ÀS VÉSPERAS DE FINADOS – ANDERSON BERNARDES

Coluna | Palimpsesto

Admita, cadáver,
o desterro do desejo,
do descanso à dádiva!
(Antônio dos Anjos)

Engraçado, escreveram na lápide. Um amontoado de letras douradas por cima do corpo desse pobre magrela que nem sequer aprendeu a ler. Chamam ironia do destino. E esse povo sabe lá que diabos é ironia? Eu não faço ideia! Por destino muitos imaginam um velho com a história inteirinha de cada um de nós e do mundo todo guardada na cachola. Desconcordo. Ninguém sabe de véspera; destino é lugar pra onde levamos a vida. Olha o Antônio, enterrado debaixo duma pedra enfeitada com letrinhas. Se tivesse aprendido a ler, talvez fosse outro o destino. E eu não estaria aqui. Será isso a ironia? Jesus, botaram acento em fiel! Acho graça, mas meu riso amarga.

Conheci Antônio no primeiro dia de aula. Chegou numa bicicleta velha. As engrenagens rangiam e no bagageiro sacolejava o material. Uns cadernos vagabundos que o sindicato dava pras crianças no início de cada ano. Nele nada me chamou a atenção. Mas fiquei ali apalermada, enquanto o magrela saltava da bicicleta, se atrapalhava com cadeado e corrente, tirava os cadernos do bagageiro e vinha na minha direção de olhos nos pés.  Nem me viu! Só deu por mim quando desembestei a falar na sala de aula.

O professor, tão desacorçoado quanto os alunos, espalhou-se na cadeira e pediu a todos que contassem um pouco da vida e lhe dessem uma boa razão para terem deixado o jornal e a novela em casa às paredes. Ninguém abriu a boca. Minto. Dois ou três bocejaram. Olhei ao redor e o desalento na cara de Antônio combinava com a dormência dos demais. Ergui o braço, imitando as meninas da escola da TV, e esperei permissão de falar.

Antônio sempre dizia que se encantou por mim assim, de mão erguida. Contei à turma que casei novinha, criei os meninos, mas nunca larguei a vontade de um dia aprender a ler e escrever. Que tempo! Mesmo com os filhos já crescidos, tinha ainda o marido pra cuidar. Quando ele partiu, saí do enterro direto pro grupo escolar pra fazer matrícula. Na verdade, o falecido era o empecilho. Me livrei dele e aí pude me agarrar aos estudos.

Ninguém se animou a falar e eu continuei. Disse que adorava ouvir poesia e que aprenderia a ler pra recitar versinhos até o fim da vida. Só não contei de onde vinha essa paixão poética, nem a história do vizinho perigoso que trocava rimas românticas por sacanagens de adolescente num canto da praça depois da missa. Isso tudo antes de um bom partido aparecer com certeza de vida confortável e segura. Podem chamar de ironia do destino, se quiserem.

Depois de mim, os outros mal disseram o próprio nome. Antônio conseguiu ao menos comentar que a fábrica onde trabalhava tinha acabado de comprar umas máquinas modernas e que, para manter o emprego, precisaria procurar a escola. A obrigação condenava aquela turma inteira e também o professor a quatro horas de aula por dia.  Só eu queria estar ali. E o Antônio, depois de ver meu braço erguido. Ele não queria aprender nada, mas precisava.  E não precisava me querer, mas queria.

Quanto às letras, não houve meio. Naquela idade, todos nós passaríamos trabalho pra aprender alguma coisa, mas pro Antônio o desafio se agigantou. Uma doutora apareceu na escola e só de conversar descobriu nele uma doença incurável. A doutora e também o professor diziam que não era doença, era síndrome. Seja lá o que isso for, a cabeça dele não funcionava do jeito normal. Não que fosse doido; era bem certo até. Mas algo dentro dele fazia das letras mistério.

Eu aprendi a ler num já, tamanha a vontade. E pra me exibir na sala recitava uns versos achados em revistas e livros de escola. Me chamavam de poeta. Os bobos não sabiam, poeta é quem escreve. Não quem lê. Virou costume, todo dia esperavam os versinhos. E a cada vez que eu levantava a mão para me aparecer com poesia, Antônio me queria mais. Eu nem desconfiava. 

Surgiu então, daquela cabeça defeituosa pras letras, a ideia luminosa que nos juntou, que me fez reparar naquele magrela sentado na última cadeira no fundo da sala e que me faz estar aqui agora, na frente de um túmulo com letrinhas douradas e erro de português. Sim, ironia do destino.

A timidez de Antônio, assim como a doença que não era doença, também não tinha cura. O coitado não falava a ninguém, nem o necessário. No ponto de ônibus, se negava a pedir ajuda. Só embarcava se descobria pelas janelas algum vizinho já dentro da condução; ou quando reconhecia o motorista. Às vezes se atrapalhava todo e descia no meio do caminho pra não terminar ainda mais longe de casa, no outro lado da cidade. E voltava ao ponto da partida ou seguia seu destino a pé. Comigo não foi diferente. Antônio nunca se chegou pra jogar conversa fora, falar do tempo e do trabalho, ou pra elogiar meus poemas como todos os outros faziam. Eles nem entendiam meus versos! Eu também não, lia pelo gosto de ler.

