A POEIRA, A FORMIGA E O BOTÃO – ADRIANO ESPÍNDOLA SANTOS

Coluna | Anseios Crípticos


 

Ainda me lembro do tempo em que comecei a escrever. Eu pensava que escrever tinha a ver com questões complexas, e, por isso, escrevia para provavelmente não ser lido. Exprimia-me com as dúvidas da existência. Divagava por um mar de pretensão. Alçava voo para lugar nenhum, e mal saía do chão. Foi preciso ler, ler muito, para saber que a escrita é um ato de sutil provocação. É preciso conhecer Manoel de Barros, em sua naturalidade, Rubem Fonseca, em sua crueza, e João Anzanello Carrascoza, em sua elegância. João foi um desses que me tirou a venda e me mostrou que a cadência da escrita está, também, na singeleza. Passei a fazer um exercício principiológico: escrever sobre a natureza das coisas. Pode-se ver, inclusive, em Tchekhov o cuidado em descrever ambientes, objetos e pessoas, para concatenar as memórias de leitura e de vivência do leitor. Por exemplo: uma poeira não é uma simples poeira, ela dá ideia de abandono ou de destruição. Vejamos: “Na casa de dona Liduína, não se falava mais de Augusto. Ele partira para o Sul, à procura de trabalho, e deixara uma infinidade de lembranças. Não se falava porque Onório, o pai, proibira; o filho se debandara, ‘sem necessidade’, para se safar de suas obrigações com os trabalhos na roça. Ainda que ninguém acompanhasse, dona Liduína arrumava o quarto, limpava os postigos da janela, trocava a roupa de cama e o que mais fosse necessário, para que essas tarefas encurtassem a chegada do filho. Onório, num dia de cão, atoleimado do juízo, entrou no quarto do filho e se assustou, para ele o quarto deveria estar abandonado. Passou o dedo indicador no móvel colado à cama e percebeu que não havia resquício de poeira. Ralhou dona Liduína, como se não houvesse precisão de aprumar o que já não havia jeito, e foi surpreendido, no mesmo dia, com a chegada de Augusto, que pedira a bênção ao pai e à mãe, que agora voltava para passar uma temporada, estando muito bem pronto no Sul. O quarto, portanto, estava impecável, e por isso o filho soube que era muito amado. Onório, que não era de chorar, deixou escapar uma gota, para logo escapar em suas mãos”. Nesse miniconto, vê-se que a poeira – ou a ausência dela – conclui a chegada de Augusto. Ele soube do amor dos pais, mesmo com a dureza de Onório, que caiu por terra quando percebeu que Liduína tinha razão. Para um escritor mais atrevido, ou menos afeito aos detalhes, poderia ser algo sem importância, descartado, não cogitado sequer. A poeira, a formiga e o botão têm o seu valor. Particularmente, penso que a escrita carece da singeleza, da delicadeza, como expressões que compõem a beleza. Não se pode falar do mar e ocultar as ondas, a areia, o sol, a maresia e todas outras coisas que lhe são imprescindíveis.

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Adriano Espíndola Santos (Instagram | Facebook) é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”; em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, pela Editora Penalux; e em 2022 a coletânea de contos “Não há de quê”, pela Editora Folheando. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.