico, pelas Universidades de São Paulo e Coimbra e realiza mestrado na mesma universidade em Filologia Portuguesa, estudando a vídeo poesia de Ernesto Melo e Castro. É poeta e proprietária do canal do Youtube Deslise. Participou da Cooperativa da Invenção: Poesia e Tecnologia (2017) e Curso Livre de Preparação de Escritores (CLIPE – 2019), na Casa das Rosas onde também realizou a performance Estigmacão. Publicou “Faixa 2” (poema Ctrl Golpe) na revista Ctrl+Verso (giostri 2017) e recebeu o prêmio de melhor vídeo-poema no concurso Desvairada de Poesia 2017 e 2019, com os vídeos “Poema de Verão, “Eu quero a Explosão” e “Ferramentas da Queda”.