PALCO DE CRIAÇÃO – ADRIANO ESPÍNDOLA SANTOS

Coluna | Anseios Crípticos


 

Numa noite insone, me lembrei de ler “O Filho Eterno”. Estava há alguns meses escanteado, não por querer, mas porque havia outras leituras selecionadas na minha lista insondável. Cristovão Tezza é para mim um dos grandes nomes da literatura contemporânea. Já havia lido, há muito tempo, a “Tirania do Amor”, um livro que fala da relação de pai e filha, principalmente, e de outras relações que entremeiam, mas nada tão potente como o amor filial. E em “O Filho Eterno” isso se repete, dessa vez sobre a incompreensão de um pai jovem com um filho com Síndrome de Down. A história, ao que parece, tem algo de autoficção. Mesmo sendo dura, em muitos momentos é pura e ingênua, de um pai às voltas com a sua memória, que não cessa de perguntar: “Por que isso, logo comigo?”. Ainda que distante, na linda história percebi muito da minha própria relação com meu filho. Mesmo não sendo atípico, Marcelo têm suas peculiaridades, suas demandas, muito próprias de seu desenvolvimento – que carece, certas vezes, de Freud para explicar. Não saber lidar com situações pontuais, como trocar fraldas, dar banho, são questões comuns a todos os pais, e os pais não nascem pais, ou nascem quando o filho nasce. Marcelo, ainda menor, ficou muito doente – e é uma situação que preocupa –, e você pensa que isso pode trazer alguma consequência pior, alguma doença incontornável. Na hora de amamentar era um sofrimento. Quando eu levava o Marcelo para a Mayara, ela se tremia de dor, já na expectativa do sofrimento que viria – já que estava com o peito dilacerado. Eu, sinceramente, não sabia o que fazer, e permanecia em dor, juntamente com ela. Ao mesmo tempo compreendia que Marcelo era muito pequeno e precisava ser amamentado, até para fortalecer o seu apego à alma materna e para desenvolver a fase oral. A sorte foi que uma amiga, que também tinha filho pequeno, veio à nossa casa para amamentar o pequeno Marcelo, que, nessa hora, mamou muito, e só aí conseguiu dormir plenamente – porque os sonos eram quebrados e difíceis. A doença, até então desconhecida, foi amenizada pelo leite da outra mãe. Logo descobrimos que Marcelo tinha alergia a leite de vaca e a tudo proveniente dele, e a tudo que a mãe consumia de leite de vaca, por exemplo. O nome disse é APLV – reação imunológica ao leite de vaca. Tudo passou, e hoje o mais difícil é lidar com a força e a energia de uma criança saudável. O que eu quero dizer é que Marcelo tem o vigor de muitas vezes agredir e verbalizar coisas fortes – ou agredir com palavras. Ele testa os nossos limites, para saber até que ponto pode ir. Sendo uma criança típica, é possível ter informações e contornar com facilidade as situações, o que é bem diferente para o caso de “O Filho Eterno”, de Cristovão Tezza, em que o pai, ainda na década de setenta, tem de aprender com a sua experiência, porque poucos estudos havia naquela época, pouco se falava da Síndrome de Down, ou pouco se falava no assunto, como sendo uma aberração. Para o pai, nesse caso, pouca sorte lhe sobrava, a não ser o amor, que foi algo tardio, que apareceu com a vasta convivência com o bebê, que foi se tornando amor para o pai e para a mãe, à medida que foi crescendo. O conhecimento de mundo e o amor foi algo que regenerou e reavivou a linda relação.

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Adriano Espíndola Santos (Instagram | Facebook) é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”; em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, pela Editora Penalux; e em 2022 a coletânea de contos “Não há de quê”, pela Editora Folheando. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.