Numa noite em que a maioria se entretinha com novela e jornal e uns poucos bocejavam diante do professor, eu e Antônio repartimos a cama pela primeira vez. Os cadernos do sindicato espalhados no chão. E a bicicleta em cadeado e corrente no pátio do grupo escolar. Antes de ir, curado da timidez sem cura, me contou como escreveu o poema. A história toda não tinha lugar melhor pra começar: um bar. Ponto de encontro dos funcionários da fábrica no fim de semana, ali surgiam as ideias mais malucas enquanto se jogava o dominó, a sinuca e se bebia a cachaça, a cerveja.

Sob efeito de alguns goles, Antônio chamou o dono do bar num canto e contou-lhe o plano que tinha bolado pra me conquistar. O amigo riu, caçoou da ideia besta que não lhe parecia outra coisa que não um rompante de frescura, resultado da bebida. Mas Antônio teimou e convenceu o amigo a tornar-se escritor por uma noite e pôr no papel algumas palavras bonitas. O bar esvaziou e os dois ficaram por ali, gastando caneta e folhas dum bloco de anotação pro jogo do bicho.

Mas tudo o que escreviam parecia música brega, melosa. Fora as tiradas maldosas de duplo sentido. No fim, riram muito e beberam ainda mais. Se a empreitada poética pra pouco serviu, pelo menos o dono do bar surgiu com uma boa ideia. E não era cachaça. Por que Antônio não copiava uma poesia de um livro?

Na biblioteca do grupo escolar onde o curso de alfabetização de adultos funcionava, Antônio seguiu com seu plano. Rodeou meia hora antes de vencer a timidez e perguntou pelos livros de poesia à bibliotecária. Espantada com a presença de alguém por ali naquele horário, a mulher sem vontade alguma mandou que ele sentasse e despejou sobre a mesa tudo o que tinha em versos.

Antonio virou páginas e páginas por muito tempo e, sem outro jeito de dar valor ao que tinha diante dos olhos, fez sua escolha pelo tamanho das palavras, pelos acentos, vírgulas, pelo ponto de exclamação, pelas letras repetidas, pela coincidência de o texto começar e terminar com a primeira letra do seu nome e pelo formato do poema posicionado bem no meio da página quase inteira branca. O tamanho também ajudou na decisão. Três versos bastavam. Não precisaria copiar um mundaréu de letras para dizer o que precisava ser dito.

Embaixo do poema desenhado bem no meio da folha de caderno do sindicato, Antônio escreveu o próprio nome, única coisa que não precisava copiar, e saiu da biblioteca pra sala de aula. Deixou o papel sobre a minha mesa, na primeira fila, e sem dizer coisa alguma sentou-se no lugar de sempre, no fundo da sala, cansado e calado, mas com semblante de quem cumpriu dever.

Até hoje não sei dizer por que aqueles três versos mexeram comigo. Eu lia e relia — coisa horrível! — e meu corpo inteiro tremia de emoção! Treme até hoje! Treme sempre que eu retiro a folha do caderno do sindicato da minha caixinha de fotografias e recordações. Não entendo, nem ele entendia.  

Eu fiz Antônio pular a cerca da timidez que nos separava. E várias vezes voltamos à biblioteca pra procurar o livro azul. Encontramos tantas capas azuladas, mas nunca o poema macabro de três linhas. E a cada busca eu tinha mais certeza, era Antônio o autor dos versos roubados.

Agora ele está aqui, embaixo da lápide com essa frase ridícula, com erro de português. Ironia do destino, não é? E com esse cheiro insuportável de produto de limpeza que invade o cemitério quando todos resolvem lavar túmulos às vésperas de Finados. Vou eu também lavar o túmulo do falecido e sair daqui antes que a viúva de Antônio apareça pra fazer escândalo de novo. Pra dizer, na minha cara, que matei meu marido pra roubar o dela.

Não suporto gente que se acha no direito de dizer as verdades na cara.


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NOTA DO AUTOR: Neste palimpsesto há vestígios do texto A natureza celular do encontro, publicado nesta Vício Velho por Camilla Loreta.

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ANDERSON BERNARDES é autor do romance não arranquem os vermes de mim (Oito e Meio, 2019). Formado em Comunicação Social – Jornalismo, com especialização em Design Gráfico, é sócio-fundador e editor da Ipêamarelo/Tabebuia. As crônicas de Braga e Sabino, as narrativas curtas de Poe, Machado e Kafka, a prosa proletária de Luiz Ruffato, a poesia de Sylvia Plath e as histórias de Dona Izaltina dizem um pouco de sua escrita.