A NATUREZA CELULAR DO ENCONTRO – CAMILLA LORETA

|Palimpsesto
Por Camilla Loreta

Na arte do Haikai existe um conceito: “kakekotoba”, ou “palavra pendurada”. Segundo Paulo Leminski, em seu livro Vida, em que ele discorre uma bela biografa sobre o escritor japonês Matsuo Bashô – ninguém menos do que o pai do Haikai -, kakekotoba seria a passagem de uma palavra dentro da outra, uma passagem que deixa uma lembrança, perfume. Ele traz o exemplo de três palavras:

Shiranámi – ondas brancas

Shiránu – desconhecido

Námida – lágrima

Esse conceito trouxe desdobramentos nunca antes experienciados, um olhar novo para as palavras e seus usos, pois, como ele mesmo diz: a função do kakekotoba consiste em ligar duas ideias diferentes mediante um giro ou desvio do seu significado próprio.

Então não se trata de rimar, ou apenas de ritmo. Torna-se palavra som, palavra imagem. O significado de onda, desconhecido e lágrima, ao estarem relacionadas por uma célula em comum, cria um significado próprio da relação entre. E não é por adição, mas sim por lembrança e encontro. Palavra memória.

O significado – aqui a interpretação já é minha, e não mais de Leminski – se cria em nova atmosfera, uma sensação própria daquele encontro entre células e significados próprios de cada palavra.

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No final de semana do dia dos pais, minha família resolveu viajar para comemorarmos também o aniversário, veja só, do meu pai, segunda-feira ele completaria 60 anos. Estamos no meio de uma pandemia, então seguimos ordens médicas, nos isolamos de modo radical antes de viajar, realizando uma quarentena firme para não expor as pessoas que iriamos receber. Caminhamos para a floresta, na certeza que seria mais do que adequado acolher essas seis décadas de muitos acontecimentos, meditações, carinho e tantas coisas mais em contato e escuta em um local de sons e odores diferenciados do que estava no nosso dia a dia, que era cidade grande.

São Paulo ficou para trás, chegamos a São Francisco Xavier com pequenos atritos no carro, provenientes do duro convívio de pandemia a sair pelo ladrão. Na frente do portal da cidade descarregamos os pesos imaginários, e a cidade nos acolheu, as montanhas logo nos recordaram nosso pequenino tamanho. Havia um cavalo próximo da casa em que ficamos, todo pintado, com manchas pretas e pelo branco que me chamou particularmente a atenção. Até o momento ando tentando entender por quê. Mas era belo, muito belo, e um pouco cômico também, como se alguém tivesse feito pequenas manchas por aí, mesmo que fossem de modo bem cuidado, pois as manchas também eram bonitas, mas não deixava de ser cômico imaginar alguém pintando seu cavalo branco.

agosto-72

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No segundo dia em que ali estávamos, decidimos visitar o Mirante do Cruzeiro. Era uma trilha de quase sete quilômetros, basicamente metade dela, entre três e quatro quilômetros, era de subidas íngremes. Segundo minha mãe, que trabalha na área ambiental e sabe bem desses assuntos, a trilha poderia ter sido feita em zigue-zague para poupar nossas pernas. Somos quatro pessoas (pai, mãe, irmão, irmã) muito das corajosas, então enfrentamos os quarenta e cinco graus com persistência e companheirismo.

Era curioso que, logo no início da trilha, havia tantos pinheiros que cheguei a comentar com a minha mãe: Parece que estamos na Polônia.

Os pinheiros são árvores muito bonitas, apesar de serem invasoras do nosso ecossistema, são árvores de porte grande, cheiro delicioso e folhas curiosas. Não é culpa deles a invasão, mas dos humanos que os trouxeram, e que continuam a plantar essa espécie que se espalha em um instante pela mata atlântica.

Seguimos no caminho.

Levei minhas duas câmeras numa mochila e fotografei muitos pontos, além de ter filmado também. Foi de uma emoção grande poder fotografar meu pai quase virando a década. Que homem forte. Subindo na frente de todos, com um fôlego invejável, sem reclamar, sem falar, num silêncio bonito de respeito. E, enquanto eu seguia atrás dele, também em silêncio, surgiu em minha mente a lembrança de kakekotoba. Tinha uma aula para dar na segunda-feira e iria explicar para os alunos sobre isso e outros conceitos mais do Haikai. Comecei a pensar em exemplos para dar para eles, pois os exemplos que já tinha anotado eram todos traduções do japonês, como citei acima. Minha ideia era propor que os alunos e alunas jogassem o jogo do Renga, que é um modo de escrita que precede o Haikai, inclusive a palavra Haikai deriva de Hakku, que é a primeira estrofe proferida no jogo do Renga. O jogo funciona de uma maneira muito similar ao improviso nordestino do repente, participantes se reúnem, há um mestre que preside as sessões e um escriba que toma nota da poesia. Poetas ou aprendizes proferem tercetos com regras preestabelecidas, o primeiro desses tercetos se chama Hakku. Mais tarde o Hakku se torna Haikai (simplificando a história) que poetas escrevem na solitude ou em grupo também.

