DANDARAS – ADRIANO ESPÍNDOLA SANTOS

Coluna | Anseios Crípticos


Eu sou do tipo que escreve para se livrar do peso das palavras. Não pense você, leitora, que escrevo por dádiva, por bênção divina; essa poesia não me cabe. Como disse – e repito, para que não haja dúvidas –, esmago e expilo as palavras que me comprimem. O meu primeiro livro saiu de uma indignação. Morava na Espanha e soube da cabulosa notícia da morte de Dandara dos Santos, na minha cidade, Fortaleza – procure as informações na internet; não quero me afobar mais com isso. Como poderia uma coisa tão bárbara acontecer nesses tempos? Refleti, com ódio. Enquanto minha esposa escrevia a dissertação, eu, do seu lado, minutava um conto sobre o episódio. Ela leu, se revoltou e chorou tanto quanto eu – e, no fim, pediu para que eu escrevesse mais. O texto foi tomando volume e forma, porque não havia meios de permanecer com aquilo atrapalhando a minha respiração. Precisava arranjar alternativas para Dandara – ou para as Dandaras – sair da condenação premeditada. Não acreditei no tanto de palavras que expeli, com amor e raiva. Esvaziei-me, por dias. Não havia forças no meu corpo. Foi, então, o meu primeiro livro de ficção, que escrevi sem ter noção conceitual sobre a prosa; foi uma prova do destino, ou o que hoje se chama fluxo de consciência. Eu não tinha a pretensão de que se tornasse um best-seller. Mandei primeiro para um amigo, para fazer a leitura crítica. Ele me questionou sobre o lugar de fala: “Vem cá, antes de escrever, você devia ter o compromisso de conhecer a teoria de Djamila Ribeiro”. Ele tinha toda a razão. Como eu, um hétero, branco, teria condições de falar sobre a história de Dandara, ainda que de modo tangencial? Coloquei o texto na gaveta por longos meses. Li muito sobre o lugar de fala, sobre a propriedade de reclamar do que se sabe por constituição, por fundamento existencial, e entendi que podia fugir de uma visão essencialista, de que só pessoas transsexuais poderiam falar do tema; sim, eu poderia debater sobre o tema. Mas foi uma amiga transsexual que me encorajou a revisar e a publicar o livro. Ela disse que, por estar fora e ter um lugar privilegiado, deveria dar oportunidade ao meu texto; outras pessoas poderiam conhecer e se sensibilizar; tudo que somava era bem-vindo; poderia chamar a atenção de outras camadas da sociedade. Ficcionalizar e publicar se tornou um compromisso, um desejo de expansão, mesmo com medo da reação do público. No lançamento, um ano e meio depois de escrito, convidei-a para participar e falar sobre as suas vivências. Foi um momento lindo, inesquecível. Ela, com seu lugar de fala, me concedeu a ocasião de falar. E a maior prova de que deu certo, de alguma forma, é quando recebo, esporadicamente, uma mensagem de agradecimento pelo livro nas minhas redes sociais. O livro cumpre o seu papel e se ramifica, para novas percepções.

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Adriano Espíndola Santos (Instagram | Facebook) é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”; em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, pela Editora Penalux; e em 2022 a coletânea de contos “Não há de quê”, pela Editora Folheando. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

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Referências

PONCHIROLLI, Rafaela. Lugar de fala: o que esse termo significa? Disponível aqui. Acesso em: 13 set. 2023.

RIBEIRO, Djamila. Curta! Livros | O que é lugar de fala? Disponível aqui. Acesso em: 12 set. 2023.