Coluna | Anseios Crípticos
Escrever não é um dom. Como dizem os poetas, é trabalho, trabalho, trabalho, mil vezes trabalho, e suor. Já superei, há muito, o encanto juvenil. Mas escrever de forma simples, com o intuito despretensioso de tocar o leitor, isso sim é sublime. Não esqueço a primeira vez que li Manoel de Barros, a simplicidade e a magia, como algo que se escreve para ser comido, de tão palatável que é – bem, é uma tentativa de comparação à la Manoel de Barros. Passei também por J.D. Salinger, com o seu “O apanhador no campo de centeio”. Inesquecíveis as falas do protagonista, os xingamentos, o pouco-caso, a vida como ela é. Tantas obras têm o tom da veracidade, mas poucas se distinguem como “Os supridores”, de José Falero. E há um diferencial, que o autor conseguiu fazer, falar sobre a luta de classes sem ser panfletário. Não é a temática do livro, mas o protagonista é um supridor politizado, que sabe muito bem o seu lugar, e faz o seu jogo de sobrevivência, para se distanciar um pouco do sistema. Em “Viver morrendo”, meu novo livro que será lançado pela Folheando este ano, me inspirei fundamentalmente nessa escrita crua, direta. A personagem principal é um adolescente que, por ter perdido a mãe para as drogas, se vê enxotado de casa pela tia, irmã da mãe, que se apossa de suas coisas. A promessa bandida de Cipriano é de matá-la, numa morte dolorosa, com o seu mais livre instinto de vingador. Ele sai a ermo pela grande cidade de Fortaleza, que pouco conhecia, e se embrenha nas teias da sorte e do amor. Qualquer dia é dia de luta pela sobrevivência. Cipriano acha um jeito de escapar da morte, tantas vezes, apoiando-se no seu tino sagaz. É um menino inteligente e aprende os meandros da vida e da morte, ainda que tivesse de pecar ou matar. Rouba e é roubado pelo coração de Antonela, uma argentina perdida e presa pelo tráfico local. Aí o jovem se torna homem para defender a sua amada, e aplica uma emboscada sutil para livrá-la do chefão da boca. Cipriano nunca soube lidar com o amor, e o amor acaba por confundi-lo. No trato da obra, pude escapar das normas; conhecer, assim, a liberdade na escrita. E como é bom sentir as mãos livres para escrever, para experimentar… Na verdade, a escrita é um grande experimento, que pode dar ou não certo. Quanto mais pura, extirpados os vícios, a escrita se torna uma aliada da beleza; é assim que a vejo, hoje. A cadência é um instante de loucura, para quem tem as mãos libertas. Escrever e escrever, além das convenções, além dos preconceitos: escrever para viver.
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Adriano Espíndola Santos (Instagram | Facebook) é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”; em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, pela Editora Penalux; e em 2022 a coletânea de contos “Não há de quê”, pela Editora Folheando. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.