Para que eu estabelecesse as regras do Renga que iria propor, eu mesma precisava entender como era improvisar, queria que a regra principal, além de não estabelecermos tema nenhum para que os participantes pudessem ter um diálogo mais livre, fosse que eles usassem o kakekotoba. Comecei a pensar nas palavras possíveis, que criassem essa aproximação celular e de memória das palavras. Lembrei do exemplo de Leminski: pupila e pupilo. Segui andando, a mata estava mais quieta e havia um som constante desde o início, era o rio.

Água então. Água. E qual seria a célula a ser combinada? Ag, sem o acento para facilitar.

Seria então ag. Miragem.

Miragem é com g certo?

Sim.

Miragem.

Água e miragem.

São palavras tão próximas, como nunca escrevi sobre isso?

Levei esse descobrimento para a trilha, chegamos ao topo e voltamos à base, vimos montanhas. Corremos na volta e comemos amendoim e frutas secas para aguentar a quantidade de energia necessária. Já eram cinco da tarde quando chegamos ao final da trilha, onde havia uma cachoeira muito bonita, suas pedras eram um tanto pretas, a água branca e límpida corria pela superfície enegrecida, de modo suave e bruto, ao mesmo tempo.

Meu pai se sentou em frente à queda, meu irmão e minha mãe sentaram-se de costas, olhando até onde a água seguia, descendo a encosta.

Eu circulava entre eles, arrepio na espinha constante, alegria profunda, sentei ao lado do meu pai e ouvi a água dentro de mim correr e levar muita coisa.

Água e miragem.

agosto-62

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Pela noite os sonhos foram muito agitados, fui descobrir que todos sonharam conteúdos intensos, os quatro. Tanto o exercício abriu novos espaços, como a lavagem e umidade levaram muita coisa antiga, dando possibilidade de brotarem.

Mas não brotou exatamente beleza, brotou aqueles temperos temidos: confusão, morte, feridas, medos, exposição.

Tudo isso numa mistura que durou as nove horas que dormimos em camas aleatórias, longe de casa.

Ao acordar o poema se completou na minha cabeça:

Agasalho na poltrona

Poça d’água sob a porta

Miragem interiorana

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Cantamos parabéns para o meu pai, duas vezes, com um bolo feito pela Sônia, mulher que nos recebeu com muito carinho. O cachorro da casa, Guri, olhava tudo com olhos brilhantes. Fotografei meu pai segurando as velas de pavio e flores vermelhas. Foi um café da manhã muito bom, o queijo era perfeito e o sabor do bolo deixou uma lembrança.

Contei ao meu pai o sonho, para tirar sua atenção antes de o bolo chegar, meu irmão combinava com Sônia na cozinha como seria, e eu contei as aventuras noturnas. Ele me disse:

Esse sonho é muito bom. Porque tem material para trabalhar. Tente esquecer não das imagens, são fortes, mas pelo menos ele apareceu. Uma oportunidade.

Meu pai é assim, ele costuma falar coisas tão simples de modo tão humilde, com uma fé na gente. É de uma sabedoria muito profunda e ao mesmo tempo despretensiosa. Porque é claro que ele só quer que eu possa aprender com a vida, mas que o caminho é sempre na solitude.

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Agasalho na poltrona

Poça d’água sob a porta

Miragem interiorana

O agasalho aqui é o inverno, como sempre nos Haikais há uma evidência da estação. Mas o agasalho é também o meu pai, ele está longe, mas está ali sempre disposto a me aquecer.

Ele também possui AG, como água, como miragem.  

A poça d’água é o mergulho no mundo dos sonhos, como um portal, por isso se encontra sob a porta.

A miragem é a evidência própria, do que as ideias e os pensamentos são: miragens, pois logo se desfazem. Como o zen nos ensina, como o budismo em geral nos ensina, temos de abraçar a miragem, sem repreender o mundo material para então, dia após dia, descobrir a substância transitória da vida.

Como diria meu pai: Uma nuvem no céu, ao tentar segurá-la, não há nada.

agosto-70
Foto feita por Mauro, meu pai, enquanto escrevia esse ensaio

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Camilla Loreta
 é formada em Audiovisual e História da Arte, em São Paulo. Pesquisa a escrita, o corpo e a imagem através das artes gráficas e audiovisuais. Seu trabalho foi publicado pela Editora Caixa e participou de feiras com a Plana (SP e RJ) e Tijuana (SP e RJ) em livros e zines individuais e coletivos. Dirigiu dois curtas-metragens, Clara e O Silêncio das Pedras, sendo esse último selecionado para a Semana Paulista de Curta-metragem. Participou de diversas residências internacionais e nacionais, entre elas: Kaaysa em Boiçucanga (Brasil) com o estudo Como se salvar de afogamentos; Encosta Residência na Ilha do Mel (Brasil), onde desenvolveu projetos de impacto local, dialogando com as comunidades e histórias da região; a residência solo FUGA (Nova Iorque) que rendeu seleção no Festival do Filme Livre, exibido em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília em 2019; The Artist meeting em Marianowo (Polônia), onde iniciou a escrita do livro Sândalo vermelho e os gatunos olhos dela, será romance de estreia como escritora, no momento em fase de aguardo para o mundo se assentar. Entre suas principais referências estão: Virginia Woolf, Matsuo Bashô, Ana Maria Gonçalves, Gita Metha, Sophia de Mello Breyner Andresen, Carola Saavedra e Haruki Murakami.